19/09/2026

V CICLO DE ESTUDOS EM FILOSOFIA - MINICURSO: FILOSOFIA E ENSINO DE FILOSOFIA NA ERA DIGITAL - possibilidades, problemas, limites e desafios

Plataforma Teams

     A filosofia tem a irrenunciável tarefa de pensar o tempo presente e de se contrapor criticamente ao pensamento vigente e dominante. Ora, vivemos numa época caracterizada e dominada, sobretudo, pelas novas tecnologias digitais ou pela transformação digital. Ao que parece, a vida do homem contemporâneo depende, em grande medida, dos novos meios tecnológicos. De outra parte, resulta preocupante o fascínio e o deslumbramento causados pelas potencialidades tecnológicas das novas ferramentas de “inteligência artificial” generativa. Para muitos, é dada como certa, óbvia e inquestionável a existência de “inteligência artificial”. A arma da crítica, da dúvida e do questionamento parece terem sido abandonadas não só pelo homem comum, mas por uma ala da filosofia acadêmica. Cumpre dizer que a filosofia não rejeita a tecnologia. Ao contrário, a filosofia se apropria criticamente dos recursos ou dos meios tecnológicos para poder pensar, comunicar ou transmitir seu pensamento. Porém, o uso meramente instrumental da tecnologia não condiz com o pensar filosófico. Cabe à filosofia não apenas usar, mas pensar ou compreender criticamente a natureza e os limites da tecnologia (seus pressupostos, valores, interesses, intencionalidades e compromissos ideológicos). Neste sentido, a filosofia precisa se repensar (ou se reinventar), se posicionar criticamente e não apenas se adaptar às novas tecnologias. Como sabemos, a história da filosofia é testemunha da transformação da filosofia, sem, contudo, se conformar à realidade dada ou estabelecida. Por isso, é preciso indagar: em que sentido a lógica algorítmica (digital) está transformando o pensamento filosófico, o ensino e o aprendizado da filosofia? A digitalização do acervo de textos e de obras filosóficas (pelas IAs generativas, bibliotecas digitais, sites, blogs, revistas eletrônicas, base de dados, repositórios on line, plataformas de ensino, ambiente virtual de aprendizagem, fóruns de discussão on line, grupos de estudo e de pesquisa on line etc.) está impactando o fazer filosófico contemporâneo, i.e., possibilitando novas formas de produção, transmissão e de disseminação do pensamento filosófico? Em que medida, a tecnologia digital potencializa ou compromete a autonomia, a autoria e a originalidade do pensar filosófico?

     Como se vê, as IAs são robôs virtuais – que parecem ser capazes de ler, falar, escrever (produzir textos, pintar quadros, compor músicas e poesias) – funções cognitivas que até então, eram prerrogativas dos seres humanos. Para os arautos das IA, os emergentes avanços tecnológicos atestam não só que as máquinas pensam (e que o homem é capaz de criar uma réplica de si mesmo) uma vez que executam tarefas que quando executadas pelos seres humanos requerem pensamento, mas que estamos próximos do dia em que as máquinas ultrapassarão a inteligência humana e se tornarão superinteligentes (hipótese da singularidade tecnológica). Ora, é incontestável que as revoluções tecnológicas alteraram as condições de existência do homem contemporâneo, de tal modo que parece impossível realizarmos determinadas tarefas sem os recursos técnicos de que hoje dispomos. A tecnologia digital, por sua vez, transformou não apenas a forma de trabalhar e produzir, a forma de se comunicar (falar, ler e escrever) e de aprender, mas nossa forma de pensar – de viver e de agir. Fruto de descobertas e de avanços científicos, os novos inventos técnicos estão moldando nosso pensamento e mediando nossas ações. Porém, tais fatos suscitam complexas e controversas questões filosóficas que não podem ser ignoradas. Pergunta-se: será a tecnologia uma ferramenta intrinsecamente neutra (livre de juízo de valor) – produto do progresso civilizatório ou um instrumento ideológico de dominação? A técnica é, por natureza, ambivalente – depende tão somente do uso de que dela fazemos ou é concebida e gestada para determinados fins ou propósitos? Poderá a técnica elevar a humanidade a um estágio superior de desenvolvimento civilizatório? Será o pensamento computável – redutível a um cálculo e passível de replicação artificial? É possível mecanizar ou automatizar as operações da inteligência? É legítimo falar de “inteligência artificial” ou deveríamos falar de simulação artificial da inteligência? Em que medida nossa maneira de pensar e de agir são dependentes da técnica? É a mente uma máquina digital? Pode uma máquina pensar? Pensar é o mesmo que calcular e computar? Que espécie de pensamento é o cálculo? É possível reduzir o pensamento a uma operação matemática (de cálculo)? Computadores e computação são a mesma coisa? A mente é uma máquina? Quais são as possibilidades e os limites da lógica computacional?

      De um ponto de vista filosófico, as novas ferramentas de IA operam sob um conceito controverso e deficitário de inteligência. Ou seja, toda vez que usamos um dispositivo tecnológico somos prisioneiros da lógica de funcionamento e das funcionalidades deste dispositivo. Por sua vez, o desenvolvimento do pensamento crítico, criativo e autônomo implica a transgressão ou a subversão da lógica algorítmica. Por isso, perguntar: O que significa pensar? O que nos torna humanos? O que significa ensinar e aprender na era da tecnologia digital? Quais impactos as novas formas de leitura e de escrita possibilitadas pelas mídias digitais estão causando no processo de ensino e de aprendizagem? Qual é o papel da escola e do professor em face das tecnologias digitais? As ferramentas de IA generativa promovem ou impedem o desenvolvimento do pensamento crítico e criativo? Ou seja, as novas ferramentas de IA expandem, ampliam ou comprimem (encurtam) a inteligência humana? Ou seja, em que medida, a tecnologia digital está alterando os meios e os fins da educação?

Os aparatos técnicos que ao longo da história da humanidade eram vistos como meios (instrumentos ou ferramentas) do fazer humano, aparecem agora revestidos de novos poderes (mistificados), porque orientam ou determinam os fins de nossas ações. No âmbito educacional, ao mesmo tempo em que as tecnologias digitais se apresentam como ferramentas pedagógicas trazem como consequência imediata, a desprofissionalização, a despolitização e a desintelectualização do professor. A plataformização da educação (ou a virtualização do ensino) reduz o papel do professor à condição de monitor tecnológico ou de operador de plataformas. O papel de mediador do conhecimento é negado ao professor. Nesta visão tecnicista e utilitarista, o conhecimento é transformado em mercadoria. O aluno é visto como cliente ou consumidor. A plataformização do ensino é uma forma de privatização e de mercantilização do conhecimento. Opera-se, deste modo, um deslocamento de ênfase da formação crítica para a instrução técnica (aprendizado de habilidades com aplicabilidade ao mercado) e do ensino para a aprendizagem (o aluno como protagonista), o que implica reduzir a educação a um processo de transmissão de informação e de aquisição de habilidades técnicas. Ou seja, as tecnologias digitais são incorporadas à educação não tanto porque trazem novas possibilidades e novos recursos de ensino e aprendizagem (a fim de tornar o trabalho educativo mais efetivo, personalizado, individualizado e produtivo), mas porque é preciso impedir de acordo com a lógica de reprodução do capital (e sua ideologia de dominação) que a educação se torne um instrumento de emancipação humana.

     Historicamente, o surgimento da cultura escrita possibilitou uma nova forma de ensino e de aprendizagem, diferentemente da cultura oral – fundada na memorização e na reprodução do conhecimento. O ato de ler e de escrever requer a atenção, a concentração e a reflexão pensamento, a fim de poder compreender e interpretar o que está dito e escrito, ao mesmo tempo em que impõe uma ordem lógica às ideias, possibilitando a produção de argumentos mais consistentes, coerentes e consequentes. Nas ferramentas digitais, o pensamento linear (sequencial) dos textos é atravessado e sobreposto pelo pensamento ilógico dos hipertextos linkados na tela. Na era digital, i.e., na era da linguagem visual ou imagética, a reflexão cede lugar à visão (ao olhar de superfície). A estimulação sensorial aliada aos estímulos de nossos desejos substitui o juízo crítico pelo senso comum, a ideia pela opinião. Ora, se as imagens dos textos digitais substituem os conceitos – o pensar reflexivo pela visão – o ser pelo parecer (pela aparência das coisas), então ocorre uma regressão no pensamento que resulta na impossibilidade de compreensão crítica da realidade. No uso das ferramentas digitais, o pensamento tende a ser superficial, irrefletido e simplificado, porque segue a lógica digital das imagens. Na superficialidade das imagens é o algoritmo que toma o lugar do pensamento conceitual, reflexivo e argumentativo. A formação e o conhecimento são substituídos pela instrução e informação. Assim, enquanto a cultura escrita tem o potencial de alargar e expandir a inteligência, a cultura digital pode fazer regredir a inteligência do ser humano, porque substitui os conceitos pelas imagens – contrai, limita ou reduz o modo de pensar e de se comunicar das novas gerações. O encurtamento cognitivo, o empobrecimento do pensamento que se manifesta na incapacidade de ler e de entender textos mais complexos ou elaborados, é um claro sintoma de que a tecnologia digital traz consigo problemas e desafios que precisam ser enfrentados e superados. 

    Os novos objetos técnicos não são apenas novas ferramentas, mas assistentes e agentes artificiais capazes de substituir o ser humanos em muitas tarefas cognitivas. A automatização de tarefas manuais e intelectuais pode comprometer a aquisição e o desenvolvimento de habilidades de pensamento e de comunicação que julgamos fundamentais para o desenvolvimento da inteligência humana. A denominada IA generativa traz, por um lado, novas possibilidades ou perspectivas, mas, por outro lado, representa uma ameaça para o próprio ser humano. As novas máquinas e dispositivos digitais ou eletrônicos são simuladores artificiais da inteligência, mas são desprovidos da capacidade de pensar. Todo pensamento pressupõe um sujeito que pensa, uma consciência e uma vontade livre (liberdade). A simulação do pensamento não é um pensamento, mas uma imitação de pensamento, porque o parecer (a aparência) não coincide com o ser (a essência). Pensar significa ter consciência de pensar, perceber-se pensando, atribuir significados, ser sujeito de uma experiência de pensamento. Por isso, um comportamento supostamente inteligente não é necessariamente manifestação de inteligência.

     Vê-se que a tecnologia digital representa para a filosofia não apenas novas possibilidades, mas um novo problema e um novo desafio. O problema tecnológico não consiste em desvendar a lógica de funcionamento e as funcionalidades dos objetos tecnológicos, mas em compreender a origem, a natureza, os limites e os interesses que comandam o avanço tecnológico. Cabe à filosofia indagar acerca do sentido, da legitimidade dos interesses que determinam o desenvolvimento tecnológico, assim como dos meios e dos fins das ações humanas. As invenções tecnológicas não ameaçam a sobrevivência da filosofia; ao contrário, em face do avanço técnico, a filosofia se tornou ainda mais necessária para questionar os interesses e os limites da técnica. Para que e para quem a tecnologia se desenvolve? A filosofia seguirá necessária ou imprescindível, porque o poder técnico-científico é incapaz de eliminar, formular e responder às questões fundamentais da existência humana, como, p.ex., o que significa ser inteligente? O que é a verdade? O que é a justiça? O que é o bem? O que nos torna humanos? A liberdade existe?  O que significa ser livre? O que é a técnica? Para que existe a técnica? etc. Questionar, problematizar, refletir e compreender criticamente a IA generativa, seus pressupostos e suas consequências é uma tarefa essencialmente filosófica. Ora, o pensamento crítico e autônomo não pode ser replicado nem substituído pelo pensamento técnico ou operacional. Enquanto a escrita exteriorizou e expandiu a memória, a imprensa e a internet expandiram a capacidade de comunicação e de circulação de ideias, a revolução digital, ao que parece, pretende, exteriorizar e expandir funções cognitivas. Entretanto, nenhuma tecnologia é neutra ou desinteressada; toda tecnologia é contraditória. Por isso, resulta necessário perguntar: em que sentido, a tecnologia digital poderá provocar uma contração na inteligência ou um declínio cognitivo? Se a filosofia tem como tarefa ensinar a pensar melhor (de forma mais alargada e aprofundada), como é possível aprender a pensar filosoficamente com a IA generativa? Ou será preciso pensar contra os limites da IA generativa? Estas são questões inevitáveis quando se trata de compreender a relação entre filosofia, tecnologia digital e ensino de filosofia.  As plataformas digitais transformaram os processos de ensino e de aprendizagem. O professor está perdendo sua autoridade e sua autonomia intelectual e pedagógica para as plataformas digitais, uma vez que determinam o que se ensina, como se ensina, como se aprende e como se avalia a aprendizagem.  

 

Objetivos:

- Compreender criticamente a relação que existe entre as novas tecnologias digitais e a sociedade capitalista contemporânea, a fim de perceber a ação dos condicionantes ideológicos, políticos e econômicos por detrás do otimismo e do solucionismo tecnológico, assim como seus impactos na filosofia e no ensino de filosofia;   

- Analisar criticamente as potencialidades, os problemas, os limites e os desafios das novas ferramentas de inteligência artificial no processo educacional, a fim de distinguir o uso crítico do uso meramente instrumental, ideológico e manipulatório da tecnologia e seus impactos no exercício do pensamento filosófico e no ensino/aprendizado da filosofia;

- Discutir o potencial pedagógico e os limites intrínsecos das tecnologias digitais quando aplicadas ao processo educativo (de ensino e aprendizagem), a fim de distinguir os meios (instrumentos/ferramentas tecnológicas) dos fins da educação em confronto com a natureza do ensino/aprendizado da filosofia;

- Problematizar a relação que existe entre sociedade, educação e tecnologia, a fim de compreender o caráter histórico e contraditório dos processos sociais, assim como a diferença que existe entre a educação emancipatória (transformadora da sociedade) e a educação neotecnicista direcionada exclusivamente ao processo produtivo e à reprodução da ordem social vigente.

                                                                                                              

                                                                                                                                          PROGRAMAÇÃO

Dia 19/09/2026 – Sábado (das 9:0h às 12:0h)

Filosofia, capitalismo de plataforma e colonialismo digital: a nova servidão voluntária

Dia 17/10/2026 – Sábado (das 9:0h às 12:0h)

Filosofia e tecnologia digital: a supremacia da razão técnica e a regressão do pensamento crítico

Dia 14/11/2026 – Sábado (das 9:0h às 12:0h)

Filosofia, IA generativa e ensino de filosofia: do pensamento autônomo ao pensamento automatizado

 

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