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Lançamento do livro 'DISSEMINÁRIOS: Desconstruindo fronteiras entre Filosofia, Psicanálise, Literatura e Educação'
Fantasmas que habitam o próprio eu, flores de velório e objetos que se rebelam contra seus donos povoam Disseminários: Desconstruindo fronteiras entre filosofia, psicanálise, literatura e educação (Papirus Editora). Organizada por Diogo Bogéa e Alice Casimiro Lopes, professores do programa de pós-graduação em Educação da UERJ, a coletânea reúne seis autores que, articulando Desconstrução e Psicanálise, investigam o que há de estranho no que costumamos reconhecer como familiar: nossa casa, nosso corpo, nossas palavras, nossa humanidade.
O título brinca com o sentido fluido da palavra: parte tanto do ato cotidiano de difundir e propagar quanto da noção filosófica de disseminação de Jacques Derrida.
Paulo Cesar Duque-Estrada, referência brasileira nos estudos de Derrida, abre o volume pela vida do filósofo: a infância na Argélia colonial, a expulsão da escola por ser judeu, a experiência de não pertencimento. Desse percurso emerge um pensamento atento ao que escapa às identidades e aos sistemas, comprometido com a singularidade de cada outro.
Em “Não é preciso ser um quarto para ser assombrado”, Diogo Bogéa, professor de Filosofia e Psicanálise da Uerj, parte de Emily Dickinson para aproximar Freud e Derrida. Os fantasmas mais perturbadores podem habitar o que julgamos mais íntimo. Inconsciente, recalque e pulsão tornam inquietante a pergunta sobre quem somos: quem é o senhor de uma casa assombrada por tantos outros?
Dirce Eleonora Nigro Solis, pesquisadora da desconstrução e autora de Desconstrução e arquitetura, conduz o leitor ao universo de Jean Genet em Glas, de Derrida. Flores apodrecidas, prisões, erotismo e personagens marginalizados compõem uma escrita na qual beleza e abjeção se contaminam. Em diálogo com os “monstros inumanos” de Max Stirner, o capítulo perturba os padrões pelos quais se decide o que merece ser chamado de humano.
Referência nos estudos de currículo e também escritora de ficção, Alice Casimiro Lopes interroga as fronteiras entre ficção e não ficção e suas consequências para a educação. Nenhum texto controla inteiramente os sentidos produzidos por seus leitores. Pensar a literatura como ato de educar implica, assim, abrir espaço para “comunidades da pergunta”, dispostas a acolher a interpretação desconsiderada e a possibilidade imprevista.
Evando Nascimento, escritor, tradutor e um dos principais estudiosos das relações entre Derrida e literatura no Brasil, encontra em Clarice Lispector uma inquietante potência das coisas. Um elevador que se recusa a obedecer e um relógio que perturba a distinção entre sonho e realidade participam de uma literatura que desarruma as fronteiras entre humanos e não humanos. O percurso chega à proposta de uma respolítica, uma política das – e com as – coisas.
O psicanalista Carlos Linhares Veloso Filho acompanha os deslocamentos de Freud e Lacan até a proposta de MD Magno de uma psicanálise sem chão nem centro fixo. A pulsão e a repetição corroem as tentativas de construir um fundamento definitivo. A questão alcança a própria clínica: como trabalhar com aquilo que insiste em retornar, mesmo quando produz sofrimento, sem prometer uma reconciliação final?
Nascida dos encontros gratuitos e abertos ao público realizados em 2025 no Centro Cultural Justiça Federal, no Rio de Janeiro, e ampliada com contribuições de autores convidados, a coletânea aposta na possibilidade de suscitar leituras inéditas sobre o que já se supõe plenamente conhecido. “Esperamos, assim, que este livro possa ser mais uma das sementes textuais espalhadas, lidas, interpretadas, traduzidas, abertas a toda outra alteridade”, escrevem os organizadores.