14/08/2025
Lançamento: Epicteto, Manual do estoicismo
Livraria da Vila, na rua Fradique Coutinho, 915, na Vila Madalena, São Paulo.

Convidamos a todos e todas para o lançamento de Epicteto, Manual de Estoicismo, que acaba de ser lançada nossa edição de Epicteto pela Companhia das Letras / Penguin. O evento acontecerá na Livraria da Vila, na rua Fradique Coutinho, 915, na Vila Madalena, São Paulo. O volume contém a tradução minha e de Alfredo Julien do Manual de Epicteto, anteriormente publicada pela Imprensa de Coimbra (2014); as quatro primeiras diatribes de Epicteto, cujo livro I publiquei também pela Imprensa de Coimbra (2019); e os fragmentos epictetianos, que eu e Julien traduzimos na primeira década deste século e que até então teve apenas uma edição universitária.
Minha história com Epicteto começou no princípio do século em Petrópolis. Conheci as cartas de Sêneca em edição francesa. Eu havia estudado dez anos seguidos filosofia, me formando como bacharel em filosofia (UERJ), mestre e doutor em filosofia clássica (PUC Rio) e jamais havia ouvido falar dos filósofos estoicos em sala de aula. Eles eram tratados como inexistentes. Não havia praticamente edições em português, excetuando algumas excelentes traduções de Sêneca publicadas pela Nova Alexandria, uma coletânea de Marco Aurélio, o trabalho pioneiro de Rachel Gazolla (O ofício do filósofo estoico, Loyola, 1999), entre alguns outros.
Lembro, nos anos 2000, de ter comprado uma coletânea em francês de textos do estoicismo antigo organizada por Jean Brun (Les Stoïciens : textes choisis, Presses Universitaires de France (PUF), Les Grands textes (Paris), 10e éd, Paris, 1998) e, nesse livro, me deparei com o Manual de Epicteto. Devorei o livro e o Manual e, estupefato, indaguei a mim mesmo: como é possível não haver tradução disponível deste livro na língua lusófona?
Um dia, saindo de uma das aulas na PUC Rio entrando na livraria no andar térreo, me deparei com um livro atribuído a Epicteto e fiquei entusiasmado, exclamando internamente: "Já traduziram!" Comprei o livro imediatamente e rumei para Petrópolis. Ao chegar em casa, abrir o livro e... decepção! Não se tratava de Epicteto, mas de uma patética paráfrase que se fazia passar como obra do antigo filósofo. Fiquei indignado. Voltei à livraria e pedi meu dinheiro de volta e imediatamente propus a mim mesmo a tarefa de traduzir para a nossa língua o Manual.
A história dessa primeira tradução (que denominei de "popularização") o leitor pode encontrar aqui. Esta primeira tradução, após diversas edições universitárias, foi publicada pela Auster em 2020. Em meus tempos na Universidade Federal de Sergipe, criei uma promoção pela qual enviávamos graciosamente um exemplar da edição universitária a qualquer um que nos informasse seu endereço no Brasil, que teve grande sucesso. Enviamos centenas de exemplares ao longo dos anos. Os originais da tradução podem ser acessados aqui.
Após esses primeiros sucessos, senti a precisão de produzir uma tradução filosófica mais apurada. Eu havia entrado em contato com o trabalho de Gerard Boter, que, em livro publicado em 1999, estabelecera o texto grego do Manual. Convidei, então, Alfredo Julien, doutor em história pela USP, para me ajudar na tarefa. Começamos pelos fragmentos de Epicteto e depois constituímos uma edição bilíngue do Manual. Fizemos uma edição universitária deste trabalho e o enviamos para dezenas de universidades no Brasil (atualmente essa edição, em formato físico, pode ser adquirida aqui). Apenas um pesquisador respondeu, agradecendo o envio do exemplar. Este foi o nosso Gabriele Cornelli, professor da UnB e editor da Revista Archai, que nos convidou para publicar nossa tradução em sua revista, convite que, honrados, aceitamos (a edição pode ser encontrada aqui). O trabalho, como já disse, foi posteriormente publicado pela Imprensa de Coimbra em 2014. E agora, em 2025, um quarto de século depois, e após muito burilarmos e aperfeiçoarmos nossa tradução, finalmente a publicamos em uma das maiores e mais relevantes editoras do Brasil.
A edição é compacta e muito bem editada. A tradução é filosófica, complementada com notas e introduções. A linguagem é escorreita, no português corrente, sem palavras caducas. Mantivemos, porém, as segundas pessoas do singular e do plural do texto grego para conservarmos o ar de antiguidade que é próprio do texto, oferecendo ao leitor a sensação de viagem no tempo que experimentamos quando, por exemplo, lemos um texto de Machado de Assis. A capa é belíssima, fazendo referência às relações que fundamentam a ética epictetiana e estoica. Para os estoicos, o Cosmos é a totalidade das substâncias individuais. E nós, como substâncias tais, não somos apenas partes, como observará o nosso Imperador Marco Aurélio, mas membros da totalidade cósmica. O Cosmos, a partir dessa visão, perfaz uma totalidade orgânica, e a ética epictetiana nos ensina sobre isto: como nos relacionar e como nos reintegrar à totalidade cósmica e a cada um dos membros que a constituem. Em uma sociedade como a atual, na qual imperam o despertencimento e a desconexão em relação aos demais humanos e ao mundo, isso constitui uma oportunidade única de encontrar vida nova para além das ideologias, do senso comum, da Academia, despertando um verdadeiro sentimento de fraternidade e promovendo um reencontro consigo mesmo e um encontro com o Cosmos estoico. Isso foi o que eu afortunadamente pude experimentar por meio dessa longa imersão no Estoicismo, que é, para mim, uma filosofia para o futuro.