02/10/2026
Lançamento: UMA ÉTICA CONTRA A EXINÇÃO, de Jelson R. de Oliveira
Café Cultura (Avenida Cândido Hartmann, 890 - Bigorrilho - Curitiba/PR)
“Ethics against extinction: Animal rights to life and human responsibility”(Ética contra a extinção: direitos dos animais à vida e responsabilidade humana no Antropoceno), lançado pela Springer (2026) é o novo livro do professor Jelson Oliveira (PUCPR; CNPq). O livro é o volume 9 da coleção “Ecology and Ethics” e enfrenta um dos mais graves desafios éticos do nosso tempo: a aceleração da extinção de espécies provocada pela ação humana. Partindo do diagnóstico da sexta extinção em massa em andamento nos nossos dias, Oliveira argumenta que o desaparecimento contemporâneo das espécies não pode ser compreendido como um processo natural, mas como um fenômeno antropogênico, ligado a escolhas econômicas, políticas, culturais e tecnológicas. Isso porque, no Antropoceno, o extraordinário crescimento do poder tecnológico transformou a humanidade em uma força capaz de modificar os sistemas planetários e comprometer as próprias condições de continuidade da vida. A extinção torna-se, assim, uma questão filosófica fundamental, porque não representa apenas a perda de indivíduos ou de recursos naturais, mas a eliminação irreversível de formas de vida e de possibilidades futuras.
Nesse contexto, o livro recorre à filosofia de Hans Jonas para formular os fundamentos ontológicos de uma ética contra a extinção. Sua tese central é que a vida constitui um bem em si mesma, pois cada organismo manifesta, em seu próprio existir, uma tendência à conservação e uma afirmação do ser diante do não-ser. Essa perspectiva permite a Oliveira superar critérios éticos baseados exclusivamente na senciência, na racionalidade, nas capacidades cognitivas ou na semelhança dos animais com os seres humanos. O livro mostra também que a vulnerabilidade da vida e não sua proximidade com o humano, torna-se o fundamento da obrigação moral. Ora, se quanto maior é o poder humano de transformar e destruir a natureza, então maior é sua responsabilidade em relação às formas de vida submetidas a esse poder.
Por isso, a extinção aparece como a expressão extrema da irresponsabilidade: aquilo que desaparece definitivamente não pode ser reparado, compensado ou restituído. A ética proposta no livro assume, consequentemente, um caráter preventivo, orientado pela precaução, pela preservação e pela autolimitação voluntária do poder humano. Ao mesmo tempo, a obra questiona a crença de que os problemas produzidos pela expansão tecnológica possam ser resolvidos simplesmente com mais tecnologia, sem transformação de nossos modos de vida.
Como alternativa, desenvolve-se o conceito de “convivialismo multiespécies”, destinado a substituir relações de dominação e exploração por formas responsáveis de coexistência entre humanos e outros seres vivos. Essa proposta amplia a comunidade moral para além da esfera exclusivamente humana e reconhece a interdependência constitutiva entre as diferentes formas de vida.
O livro aproxima, ainda, a ética da responsabilidade de Jonas dos saberes e modos de vida de povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais. Essas perspectivas ajudam a questionar as separações rígidas entre humanidade e animalidade, cultura e natureza, oferecendo modelos relacionais nos quais os animais aparecem como parentes, sujeitos e coabitantes do mundo. Contra a lógica antropocêntrica que transforma seres vivos em recursos disponíveis, a obra propõe uma ética fundada no reconhecimento da pluralidade e do valor intrínseco da vida.
Preservar uma espécie significa, nessa perspectiva, preservar não apenas determinados organismos, mas relações ecológicas, histórias evolutivas e possibilidades ainda abertas ao futuro. A ética contra a extinção configura-se, portanto, como uma ética da preservação, da prevenção, do cuidado, da responsabilidade compartilhada e da coexistência. Em última instância, o livro sustenta que defender os animais contra a extinção significa defender a própria continuidade da aventura da vida na Terra — e reconhecer que não há futuro propriamente humano sem o futuro das demais formas de vida.
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