03/09/2026
Chamada para submissões: Filosofia dos Animes
Revista Das Questões (UnB)
A Revista das Questões, publicação transdisciplinar e alternativa do Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília, abre chamada de artigos para dossiê temático dedicado à filosofia das mídias de animes e mangas. Convidamos pesquisadoras, pesquisadores, estudantes de pós-graduação e graduação, e todo interessado em pensar filosoficamente a produção de animes e mangás japoneses a submeter artigos, capítulos de dissertação ou tese, resenhas, ensaios, entrevistas, traduções comentadas, textos experimentais e produções audiovisuais que tomem essas obras não como mera reprodução de certa indústria cultural, mas como matéria legítima de reflexão filosófica — capazes de colocar em movimento problemas ontológicos, éticos, políticos, estéticos e epistemológicos com o mesmo rigor e a mesma seriedade que dedicamos a qualquer outro objeto das aproximações com outras manifestações artísticas e culturais.
Animes e mangás compõem, hoje, um dos territórios mais férteis e menos explorados pela filosofia acadêmica brasileira para se pensar certos campos da Filosofia. Ao mesmo tempo, sua ligeira aproximação com os universos digitais e ecossistemas alternativos sempre denunciou uma ligeira inclinação de seus fãs, fóruns e espaços de discussão serem tomados por reflexões e engajamentos de natureza filosófica e desafiante ao pensar. Longe de serem apenas produtos de consumo em série, essas narrativas condensam, sob a forma de imagem, personagem e enredo, disputas conceituais que atravessam a modernidade tardia: a relação entre indivíduo e sistema, entre tradição e técnica, entre corpo e informação, entre memória e simulação. Pensar filosoficamente as mídias de anime e manga é reconhecer sobretudo que a imagem popular também pensa — e que, por vezes, pensa aquilo que o discurso filosófico tradicional ainda hesita ou não foi capaz de registrar tão precocemente. Com algumas obras se inserindo no verdadeiro escopo de chamadas “obras ensaio”, como o filme surrealista Tenshi no Tamago (1985), com artes conceituais de Yoshitaka Amano e Suzuki Toshio como um dos produtores, ou o célebre manga de horror cósmico de Junji Ito, Uzumaki (1998-1999).
Um dos pontos de partida possíveis para se engajar com as reflexões deste número é a leitura que Hiroki Azuma propõe em Otaku: Japan's Database Animals (2001). Retomando e deslocando a noção de “consumo narrativo” de Eiji ?tsuka, Azuma sustenta que a cultura otaku contemporânea marca a passagem de um regime de grandes narrativas — totalidades de sentido a serem reconstituídas pelo leitor — para um regime de consumo de banco de dados, em que personagens, cenários e situações circulam como elementos combinatórios, deslocados de qualquer narrativa unificadora. Essa hipótese, que Azuma articula a partir da leitura de Alexandre Kojève sobre o fim da história e a “animalização” do sujeito pós-histórico, oferece uma chave de leitura filosófica profundamente original, se é verdade que o anime contemporâneo opera cada vez mais por fragmentação, serialização e recombinação de elementos, então ele não é apenas sintoma da pós-modernidade, mas é também um dos vetores privilegiados onde ela pode ser observada e pensada em ato. Contribuições que dialoguem com a obra de Azuma, o confrontem, o atualizem ou o critiquem a partir de obras específicas são especialmente bem-vindas.
Uma segunda via de entrada, complementar à primeira, é tratar determinadas obras de anime e mangá como verdadeiros experimentos mentais (Gedankenexperiment) em funcionamento — narrativas que colocam em cena, com um grau de elaboração e consequência dificilmente alcançado pelo enunciado filosófico abstrato, problemas clássicos da metafísica, da epistemologia e da ética. Ghost in the Shell, Neon Genesis Evangelion, Dorohedoro, Shoujo Kakumei Utena e Simoun encenam, com a questão da identidade — seja através de um corpo protético, enfeitiçado ou constructos identitários sociais —, uma variação contemporânea do problema do Navio de Teseu e da continuidade pessoal. Steins;Gate, Boku no Chikyuu o Mamotte (Please Save My Earth), Sailor Moon, Orange e Puella Madoka Magica exploram, por meio de loops ou viagens temporais, mundos possíveis, civilizações alienígenas e o problema do determinismo, do livre-arbítrio e do custo moral de se alterar o curso dos acontecimentos — uma reformulação, em chave afetiva, do problema das gerações futuras e dos dilemas de bonde (trolley problems). Serial Experiments Lain, They Were Eleven!, Dororo e Ergo Proxy retomam, à sua maneira, a hipótese cética do cérebro na cuba, perguntando o que resta do sujeito quando a fronteira entre real e simulado se torna indecidível. Rosa de Versalhes, Ooku: por dentro do castelo, Akatsuki no Yona, Anatolia Story, Attack on Titan e Code Geass reencenam, em escala épica, disputas sobre a legitimidade do poder e a tensão entre liberdade e ordem. Outros tipos de questionamentos filosóficos também são bem vindos, como em Tokyo Mew Mew, Princesa Mononoke e X1999, que traz a problemática da tecnologia e da natureza e a preocupação com a crise climática. Beastars e Yakusoku no Neverland, que podem ser trabalhados em torno de problemas como filosofia de vida, alimentação e crueldade. Fruits Basket, Gokinjo Monogatari, Mars e Ganbare! Nakamura-kun que através do sobrenatural ou do cotidiano trabalham problemas como trauma, noções de família e de relacionamentos e expectativas sociais. Ou ainda obras aparentemente simples mas que carregam profundidade reflexiva sobre a existência, seja psicológica (humana ou não) ou um lugar que guarda memórias, como os casos de Kodomo no Omocha, Demi-chan wa kataritai e Awajima Hyakkei. Ou questões focadas na indústria cultural, como ecossistema e mídia, é o caso de Diários de uma Apotecária, uma novel adaptada para manga, anime e live-action.
Interessa-nos, neste número, tanto o mapeamento desses experimentos quanto a pergunta metafilosófica que eles suscitam: o que significa fazer filosofia por meio de uma imagem?
Por fim, este dossiê da Revista das Questões também deseja acolher a tensão, tão viva no próprio Japão contemporâneo, entre tradição e modernização, possivelmente podendo se engajar em reflexões entre elementos do xintoísmo, do budismo e do confucionismo que persistem, transformados, em narrativas de aparência inteiramente pop, e a experiência de um capitalismo tardio, tecnológico e globalizado que essas mesmas narrativas tantas vezes tematizam e criticam. Coerente com a vocação transdisciplinar e alternativa da revista, esta chamada não busca fechar o que conta como “filosófico” em anime e mangá, mas abrir espaço para abordagens plurais, da fenomenologia à teoria crítica, da filosofia analítica à filosofia da técnica, da estética à filosofia política, desde que movidas pelo entrelaçamento com esse vasto universo de produções.
São sugeridos os eixos abaixo, sem caráter exaustivo — submissões que dialoguem com mais de um eixo, ou que proponham articulações não previstas aqui, são bem-vindas:
-
Existência, identidade e subjetividade — humanidade, alteridade e o não humano (robôs, ciborgues, y?kai, ayakashi...); processos de individuação e amadurecimento (bildung) como problema filosófico.
-
Tecnologia, corpo e pós-humano — mecha, inteligência artificial, transumanismo e biopolítica do corpo tecnificado.
-
Ética e ação — dilemas morais, justiça, violência, vingança e perdão; ética aplicada a partir de estudos de caso ficcionais.
-
Narrativa, serialização e pós-modernidade — clichês e tropo, passagem de regimes narrativos (Hiroki Azuma), consumo pós-moderno, demografias e as leituras sobre a cultura otaku.
-
Metafísica, tempo e experimentos mentais — identidade pessoal, determinismo e livre-arbítrio, ceticismo e simulação — anime e manga como experimento mental.
-
Política, poder e utopia/distopia — Estado, guerra, capitalismo, poder, utopia e distopia.
-
Tradição, modernização e o Japão contemporâneo — tensões entre tradição e modernidade; xintoísmo, budismo, confucionismo, nacionalismo e globalização cultural.
-
Estética e teoria da imagem — a linguagem visual do mangá e do anime; mono no aware, kawaii, o sublime e o grotesco como categorias estéticas.
-
Gênero, corpo e desejo — masculinidades e feminilidades, queerness, corpo e desejo; crítica de gênero e de suas representações.
-
Anime e mangá como indústria cultural global — soft power japonês, fandom, tradução cultural e apropriações do anime e do mangá fora do Japão, inclusive no Brasil.
-
Infância, formação e pedagogia — o papel formativo do anime e do mangá; filosofia da educação em narrativas de sh?nen e sh?jo.
Os manuscritos serão avaliados direta e exclusivamente pelos editores do dossiê.
Submissões até 01/02/2027.