06/05/2026
Lançamento da Revista: Simbólica - Revista de Filosofia da Cultura e Estudos Interdisciplinares (UNICAMP/UFC)
IFCH-UNICAMP
Lançamento da Revista: Simbólica - Revista de Filosofia da Cultura e Estudos Interdisciplinares (UNICAMP/UFC)
É com profunda satisfação e com o entusiasmo próprio dos começos que apresentamos ao público o primeiro volume da Simbólica – Revista de Filosofia da Cultura e Estudos Interdisciplinares. Este lançamento representa não apenas a concretização de um projeto editorial, mas, sobretudo, a abertura de um espaço de reflexão dedicado a um campo que, nas últimas décadas, tem revelado enorme vitalidade e potencial: a filosofia da cultura.
A Simbólica nasce organizada pelo Grupo de Pesquisa Neokantismo e Filosofia da Cultura (CNPq) e pelo GT homônimo da ANPOF, e carrega em seu nome uma herança simbólica precisa. Inspirada no movimento neokantiano de filosofia da cultura, a revista reconhece nessa tradição seu ponto de partida privilegiado. Contudo, não pretende circunscrever-se a ela. Ao contrário, a Simbólica se inspira antes no pendor plural e de intenso intercâmbio com as ciências particulares que marcou esse movimento.
O diálogo com outras correntes filosóficas, que já era uma marca característica do próprio movimento neokantiano, permanece como um horizonte metodológico e temático desta publicação. Acreditamos que a filosofia da cultura, justamente por sua natureza plural e porosa aos diversos campos do saber, constitui um terreno fértil para o encontro entre tradições, períodos históricos e disciplinas distintas. Nesse sentido, a Simbólica visa tanto ao trabalho historiográfico da filosofia quanto às discussões contemporâneas em torno da cultura, atenta à centralidade que esta ganhou também desde meados do século XX até nossos dias.
Este primeiro volume é composto por quatro traduções. A primeira delas, “O conceito de forma simbólica na construção das ciências do espírito”, traz o primeiro artigo em que Cassirer apresenta de modo sistemático os princípios fundamentais de sua filosofia da cultura, definindo o conceito de forma simbólica como “toda energia do espírito através da qual um teor de significado espiritual se conecta a um signo sensível concreto e se apropria internamente desse signo.” Cassirer demonstra que cada forma simbólica - linguagem, mito, arte, ciência - constitui um modo próprio e irredutível de configuração da objetividade. O texto introdutório, de autoria de Caio de Almeida Vituriano, situa o artigo no contexto da aproximação de Cassirer com a Biblioteca Warburg e discute as principais questões exegéticas que ele suscita, o que faz desta tradução uma porta de entrada privilegiada para o programa filosófico cassireriano.
Em “O naturalista Goethe”, escrito em 1932 para um suplemento comemorativo do centenário da morte de Goethe e aqui apresentado em sua primeira tradução para o português, Cassirer condensa, com notável rigor filosófico, sua interpretação da obra científica e artística do poeta de Weimar. Contra a tendência de reduzir as contribuições de Goethe à ciência natural a um papel secundário em sua produção, Cassirer sustenta que a atividade do pesquisador e a do artista brotam da mesma força espiritual: a imaginação. É ela que se manifesta de modo indissociável na ideia de metamorfose, na doutrina das cores e na concepção de forma viva. O texto introdutório, de Renato Costa Leandro, reconstrói a longa e profunda relação intelectual entre Cassirer e Goethe ao longo de toda a obra do filósofo, argumentando que o “uomo universale” de Weimar desempenhou papel estruturante no próprio desenvolvimento da filosofia das formas simbólicas.
No ensaio “Comparando neokantianos: Ernst Cassirer e Georg Simmel”, Frédéric Vandenberghe propõe uma comparação sistemática entre as filosofias desses autores, situando ambos no interior do movimento neokantiano e investigando suas implicações para a sociologia contemporânea. O autor contrasta a teoria vitalista e trágica da cultura de Simmel, caracterizada pela oposição irreconciliável entre a fluidez da vida e a rigidez alienante das formas, com a filosofia das formas simbólicas de Cassirer, que recusa esse impasse ao conceber a cultura não como alienação, mas como realização progressiva da liberdade humana por meio da simbolização. Vandenberghe também examina a teoria funcional e relacional do conceito em Cassirer, mostrando como ela supera o substancialismo aristotélico e antecipa desenvolvimentos do estruturalismo e da sociologia de Bourdieu.
Por fim, no artigo “A atualidade do mito: a teoria do mito como forma simbólica em Ernst Cassirer”, Birgit Recki examina a teoria do mito desenvolvida no âmbito da filosofia das formas simbólicas, com destaque para sua surpreendente atualidade. Recki demonstra que, para Cassirer, o mito não é um estágio arcaico e superado da cultura, mas uma forma genuína de compreensão do mundo, fundada na “unidade do sentimento” e na percepção fisionômica, que persiste e se manifesta mesmo nas sociedades modernas marcadas pela ciência e pela tecnologia. O artigo também enfrenta a acusação recente de que o pensamento antropológico de Cassirer seria colonialista, defendendo que o uso do adjetivo "primitivo" em seus textos é descritivo e metodológico, não valorativo. Ao situar a teoria do mito no quadro mais amplo da crítica da cultura como transformação da crítica da razão, Recki evidencia a relevância filosófica e política do projeto cassireriano para o presente.
Que este primeiro volume seja o início de uma longa e fecunda trajetória. Que a Simbólica possa cumprir sua missão de ser um lugar de intercâmbio entre ideias, tradições e perspectivas; um espaço onde a filosofia da cultura se renova ao se abrir ao outro, ao diferente, ao plural.
Boa leitura.
Os Editores
Grupo de Pesquisa Neokantismo e Filosofia da Cultura (CNPq)
GT Neokantismo e Filosofia da Cultura – ANPOF
Link de acesso: https://ojs.ifch.unicamp.br/index.php/simbolica/issue/view/284
Página no instagram: @revista.simbolica
