10/05/2026
Monstro, demasiado humano? Sobre monstros, linguagem e violência
Revista Ítaca (UFRJ)
Monstrare e monere, do latim, mostrar e avisar. Desde miradas humanas, monstros mostram e avisam: o bicho-papão debaixo da cama ou dentro do armário, a criatura perigosa de Frankenstein, o Xenomorfo da franquia Alien, o Homem Elefante, o gigante King Kong, ou mesmo os dragões que habitavam terras desconhecidas em mapas medievais (Kaplan, 2013). Como figura repulsiva e simultaneamente fascinante, monstros habitam nossos imaginários, provocando medo, curiosidade, desejo, nojo, e suscitando as mais diversas reações sociais. Como escreveu Jeffrey Cohen (2000) em suas sete teses sobre a teoria da monstruosidade, o monstro é uma criação intimamente cultural, constituindo-se a partir dos elementos disponíveis ao seu redor, do contexto político e econômico que o cerca. Há sempre algo a ser mostrado, e para alguém.
Ao passo que o monstro, na tradição do pensamento ocidental, configura uma ameaça ao humano, as transgressões de gênero figuram uma ameaça à família, à pureza, à religiosidade, ao uso dos banheiros. Conforme Julia Kristeva (1982), em seu ensaio Powers of Horror, a abjeção diz respeito justamente àquilo que contamina, que degenera, que corrompe; diz respeito àquilo que ultrapassa fronteiras, que invade e ameaça. A abjeção, característica própria ao monstro e ao monstruoso (Moraña, 2017), é atribuída a dissidências de gênero, sexo e sexualidade; ao que se compreende por desvio, por uma ameaça à família. O teor ameaçador do monstro se deve à promessa de corrupção, de desmantelamento da ordem humana, o que suscita seu aniquilamento: o monstro deve ser eliminado, preferencialmente por um herói, um representante da civilização.
Todavia, como pensa Cohen, o monstro nunca morre. Ou, como pensa a professora e historiadora T. Angel (2024), a monstra morre várias vezes, mas retorna. A morte de um monstro indica sempre o nascimento de outro. O humano necessita do monstro, do monstruoso, para reiterar sua própria humanidade, de modo que a relação entre o humano e o monstro seja de codependência: o humano cria constantemente os monstros que se propõe a matar. Desse modo, percebemos a presença massiva da violência nesta relação gestacional entre a humanidade e a monstruosidade.
Por outro lado, há concepções outras de monstruosidades que desviam, e confrontam, as miradas humanas. Em Eu, Monstro Meu, a poeta trans sudaca Susy Shock (2021) reivindica seu direito à monstruosidade. Em Cuerpos para odiar, a poeta travesti chilena Claudia Rodríguez escreveu que sua arma, sua defesa, era se monstrificar. Em MonsTrans, o cartunista transmasculino brasileiro Lino Arruda (2020) cria a figura do lobisomem-trans*, um personagem monstruoso e inconformado. Em El Ofensivo Trans, os zineiros argentinos transmasculinos Cat-man e Fran. F (2013, p. 6) avisam que “Não vamos contar coisas da nossa espécie. / Isto não é um zoológico. / Tampouco é um circo. / Mas passem / e vejam.” A pedagoga e freak T. Angel (2024), em sua dissertação de monstrado, escreveu sobre as travessias das monstruosidades. A escritora abigail Campos Leal trabalha a noção de monstransidade. A dançarina Danielle Rodrigues (2025, p. 88) escreve sobre sensualidade monstruosa, no que tange à hiperssexualização de mulheres negras, e essa sensualidade monstruosa “transforma la imagen de la mujer negra hipersexualizada en una expresión propia y liberadora, despojándola de su carga racista y misógina”.
Longe de reificar olhares humanistas, neste dossiê temos como objetivo abordar as mais diversas facetas do monstro e do monstruoso, do humano e do humanismo, investigando as relações entre linguagem e violência.
Abaixo, oferecemos uma lista não-exaustiva de questões abordadas:
- Quais as diferentes maneiras de se pensar monstros e monstruosidades em diferentes culturas?
- Quais as relações entre monstruosidades e questões de gênero, raça, classe, territorialidade e demais marcadores sociais?
- Relações entre monstrificação e transfobia, racismo, capacitismo e outras formas de discriminação.
- Monstruosidades, animalidade e desumanização.
- Diálogos entre humanismo, pós-humanismo, trans-humanismo, anti-humanismo e monstruosidades.
- Elaborações sobre monstruosidades a partir de conceitos psicanalíticos.
- Revisões de literatura que abordem monstruosidades (filmes, livros, mitologias, contos, teatro).
- Monstruosidades e filosofia da linguagem.
Receberemos:
- Artigos
- Ensaios
- Resenhas
- Traduções
- Entrevistas
Prazo de envio: submissões abertas entre 10/05 e 10/10/2026.
Previsão de publicação: janeiro de 2027
Organizadores: Bruno Pfeil e Cello Pfeil
As normas de submissão podem ser encontradas no site da revista Ítaca. Recomenda-se que o template com as normas de submissão seja baixado e que os materiais enviados o sigam impreterivelmente.
A revista Ítaca (Qualis A3) é organizada por discentes do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Bibliografia
ANGEL, T. Monstruosidade e educação: alguns rabiscos sobre a Pedagogia do Esquisito ou a Pedagogia das Aberrações. Revista Eletrônica Interações Sociais – REIS, v. 8, n. 1, 2024, pp. 104-119. https//doi.org/10.14295/reis.v8i1.14626
ARRUDA, Lino. Monstrans: figurações (in)humanas na autorrepresentação travesti/trans* sudaca. Tese - (Doutorado, Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Comunicação e Expressão, Programa de Pós-Graduação em Literatura), Florianópolis, Brasil, 2020, 201f.
CAT-MAN; FRAN F. El Ofensivo Trans: zine de transmasculinidades mariconas. Córdoba: edição dos autores (zine), 2013.
COHEN, Jeffrey Jerome. A cultura dos monstros: sete teses. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.). Pedagogia dos monstros - os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.
KAPLAN, Matt. The Science of Monsters: why monsters came to be and what made them so terrifying. United Kingdom: Constable & Robinson Ltd, 2013.
KRISTEVA, Julia. Powers of Horror: An Essay on Abjection. New York: Columbia University Press, 1982.
LEAL, Campos abigail. Ex/orbitâncias: os caminhos da deserção de gênero. GLAC Edições, 2021.
MORAÑA, Mabel. El monstruo como máquina de guerra. Madrid: Iberoamericana - Vervuert, 2017.
RODRIGUES, Danielle Pereira. Transformando la hipersexualización en poder: sensualidad monstruosa. Artilugio, n. 11, 2025, pp. 88-101.
RODRÍGUEZ, Claudia. Cuerpos para odiar. Editorial Barrett, 2024
SHOCK, Susy. Yo, monstruo mío. Plástico Revista Literária, 2021. Disponível em: https://revistaplasticocom.wordpress.com/2021/06/18/reivindico-mi-derecho-a-ser-un-monstruo-susy-shock/.