24/05/2021

Revista Em Construção: Chamada de trabalhos para o dossiê "A fecundidade da obra kuhniana"

Chamada de trabalhos: Dossiê: A fecundidade da obra kuhniana

Organizadores: Dr. Marcelo Penna-Forte (Universidade Estadual do Oeste do Paraná)

Dr. Carlos Fils Puig (Grupo ECTS)

 

Thomas S. Kuhn foi um dos mais influentes historiadores e filósofos da ciência do século XX. Em A estrutura das revoluções científicas, ele apresentou um modelo de desenvolvimento científico que, ao mesmo tempo em que organizava num quadro amplo uma série de pesquisas historicamente orientadas, rompia com uma tradição que encarava o progresso científico como um processo cumulativo de aproximação à verdade. Seu modo de conectar aspectos históricos, sociais, cognitivos e filosóficos em um relato sobre a atividade científica transformou a visão de muitos de seus leitores sobre as ciências do passado e as então praticadas. Enquanto uns finalmente reconheciam nas páginas de um estudo metacientífico a atividade humana que efetivamente praticavam, a outros revelava-se a pertinência de considerar filosoficamente relevantes elementos então característicos de outros domínios e a eles relegados.

Desde então, tem sido relativamente fácil documentar o impacto da obra kuhniana sobre a filosofia da ciência e os estudos culturais da ciência de um modo geral, algo intensificado mesmo por sua presença na formação dos estudantes dessas áreas e manifesto em bibliografias de diferentes cursos ou em livros introdutórios de formatos variados. Uma mostra de como tal obra tornou-se referência nessas tradições pode ser experimentada nas iniciativas conduzidas há cerca de dez anos por ocasião do cinquentenário do Estrutura. Outra espécie de impacto, entretanto, mostrou-se mais difícil de ser endereçada, mas nunca deixou de ser consignada. Desde as caracterizações do Estrutura como “uma lufada de ar fresco”, ou como tendo “liberado a imaginação filosófica de uma geração”, sabe-se que foram muitas as reflexões profundamente originais, em diferentes áreas, proporcionadas pelo contato com as observações argutas de Kuhn. Suas sugestões ao apresentar a questão da aprendizagem por exemplares, por exemplo, intersectam posteriormente com questões acerca da categorização e formação conceitual no trabalho de filósofos, cientistas cognitivos e linguistas, como Nersessian e Carey. Sua visão geral do processo de escolha teórica proporcionou uma visada sobre os mecanismos que historicamente selecionaram características sexistas da ciência moderna, que pôs em marcha a epistemologia feminista de Longino e Keller. O reconhecimento do caráter social da autoridade que proporciona as práticas em disciplinas e especialidades específicas foi seminal para os trabalhos dos sociólogos de Bath e Edimburgo. Além disso, embora a maioria dessas pesquisas nem de longe possam ser coligadas e apresentadas como uma tradição de pensamento caracteristicamente kuhniana, elas não estão ligadas apenas genealogicamente, bem como não foram provocadas apenas por motivações extrínsecas.

A presente chamada de trabalhos assenta-se na convicção de que a obra kuhniana continua a provocar reflexões originais provenientes de diferentes paragens e mostra-se imbrincada a questões de incontestável atualidade. Algumas destas são devidas ao momento histórico atual e a como a atividade científica nele se apresenta, como as condições sociais de eclosão e manutenção de tradições científicas, a comunicação em projetos multidisciplinares, a formação de novas fronteiras disciplinares. Outras questões encontram-se em plena continuidade com o desenvolvimento das reflexões metacientíficas, como o estudo dos expedientes de representação na ciência, a caracterização de noções como similaridade, analogia e metáfora, ou em estudos mais minuciosos sobre o caráter da experimentação e do desenvolvimento simultâneo de múltiplas tradições na ciência. Podemos, ainda, encontrar elementos tipicamente kuhnianos nas configurações atuais dos debates mais amplos sobre racionalidade, como na exploração de um neokantismo kuhniano, e o realismo, como na indicação de suas afinidades com o perspectivismo. Haveria, ainda, toda a produção e os debates dedicados a responder às questões levantadas por e a partir da Estrutura, como a defesa da racionalidade científica apesar das revoluções, dos critérios exteriores à ciência para sua determinação e da incomensurabilidade, ou a busca de respostas mais complexas e bem fundamentadas para a representação de uma história da ciência que se configure como cumulativa e em desenvolvimento crescente ou ascendente, ou seja, contrapontos ao pensamento kuhniano, muito embora diretamente tributários dele.

Espera-se que este dossiê possa colaborar com a documentação desse impacto mais sutil e pervasivo da obra kuhniana, reportando sua fecundidade seja mediante estudos históricos capazes de registrá-la, seja mediante estudos das mais diferentes áreas em cuja originalidade ela se faça presente. Espera-se, ainda, que ele instigue um olhar sobre a ciência que se valha da perspectiva kuhniana, seja porque algumas de suas facetas permanecem subexploradas, seja até mesmo porque – como formula Joseph Rouse – a revolução kuhniana na filosofia da ciência ainda esteja por ocorrer.

emconstrucaorevista@gmail.com

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O período de submissões ocorrerá entre 24/05/21 e 20/01/22, com publicação prevista para junho de 2022.