A alegria da vitória, a tristeza da derrota e a potência de existir
José Maurício de Lima
Mestre em Filosofia pela UnB
21/07/2026 • Coluna ANPOF
Há momentos em que o futebol deixa de ser apenas esporte e se transforma em metáfora da própria condição humana. Nos jogos eliminatórios da Copa do Mundo, especialmente na fase do chamado “mata-mata”, essa dimensão aparece com rara intensidade. Durante noventa minutos — ou mais, quando há prorrogação — dois grupos humanos se enfrentam no limite de suas forças físicas, emocionais e simbólicas. Cada jogador corre, luta, resiste, calcula, sofre e se entrega por inteiro a um objetivo aparentemente simples: colocar a bola dentro das traves adversárias mais vezes do que o oponente.
Mas essa simplicidade é apenas aparente. Em campo, não estão apenas vinte e dois atletas disputando uma partida. Estão ali projetos coletivos, expectativas nacionais, memórias, frustrações, desejos, esperanças e afetos. Cada equipe entra em campo movida por uma força de perseverança. Quer continuar existindo naquela competição. Quer afirmar sua presença. Quer impedir que o adversário reduza suas possibilidades. Quer vencer.
Essa dinâmica pode ser iluminada pela filosofia de Baruch Espinoza. Para o filósofo, todo ser se esforça para perseverar em sua existência. Esse esforço fundamental é chamado de conatus. No ser humano, esse esforço aparece como desejo, impulso de conservação, afirmação da vida e busca de expansão da própria potência. Viver, portanto, não é apenas permanecer biologicamente vivo. É aumentar a capacidade de agir, compreender, resistir, criar e participar do mundo.
É exatamente isso que se vê em uma partida decisiva. Enquanto o jogo se desenrola, cada equipe procura ampliar sua potência de agir. O passe bem executado, a defesa difícil, o drible, a recomposição tática, o gol marcado, tudo isso aumenta a força coletiva de existir dentro do jogo. A equipe que encontra seu ritmo parece crescer. O corpo ganha energia. A torcida se inflama. A confiança se espalha. A alegria começa a circular como força expansiva.
O gol, nesse sentido, não é apenas um número no placar. É uma explosão de potência. É a confirmação momentânea de que o esforço encontrou forma. A equipe que marca experimenta a passagem para uma condição mais forte, mais afirmativa, mais confiante. O gol amplia a potência de existir. Ele reorganiza os corpos, os afetos e as expectativas.
Mas, do outro lado, o mesmo acontecimento produz efeito inverso. O gol sofrido diminui a potência da equipe adversária. Aumenta a tensão, instala a urgência, produz abatimento, desorganiza emocionalmente os jogadores e altera a relação deles com o tempo. Aquilo que para uns é alegria, para outros é tristeza. O mesmo fato que expande uma equipe contrai a outra. A vida humana, em grande medida, também se move nessa oscilação.
Para Espinoza, a alegria é o afeto pelo qual passamos a uma maior perfeição, isto é, a uma maior potência de agir. A tristeza, ao contrário, é o afeto pelo qual passamos a uma menor perfeição, ou seja, a uma diminuição da nossa potência. A alegria nos expande; a tristeza nos comprime. A alegria nos torna mais capazes; a tristeza nos torna momentaneamente menos capazes. A alegria afirma; a tristeza enfraquece.
Quando o árbitro apita o fim da partida, essa diferença aparece em sua forma mais visível. Os vencedores se abraçam, choram, saltam, ajoelham-se, erguem os braços, celebram. São tomados por uma alegria quase primitiva, porque naquele instante sentem que sua potência foi confirmada. O esforço fez sentido. A dor física foi recompensada. A estratégia funcionou. O grupo venceu. A existência daquela equipe continua no torneio.
Os derrotados, por sua vez, caem no gramado, cobrem o rosto, choram em silêncio ou olham para o vazio. O retorno para casa já se anuncia como destino amargo. Não se trata apenas de perder um jogo. Trata-se de ver interrompida uma possibilidade de afirmação. A derrota é uma experiência de diminuição. O corpo que correu até o limite agora pesa. A esperança que sustentava o esforço se converte em frustração. A potência de agir sofre uma queda brusca.
Essa cena, repetida a cada Copa do Mundo, é uma poderosa representação da existência humana. Também na vida social, política e moral, os homens e as comunidades oscilam entre afetos que aumentam e afetos que diminuem sua potência. Há encontros que fortalecem, elevam e libertam. Há outros que enfraquecem, aprisionam e entristecem. Há instituições que ampliam a capacidade de agir dos cidadãos; há instituições que os submetem ao medo, à dependência e à impotência. Há lideranças que mobilizam esperança racional; há outras que exploram ressentimentos, paixões tristes e servidão emocional.
É nesse ponto que a reflexão deixa de ser apenas esportiva e se torna política. Uma sociedade também pode ser governada pela alegria ou pela tristeza. Quando há confiança nas instituições, respeito às regras, responsabilidade coletiva, liberdade de pensamento e participação efetiva, a comunidade experimenta aumento de potência. Os cidadãos se sentem parte de um projeto comum. A política deixa de ser campo de manipulação e se torna espaço de ação.
Ao contrário, quando predominam o medo, o ressentimento, a mentira, a corrupção, a violência simbólica e a desconfiança generalizada, a sociedade é tomada por afetos tristes. O cidadão passa a sentir que nada pode, que nada muda, que tudo está previamente capturado. A tristeza política é precisamente essa sensação de impotência coletiva. Ela paralisa, desmobiliza e prepara o terreno para toda forma de servidão.
Por isso Espinoza permanece tão atual. Sua filosofia ensina que a dominação não se exerce apenas pela força externa, mas também pelo governo dos afetos. Povos dominados pelo medo, pela inveja, pelo ódio e pelo ressentimento tornam-se mais fáceis de conduzir. A tristeza reduz a potência de resistência. A alegria, quando acompanhada de compreensão, amplia a liberdade.
A grande questão, portanto, não é apenas saber quem venceu ou perdeu uma partida. A questão mais profunda é compreender o que fazemos com a alegria e com a tristeza. A alegria da vitória pode engrandecer, mas também pode se converter em soberba. A tristeza da derrota pode destruir, mas também pode ensinar. Tudo depende da capacidade de compreender as causas dos afetos.
A equipe derrotada que aprende com seus erros transforma a tristeza em conhecimento. A equipe vencedora que reconhece a disciplina, a cooperação e o esforço coletivo transforma a alegria em sabedoria. O mesmo vale para os indivíduos e para as nações. Não há grandeza verdadeira sem compreensão. Não há liberdade sem consciência das causas que nos movem.
O futebol, portanto, oferece uma lição que ultrapassa o gramado. Ele mostra que a existência humana é feita de disputas, esforços, encontros, perdas, vitórias, alegrias e tristezas. Mas mostra também que não estamos condenados a ser simples joguetes dos afetos. Podemos compreendê-los. Podemos reorganizá-los. Podemos transformar a tristeza em aprendizado e a alegria em potência criadora.
A verdadeira vitória, em sentido espinosano, não é apenas derrotar o adversário. É aumentar a potência de existir. É sair da passividade para a ação. É deixar de ser conduzido cegamente pelos afetos e passar a compreendê-los. É converter emoção em lucidez, esforço em consciência, experiência em liberdade.
No fim, talvez o futebol nos ensine aquilo que a filosofia de Espinoza formulou com rigor: viver é lutar para perseverar no ser. Mas viver bem é mais do que resistir. É aumentar a própria potência, construir bons encontros, compreender as causas da alegria e da tristeza e transformar a existência em afirmação ativa da liberdade.
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.