A Copa do Mundo e a disputa pela gramática da nacionalidade
Marcos Silva
Professor Adjunto do Departamento de Filosofia da UFPE
Jefferson Santana
Doutorando (PPGFil-UFPE)
05/11/2026 • Coluna ANPOF
A Copa do Mundo passou, mas, a cada edição do maior campeonato de futebol do planeta, o debate sobre identidade nacional e racismo reaparece, e frases como "não há negros na Argentina" retornam às conversas do dia a dia, nas universidades e na mídia. A reação imediata costuma ser responder com fatos. Afinal, a frase é factual e historicamente falsa. A Argentina possui uma população afrodescendente e indígena cuja história foi sistematicamente apagada, e sua própria seleção já contou com jogadores negros. Mas talvez o problema filosófico mais interessante esteja antes da verificação de sua falsidade. Que tipo de operação está sendo realizada quando se diz “não há negros na Argentina”? A frase não precisa ser entendida apenas como uma descrição equivocada de um estado de coisas. Ela pode funcionar como a expressão de uma regra gramatical: um enunciado que, ao estabelecer quem pode ser incluído na categoria dos argentinos, organiza previamente as condições sob as quais determinadas pessoas, histórias e experiências podem aparecer como evidências pertinentes sobre a própria Argentina. Nesse sentido, a violência não está simplesmente no conteúdo falso da proposição, mas na regra que ela mobiliza e reproduz. “Não há negros na Argentina” não apenas afirma algo sobre o mundo; participa de uma gramática que fixa, de maneira normativa, o que pode contar como argentino e quais inferências se tornam possíveis a partir dessa categoria. O problema, portanto, não é apenas que a frase esteja errada, mas que ela possa funcionar como uma regra correta dentro de um determinado jogo de linguagem.
Um jogador negro vestindo a camisa da seleção argentina não desmentiria apenas uma estatística. Ele desorganiza uma gramática de dominação. Obriga a rever as regras implícitas que organizam os jogos de linguagem que sustentam a autoimagem de um país construída durante décadas em torno da branquitude, da origem europeia e do apagamento de tudo aquilo que era indesejável e não cabia nessa narrativa. Assim, há frases que não servem apenas para falar sobre o mundo. Elas explicitam a maneira como nós organizamos nossos jogos de linguagem e o modo como nós aprendemos a nos enxergar. Estas regras fixam uma gramática que define quem pertence, quem deve ser ouvido, quem pode falar, quem parece deslocado, quem será tratado como exceção, etc. O problema, então, já não é apenas histórico. É político e filosófico também. Aponta para a necessidade da disputa estratégica pelas regras que organizam o próprio significado de ser argentino.
Tome, por exemplo, quando a Argentina derrotou a França em uma Copa do Mundo, como na Copa de 2022, no Catar; o jogo terminou aos 120 minutos, com acréscimo da disputa por pênaltis. O que aconteceu antes, durante e permaneceu muito depois do apito final, entretanto, é outra disputa: a disputa sobre quem tem o direito de ser reconhecido como pertencente a uma nação. A recente retomada de discursos questionando a verdadeira nacionalidade de jogadores franceses negros de ascendência africana não é apenas uma provocação futebolística. Trata-se da atualização de uma velha gramática colonial que decide quem pode ser considerado plenamente europeu e, em muitos casos, plenamente humano.
Durante séculos, o colonialismo europeu produziu e consolidou regras e critérios de valor e reconhecimento baseados na universalidade de sua perspectiva, ou seja, implementou uma gramática política segundo a qual a branquitude tornou-se o critério silencioso da nacionalidade legítima. Essa lógica que articula e fixa as regras de sentido de nossas práticas compartilhadas mais básicas nunca desapareceu; apenas mudou de linguagem. Esta gramática que decide o que vale e o que não vale, ou quem pode ser excluído e quem não pode, continua operativa em muitos dos nossos jogos de linguagem mais cotidianos. Hoje ela aparece quando alguém afirma que Kylian Mbappé, na verdade, é africano e, portanto, não representaria verdadeiramente a França. Denominamos esse processo de violência gramatical (Santana e SIlva, 2025; Praxedes e Silva, 2025) porque ela incide não somente em elementos epistêmicos de indivíduos e suas comunidades, mas nas próprias regras e normas implícitas que organizam o campo do possível, do sentido e do inteligível para as comunidades afetadas. Violência gramatical designa o fenômeno de ataque sistemático à capacidade de grupos minorizados de fazerem sentido de sua própria forma de vida e pertencimento a práticas compartilhadas. A violência gramatical significa também a predação sobre os critérios mais básicos de valor e legitimidade dos jogos de linguagem de comunidades vulneráveis. E isto impacta a maneira como estes indivíduos se autolegitimam em suas próprias formas de vida. Assim, determinados sujeitos deixam de ocupar posições de fala reconhecidas como legítimas dentro de um jogo de linguagem. Não se trata apenas de insultar alguém. Ou agredir verbalmente um grupo. Significa antes retirar-lhes as condições para que sua própria autodeterminação normativa seja realizável. No caso francês, o que está em disputa não é apenas a identidade de alguns atletas. O que está sendo contestado é a possibilidade de um cidadão negro dizer "sou francês" e essa frase produzir exatamente o mesmo efeito, ou ter as mesmas consequências que quando pronunciada por um cidadão branco.
O colonialismo nunca foi apenas um sistema econômico. Foi, antes de tudo, uma tecnologia de classificação dos corpos, uma técnica de categorização e hierarquização de valores e de dignidade. A Europa inventou categorias raciais para justificar a expansão imperial e, ao fazê-lo, transformou o branco na medida universal da civilização. Fanon (2020) já havia percebido esse mecanismo quando mostrou que o sujeito negro permanece constantemente convocado a justificar sua humanidade. Afinal, segundo o filósofo martinicano, o branco simplesmente é; o negro precisa provar constantemente que pertence. É precisamente isso que reaparece quando se afirma que jogadores franceses negros seriam, na realidade, africanos. Curiosamente, é muito raro alguém fazer o mesmo movimento argumentativo com jogadores franceses descendentes de italianos, portugueses, espanhóis ou poloneses. Ninguém afirma, por exemplo, que Antoine Griezman, campeão da copa de 2018 pela França, não é francês porque seus ancestrais vieram da Alemanha. A ascendência europeia aparece como compatível com a nacionalidade francesa; a ascendência africana, como sua negação. Essa assimetria revela que o debate nunca foi sobre genealogia. Sempre foi sobre raça.
Em outro exemplo de violência gramatical, o caso argentino torna essa discussão ainda mais interessante. A Argentina construiu, desde o final do século XIX, uma poderosa narrativa nacional baseada no reforço da ideia de um país essencialmente europeu. O genocídio indígena, a invisibilização da população afro-argentina e a política de imigração seletiva produziram uma imagem de nação branca que permanece profundamente enraizada no imaginário coletivo, inclusive em algo tão popular como o futebol. Não por acaso, muitos argentinos continuam afirmando que na Argentina não há negros. Essa frase não descreve uma realidade demográfica, ela não é asserção de um fato da realidade. Esta frase explicita e organiza uma gramática política, um conjunto de regras implícitas, mas explicitáveis, que articulam e fixam as normas do campo da inteligibilidade social.
"Não há negros na Argentina” funciona, pois, como a explicitação de uma certeza fulcral: um pressuposto compartilhado que estrutura aquilo que pode ou não fazer sentido dentro daquela forma de vida (Wittgenstein, 2023). Quando essa mesma sociedade olha para a seleção francesa e afirma que ela seria composta por "africanos", ela apenas projeta sobre o outro a mesma gramática colonial que organizou sua própria identidade nacional. O paradoxo é evidente: a França colonizou grande parte da África. Os descendentes desses territórios colonizados hoje são cidadãos franceses justamente porque a história colonial forçou a integração desses espaços ao projeto imperial francês. Questionar sua nacionalidade significa querer usufruir do império sem assumir suas consequências históricas. É desejar a colônia sem aceitar o colonizado. Esse é um dos efeitos mais sofisticados da violência gramatical, afinal colonialismo não significa apenas violência territorial e física. O sucesso de técnicas colonialistas sobre povos diversos depende também da predação da gramática que articula o sentido dos jogos de linguagem destas formas de vida. A violência gramatical do colonialismo produz também uma cisão entre cidadania jurídica e reconhecimento social. O documento diz uma coisa; a gramática cotidiana diz outra. Formalmente, Mbappé é francês. Gramaticalmente, muitos insistem em tratá-lo como estrangeiro.
Há, entretanto, um aspecto ainda mais profundo. Quando insistem que jogadores franceses negros "não são franceses de verdade", estão também reafirmando, implicitamente, uma determinada concepção de Argentina. Afinal, se a França deixa de ser verdadeiramente francesa por possuir jogadores negros, a Argentina reafirma sua própria identidade justamente pela ausência deles. É um movimento de contraste. A identidade nacional argentina aparece purificada precisamente porque a francesa seria racialmente "misturada". Nesse ponto, o futebol torna-se apenas um palco para uma disputa muito maior, a saber: a disputa sobre quais corpos podem representar uma nação. Estamos diante de uma disputa gramatical. Disputas gramaticais não acontecem apenas sobre palavras. Elas acontecem sobre as regras que definem quando uma expressão pode ser empregada legitimamente; estamos falando de uma disputa pelo significado. O conflito é menos sobre a referência do termo "francês", mas sobre as regras que articulam e fixam como o termo deve ser usado e quem possui autoridade para ocupar essa categoria.
Referências bibliográficas
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. São Paulo: Ubu Editora, 2020.
PRAXEDES, Fábio; SILVA, Marcos. Gaslighting como violência gramatical: uma leitura baseada na epistemologia Wittgensteiniana. Prometeus, v. 17, n. 47, 2025.
SANTANA, Jefferson; SILVA, Marcos. Sobre democracia racial, violência gramatical e certezas fulcrais: como um mito se torna regra no imaginário brasileiro. ethic@, Florianópolis, v. 24, p. 1–32, ago. 2025.
SILVA, Marcos. Soberania Gramatical e suas Alavancas. Kotter Editorial: Curitiba, 2026b.
WITTGENSTEIN, Ludwig. Sobre a certeza. Editora Fósforo, 2023.
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