A Filosofia de José Crisóstomo de Souza

Tiago Medeiros

Professor de Filosofia do IFBA

18/02/2021 • Coluna ANPOF

            A filosofia de José Crisóstomo de Souza é ambiciosa em abrangência, econômica nas afirmações e modesta na autopromoção. Em curso há trinta anos, ela é um projeto com contribuições à filosofia política, à filosofia da cultura, à metafilosofia, à antropologia filosófica e ao pensamento brasileiro. O que a caracteriza é uma forma muito peculiar de metabolizar movimentos e correntes da filosofia, como o hegelianismo, o marxismo e o pragmatismo, associando-os ao ensaísmo brasileiro e a algumas tendências da biologia pós-darwiniana combinadas com o emergentismo e o enativismo. Abaixo, apresento uma brevíssima introdução ao projeto filosófico de Crisóstomo, cruzando traços de sua obra com momentos de sua trajetória profissional.

 

1.      Da militância à academia: o jovem-hegelianismo;

            Crisóstomo nasceu em Minas Gerais, em 1947, mas cresceu em Salvador (BA). Graduou-se em filosofia pela UFBA, em 1970, e iniciou uma carreira como professor do ensino secundário, quando já eram intensas as perseguições praticadas pelo regime militar. Opondo-se ao governo, o jovem professor investiu na militância clandestina e na edição e redação dos Cadernos do Centro de Estudos e Ação Social (CEAS), dando início à sua trajetória como intelectual engajado. Foi nessa época que ele teria se interessado por temas de economia, política e movimentos sociais – assuntos, aliás, que jamais o deixaram. Foi também nesses anos de atuação como publicista que ele iniciou o trabalho de docente na própria UFBA, ingresso logo interrompido com a cassação imposta pelo regime que ele combatia – um golpe que adiou a sua carreira de scholar.

            O interesse pela filosofia política, com base no pensamento social e histórico de Marx, surgiu naquele tempo. Crisóstomo, todavia, optou por explorar um Marx diferente, não o vasculhado acriticamente pela esquerda ativista, nem o laboratorialmente eviscerado por José Artur Giannotti e por seus estudantes no CEBRAP. Em vez disso, um Marx mais humano, contextualizado, telúrico e metido em polêmicas com os filósofos com os quais veio a compor a notável constelação do movimento jovem-hegeliano. No retorno à universidade, oficialmente anistiado em 1983, o professor Crisóstomo viaja a São Paulo para cursar a sua Pós-Graduação na Unicamp sob a orientação do Dr. Marcos Muller, a fim de estudar o assunto.

            Resulta daí uma volumosa tese de doutoramento, da qual o ex-militante e agora especialista em neo-hegelianismo extrai e publica dois livos: Ascensão e Queda do Sujeito no Movimento Jovem-Hegeliano (Centro Editorial e Didático da UFBA, 1992) e A Questão da individualidade: a crítica do humano e do social na polêmica Stirner-Marx (Ed. UNICAMP, 1993). Destes inventários notáveis das discussões filosóficas que aqueciam a Alemanha do XIX, depreendem-se algumas consequências para o projeto filosófico do autor.

            Em primeiro lugar, uma pista metafilosófica: o movimento jovem-hegeliano constitui o paradigma de pensamento e performance que define a maior parte da filosofia ulterior, sobretudo quanto às contendas políticas entre progressistas e conservadores. Em segundo lugar, uma pista para ler o real – histórico, social, cultural, político – pelo prisma da dialética de dissolução e reapropriação que confere à atividade humana um status de poiética. O movimento jovem-hegeliano, de alguma forma, educou Crisóstomo a conceber a filosofia como uma coisa do tempo, praticada coletivamente e voltada para a criação permanente da história, em benefício da qual o pensamento apostaria em fazer ver a contingência das crenças e formas de vida que congelam o presente, bem como a propor os termos com os quais renová-lo.

      

2.      A filosofia na universidade, como coisa civil;

            Tendo dedicado anos à militância política e ao engajamento social, Crisóstomo não separa as conclusões extraídas das especulações acadêmicas da atenção à atividade profissional e ao espaço possível para a sua realização. A segunda peça de seu projeto filosófico diz respeito à profissionalização da filosofia na universidade. Ela concentra algumas ideias sobre o que significa fazer filosofia no mundo acadêmico e postula alguns insights para ressignificar esse fazer, compartilhando com a sociedade o patrimônio da filosofia.

            Em 2001, ele publicou A Filosofia como Coisa Civil, texto que veio a integrar, anos depois, a coletânea A Filosofia Entre Nós (Unijuí, 2005), escrita a oito mãos com Ernst Tugendhat, Oswaldo Porchat e Renato Janine Ribeiro. Neste trabalho, há uma visão ampla da filosofia como atividade praticada por indivíduos associados (em instituições, clubes, escolas, movimentos, cafés etc.), dispostos a oferecer discursos distintamente seculares suportados por convicções justificadas racionalmente.  Esse “ponto de vista civil” contrasta o da filosofia enquanto sistemas metafísicos proferidos por sábios com acesso privilegiado ao real – o modelo que o autor debocha chamando de “ancien régime”. A universidade aprenderia e ganharia com uma filosofia exercitada civilmente, enquanto um discurso entre outros, capaz de articular e enriquecer os saberes das áreas especializadas, por hospedar um léxico vasto e por acumular um know-how com termos gerais de valor insubstituível para um contínuo trabalho teórico.   

 

 

3.      O mergulho no pragmatismo;

            Na primeira década do século XXI, Crisóstomo – agora professor titular do Departamento de Filosofia da UFBA – empreendeu também uma série de incursões no pragmatismo e trocou correspondências com alguns de seus principais expoentes, como Richard Rorty e Jürgen Habermas. Resulta desses encontros a tradução e a organização de uma coletânea de textos sobre o debate entre estes autores, publicada no livro Filosofia, Racionalidade, Democracia (UNESP, 2005). O tema da democracia, que já atravessava o seu pensamento nos tempos de militância, volta agora em expressão mais refinada. 

            O mergulho no pragmatismo o fez transitar por um paradigma prático e pós-metafísico típico de sociedade jovem e por se fazer, cheia de inspirações e de votos de futuro promissor. Isso o animou a cotejar pragmatismo e jovem-hegelianismo, revisitando os autores que estudara (não apenas Marx, mas também Max Stirner, Ludwig Feuerbach, Moses Hess e Bruno Bauer), destarte com o diapasão dos pragmatistas americanos por quem passou a nutrir grande simpatia. Aos poucos, contudo, foi reconhecendo ademais vícios de abordagem e limitações no pragmatismo contemporâneo a que os jovens hegelianos lhe pareciam não sucumbir.

            O problema do pragmatismo recente mais afamado residiria na adesão cega à virada linguística. A ênfase na linguagem perpetrada por Rorty, Habermas e outros, indicaria que os desafios predominantes da experiência humana de nosso tempo seriam da ordem do discurso e dos vocabulários, da maneira de falar e de enunciar estados e coisas e de se comunicar. Crisóstomo viu nisso um reducionismo indesejável, tanto para a filosofia praticada no Atlântico Norte, quanto para a praticada no Brasil. Em retrospecto, viu também que o problema dos hegelianos estava no caráter apocalíptico e grandiloquente de seus discursos, algo de difícil tradução nas democracias contemporâneas. Adquirindo, então, dos pragmatistas, o traquejo com o tema da democracia e, dos jovens hegelianos, em especial Marx, a recuperação do sensível, o autor encontrou uma chave para encaminhar uma proposição nova, com a qual abriu as portas de sua reflexão mais recente.  

 

4.      O materialismo prático-poiético.

            Mais amadurecido, Crisóstomo tem formulado uma perspectiva que dialoga epistemologia, ontologia, antropologia filosófica e filosofia política em uma plataforma de assuntos que entendo ser a peça principal de seu projeto até aqui. No ensaio O Mundo Bem Nosso (Cognitio, jul./dez. 2015.), oferece-nos um ponto de vista que denomina “materialismo prático-poiético”. Aqui, sustenta que (a) o real é atividade sensível, (b) o ser humano é intencionalidade prática e sensível, (c) a ação é predominantemente criadora (poiética) e (d) a significação e a normatividade são consequências do modo humano de lidar com o mundo sob propósitos e interesses. O coração da proposta é a ênfase na sensibilidade [Sinnlichkeit].

            Pensar o real como atividade sensível é entendê-lo como constituído de interações materiais nas quais atuamos e em que estamos emaranhados. Como outros seres vivos, mas diferentemente dos objetos inanimados, temos interesses e propósitos que nos encaminham às disposições do mundo visando determinadas manipulações e experiências, o que nos confere uma intencionalidade que não é meramente cognitiva ou psíquica, mas corporal e sensível, motora e ativa. Ao agir, empreendemos meios e recursos que nunca são previamente dados, disponibilizados para tanto (emergentismo), e isso revela haver na ação humana uma inclinação à criação contínua (poiética-pragmática). É pela criação voltada a resultados que atribuímos significados e que estabelecemos normas, admitindo o mundo enquanto nosso, entre coisas, pessoas, gozos, perecimentos, culturas e instituições.

            A origem desse ponto de vista está em Marx. Mas Marx também teria cometido um erro pondo ênfase na prática entre produtos e não na prática entre sensíveis. O ponto de vista materialista que contribui para o florescimento de nossas práticas e fazeres, e para o seu aperfeiçoamento, é prático-sensível, não-redutivo à produção. (Há aqui ecos da Ética de Espinosa, ou de Signos, de Merleau-Ponty – especulações minhas que não encontram confirmação nos textos do autor.)

            A obra de Crisóstomo de Souza é a consagração de uma filosofia brasileira atenta ao que pode e ao que precisa ser a filosofia acadêmica nacional, libertada do colonialismo gálico-paulistano que deu a ela origem, e destinada a encontrar um rumo. O materialismo prático-poiético, que traduz o seu ponto de vista civil, não precisa ser visto como o rumo, mas é, mais do que um estímulo, um chamamento a procurá-lo.