A pós-política e a emergência ambiental

Jelson Oliveira

Professor do Programa de Pos-Graduação em Filosofia da PUCPR

20/10/2020 • Coluna ANPOF

O Brasil tem sido o exemplo prático de uma teoria bastante difundida: de que o desafio político mais importante nos tempos atuais é a questão ambiental. Isso porque, se a política é a arte do bem comum, não há nada que o ameace tão profundamente do que a destruição dos ecossistemas e a extinção da vida em larga escala. E nisso, as queimadas na Amazônia e no Pantanal, os números acelerados da extinção das espécies e o desmantelamento das políticas ambientais no Brasil são paradigmáticas.

Como parte desse desafio, precisamos reconhecer que, mais do que decidir se somos de direita ou de esquerda, capitalistas ou socialistas, liberais ou conservadores, temos de enfrentar agora uma nova divisão entre os humanos: aqueles que estão conscientes do problema ambiental e empenham-se em solucioná-lo e aqueles que negam o problema, seja por ignorância, seja por má-fé. Bruno Latour, em seu Onde aterrar? (2017) afirma que esse problema se tornou não apenas central, mas sobretudo crucial, a partir de 2015, quando os países signatários do Acordo de Paris (o último grande ato político em favor do meio ambiente) deram-se conta de que era preciso fazer alguma coisa para salvar o planeta, compreendido como o único lugar onde ainda é possível a prática da política.

Ao mesmo tempo, foi diante desse Acordo que a noção de política como busca pelo bem comum foi colocada em xeque, principalmente com a saída dos Estados Unidos do pacto, como gesto máximo de negligência em relação ao objeto supremo da política, precisamente o compromisso com o bem de todos, o que inclui o bem dos animais humanos e das demais espécies vivas com as quais eles partilham o mundo. Quando a principal potência mundial retira-se do Acordo, uma parcela da humanidade fica abandonada à própria sorte enquanto a outra dá de ombros, indiferente, concebendo-se como isolada e equivocadamente protegida da catástrofe. Tudo ocorre como se houvesse um mundo inatingível, permanentemente ileso e inviolável aos efeitos da emergência ambiental. O negacionismo climático, assim, é o grande muro invisível erguido por Trump para separar os Estados Unidos do resto do mundo e, com isso, inauguram o tempo da pós-política: quando já não há um mundo comum que possa ser administrado em vista do bem de seus habitantes e quando se esgota a utopia de uma vida boa para todos os seres vivos aqui, nesse planeta. Uma utopia que, aliás, entra em colapso devido ao crescente esgotamento dos recursos naturais e à concepção de que o planeta já não pode mais fornecer as condições de concretização dos ideais do progresso e do desenvolvimento – não, pelo menos, para todos.

Ora, o projeto político da modernidade, na medida em que esteve baseado na exploração do planeta e na concepção do homem como reino dos fins, para o qual tudo o resto era apenas meio, dependeu do rompimento de qualquer vínculo com a Terra. Foi preciso libertar-se desse pertencimento fundamental em nome de uma pretensa objetividade que levou à ruptura de qualquer laço de intimidade com a gleba, o local de nascimento, a comunidade, o solo, o território. Um tal deslocamento de perspectiva exigia o desenraizamento em nome da globalização e, com isso, acabou por cavar um abismo artificial que passou a dominar a relação do homem com o planeta, em nome da criação da celebrada aldeia global. É como se, para sermos globais, tivéssemos de deixar de ser terrenos. Esse teria sido, aliás, o mote central da exploração: embora continuemos criaturas da Terra e dependentes de seu metabolismo, como insiste Hannah Arendt em A condição humana e, como tal, marcados pela alienação trazida pelas filosofias do distanciamento que opuseram o homem ao mundo, fomos obrigados à reificação de tudo ao redor, para que tudo virasse produto de consumo a ser devorado de forma imponderada, irrepreensível e negligente.

Se a política tratava de construir um lar para o homem na Terra, tal atitude irresponsável, abandona tal tarefa. De uma hora para outra, a defesa da Terra como lugar de apego e de pertencimento comum, tornou-se a simples expressão de uma nostalgia, de uma saudade arcaica e obscurantista. Em nome da globalização consumista, fomos obrigados a romper esse vínculo com o local, abrindo o território para a exploração desmedida e todos os excessos que marcam o advento da emergência climática e levam ao fim a ideia de um mundo comum, basicamente porque não existe Terra capaz de incluir a euforia do progresso tecnológico, o desenvolvimento e a exploração contínua e ilimitada da natureza.

Com o fim dessa ideia de mundo, morre a política, portanto, porque perdem-se todos os valores capazes de unir a humanidade em torno de um projeto coletivo, enquanto membros de uma rede de “solidariedade de interesses”, expressão cunhada pelo filósofo alemão Hans Jonas para definir o que a biologia contemporânea e a ciência do clima fala com tanta propriedade: somos todos membros de um único mundo e precisamos tomar medidas urgentes para protegê-lo do abismo catastrófico, à beira do qual ele se encontra, distraído.

Ocorre que muitos governos, como o brasileiro (que, vale dizer, não saiu formalmente do Acordo de Paris, mas  nunca acreditou nele e, pelos dados atuais, na prática, não está interessado em cumprir as suas metas), apoiados nos interesses de uma pequena elite hipermonetarizada, acredita poder prescindir desse mundo comum e, por isso, não precisaria mais obedecer às regras que o seu metabolismo ecológico exige. Inaugura-se, então, o tempo da desregulamentação, das “porteiras abertas” e das irresponsabilidades generalizadas, alimentadas pela indiferença e pelo negacionismo, cujo único objetivo é continuar explorando o mundo, não importa até quando.

Esse é o cenário perfeito da catástrofe. A negação compulsiva, alimentada pelo jogo da pós-verdade, da desinformação produzida pelas ondas incessantes de fake news, popularizam a hipótese de que a ciência do clima, apesar de todos os fatos e de todas as evidências, está errada. Alardeados pelos políticos negacionistas, céticos e ignorantes, agremiados para acusar os ambientalistas e os cientistas de conspiradores, não em nome de fatos, mas de ressentimentos e medos, tais discursos acabam ganhando as atenções. Somado à fragilidade das instituições e à falta de fiadores da honestidade e da verdade, a política é levado ao colapso enquanto arte do bem comum. Tudo ocorre como se tivéssemos construindo mundos paralelos: os negacionistas parecem viver em um território paradisíaco, uma espécie de offshore ambiental, enquanto os outros, alarmados (ou alarmistas), fazem papel de bobo apagando incêndios imaginários e salvando animais fictícios de uma extinção tão hipotética quanto delirante. Junto com o negacionista de má-fé, o ignorante se isola e pensa que isso pode salvá-lo e, assim, mata a política, precisamente quando passa a acreditar na sua capacidade de sobreviver sozinho. Segundo essa lógica, entramos na era da pós-política pelo desaparecimento do interesse público e coletivo, que cede lugar a uma política “literalmente sem objeto, na medida em que ela rejeita o mundo que reivindica habitar”, para recorrer mais uma vez a Bruno Latour.

É precisamente isso que torna a questão ambiental tão crucial: ela é um novo vetor de atenções do jogo político. Um vetor tão central quanto urgente, que dá origem a um novo acontecimento político, o surgimento do planeta Terra como cenário sobre o qual devemos agir politicamente. Estamos diante do renascimento da geopolítica, evento segundo o qual, o território sobre o qual a vida humana se desenrola passa ser um o ator principal do jogo político – note-se: o território não é mais apenas o lugar no qual esse jogo se realizava, mas precisamente ele o personagem cuja influência e cujos interesses deveriam orientar as decisões que dizem respeito ao bem comum, no qual exerce papel primordial o seu próprio interesse. Em outras palavras: quando mais precisamos da política, ao que tudo indica, tomamos o caminho para a sua negação.

Eis porque, afinal, a questão indígena se liga tão diretamente à questão ambiental: se os povos indígenas foram os primeiros a vivenciar esse sentimento de estrangeirismo e de supressão compulsória de sua terra, tomadas pelos conquistadores, agora, são eles, precisamente, que oferecem a oportunidade de reconquista da terra, na medida em que representam um tipo de vínculo que torna possível ainda a utopia política de uma casa comum, de um projeto comum para toda humanidade. Retomar a política é também, por isso, no Brasil e no mundo, reconhecer que os povos tradicionais têm algo a ensinar – não com teorias, mas com vivências. Ao invés de tratá-los com o descaso e a violência de sempre (a das armas e a dos discursos), o Brasil deveria construir espaços para sua participação ativa nas políticas ambientais, para o bem comum – o bem de todos nós agora e das gerações futuras. Se a pós-política está fundada no egoísmo do “melhor do mundo para mim”, os indígenas nos mantém no jogo da busca coletiva pelo bem comum.

Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação da PUC-PR, coordenador do Centro Hans Jonas Brasil. Autor de: “Terra nenhuma: ecopornografia e responsabilidade” (EDUCS, 2020)

 

*Texto publicado em 15/10/2020 no Le Monde Diplomatique em parceria com a Coluna Anpof

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