ANTES DO EU, O OUTRO: O conceito de reconhecimento em Charles Taylor

Chrystian Jeff Ferreira

Mestrando em Filosofia na UNISINOS

08/09/2026 • Coluna ANPOF

É possível que um humano consiga produzir algo sem estar em diálogo com a humanidade? Bem, quando se pensa isso, dois exemplos parecem provar que sim: um (ii) artista que se isola para criar e um (ii) monge que abandona o mundo para buscar a contemplação do divino. E a mesma pergunta pode ir além: será que o próprio sujeito primeiro é e só depois escolhe? Como se nascesse neutro, capaz de colocar-se diante do mundo e selecionar seus valores por preferência, cálculo ou vontade soberana. Primeiro o indivíduo; depois, suas escolhas. Primeiro o eu; depois, o mundo?

Esse questionamento atravessa boa parte da obra de Charles Taylor e esse exemplo é dele próprio (2000, p. 241), quando buscou desmontar essa imagem do sujeito autossuficiente sem negar a liberdade individual. Assim, nesse recorte, seu problema é investigar o que precisa existir antes de uma escolha para que ela seja possível.

A resposta que encontra é pré-política, pois ninguém escolhe a partir do nada. Antes de decidir o que fazer da vida, o que admirar ou pelo que lutar, já estamos em um mundo no qual algumas coisas importam mais do que outras. Taylor chama essas distinções de “avaliações fortes” (2013, p. 16).

Elas são fortes porque não dizem apenas “eu gosto disso”, mas permitem dizer “isso é melhor do que aquilo”. Se prefiro chocolate a baunilha, faço uma escolha pessoal. Mas, se prefiro a honestidade à mentira, a liberdade à servidão ou a justiça à injustiça, afirmo uma diferença qualitativa. Para que uma escolha seja moralmente significativa, é preciso um campo no qual as coisas apareçam como melhores ou piores, mais dignas ou menos dignas. Taylor chama esse campo de “horizonte”:

Saber quem sou é uma espécie de saber onde me coloco. Minha identidade é definida pelos compromissos e identificações que proporcionam a estrutura ou o horizonte em cujo âmbito posso tentar determinar caso a caso o que é bom, ou valioso, ou o que se deveria fazer ou aquilo que endosso ou a que me oponho. Em outros termos, trata-se do horizonte dentro do qual sou capaz de tomar uma posição (TAYLOR, 2013, p. 44).

A identidade, então, muda de lugar, pois ela não está escondida na consciência, esperando ser descoberta por introspecção. Saber quem sou é, em alguma medida, saber onde estou situado, e ninguém se situa sozinho. Uma criança nasce em um mundo que já possui nomes, histórias, costumes, símbolos e expectativas. Antes que consiga dizer “eu”, já existe uma multidão dizendo coisas sobre o mundo e, pouco a pouco, sobre ela. Recebemos uma língua que não inventamos, uma história que não começamos e relações que não escolhemos.

É por isso que Taylor pode rejeitar a imagem de um sujeito neutro sem transformar o indivíduo em fantoche da sociedade. Não escolhemos o horizonte a partir do qual começamos a escolher, mas podemos interpretá-lo, criticá-lo, transformá-lo e, às vezes, rompê-lo:

As coisas assumem importância em contraste com as circunstâncias de inteligibilidade. Chamemos isso de horizonte. Portanto, uma das coisas que não podemos fazer, se vamos definir nós mesmos significativamente, é suprimir ou negar os horizontes contra os quais as coisas adquirem significado para nós. (TAYLOR, 2011, p. 46).

Os exemplos do começo ajudam a perceber isso. Ainda que o (i) artista viva isolado, continua em diálogo com seu futuro público; mesmo que ninguém veja sua obra, a própria arte se torna um “outro” diante do qual ele se compreende. O (ii) monge eremita, por sua vez, permanece em diálogo com Deus. Até a recusa de um horizonte é uma relação para Taylor (2014, p.247), pois para romper com algo, antes preciso saber contra o que.

Com isso, chegamos a outro conceito importante: Taylor (1985, p. 45) define o ser humano como ‘’o animal que se autointerpreta”. Não apenas vivemos; procuramos compreender o que estamos fazendo de nossas vidas. E essa interpretação nunca acontece em uma língua privada, para dizer que fui injustiçado, preciso compartilhar alguma compreensão do que significa justiça. Para dizer que fui amado, traído, humilhado ou respeitado, dependo de um vocabulário coletivo.

Nesse ponto que identidade e reconhecimento se interconectam. Se preciso dos outros para adquirir as linguagens com as quais interpreto quem sou, o modo como esses outros me veem não pode ser indiferente. O outro participa do próprio processo pelo qual esse sujeito aprende a compreender a si mesmo. É justamente essa a tese desenvolvida por Taylor em A Política do Reconhecimento:

A tese é de que nossa identidade é moldada em parte pelo reconhecimento ou por sua ausência, frequentemente pelo reconhecimento errôneo por parte dos outros, de modo que uma pessoa ou grupo de pessoas pode sofrer reais danos, uma real distorção, caso as pessoas ou a sociedade ao redor delas lhes devolvam um quadro de si mesmas redutor, desmerecedor ou desprezível (TAYLOR, 2014, p. 241).

Uma pessoa, portanto, pode ser ferida não apenas pelo que fazem contra ela, mas também pela imagem que o mundo lhe devolve sobre quem ela é. Não se trata apenas de autoestima, pois se a identidade depende das linguagens por meio das quais conseguimos nos interpretar, ser sistematicamente descrito como inferior, incapaz, indigno ou desprezível pode afetar as próprias categorias com que alguém compreende a si mesmo. Por isso Taylor (2014, p.241) escreve: “O devido reconhecimento não é uma mera cortesia que devemos conceder às pessoas. É uma necessidade humana vital.”

Reconhecer, então, não é elogiar, nem concordar com tudo que alguém faz ou pensa. Diz respeito às condições pelas quais alguém pode formar e sustentar uma identidade sem que ela lhe seja devolvida de maneira sistematicamente redutora ou degradante. Com isso chegamos à política, pois Taylor (2014, p. 243) observa que a modernidade alterou a gramática do reconhecimento. Nas sociedades de ordem estamental, ele assumia, em grande medida, a forma da honra, necessariamente desigual. Com a modernidade, ganha força a linguagem da dignidade, atribuída a todos enquanto iguais. Mas a mesma modernidade que universaliza a dignidade também produz a exigência de autenticidade.

Já não basta ser reconhecido como igual, reivindica-se também que a particularidade não seja apagada. Em A Ética da Autenticidade, ele resume essa transformação: “Ser fiel a mim significa ser fiel à minha própria originalidade.” (TAYLOR, 2011, p. 39).

Surge daí um dos paradoxos mais interessantes da modernidade: queremos ser iguais e queremos ser diferentes. Queremos que ninguém seja inferior por ser quem é, mas também que aquilo que nos torna particulares não desapareça em nome de uma igualdade que transforma todos em indistintos. A política do reconhecimento nasce dessa tensão entre a dignidade igual e o reconhecimento da diferença.

Isso não significa que qualquer reivindicação sobre si possua, apenas por ter sido reivindicada, o mesmo valor que qualquer outra. O reconhecimento não transforma preferências individuais em verdades morais, até o desacordo precisa de um mundo compartilhado de significados, pois só consigo dizer que uma prática é injusta porque disponho de alguma compreensão do que seja justiça, entre outros exemplos.

Por isso, reconhecer é mais exigente do que tolerar. Tolerar alguém pode significar apenas suportar sua existência, mas reconhecer implica admitir que o outro não é somente alguém que ocupa o mesmo espaço que eu, mas alguém cuja existência pode exigir que eu reveja a própria maneira como compreendo esse espaço.

Taylor, portanto, não nos pede que abandonemos o indivíduo em nome da comunidade, nem a liberdade em nome de uma tradição coletiva. Indivíduo e comunidade não são polos absolutamente separados. Eu não sou livre apesar de ter recebido uma língua, uma história, uma cultura e relações que me constituíram. É justamente porque recebi tudo isso que consigo formular projetos, fazer escolhas, rejeitar aquilo que recebi e tentar me tornar outra coisa. Até a minha rebeldia precisa de uma linguagem que aprendi com alguém. Até o meu “eu sou diferente” depende de que exista um “nós” diante do qual essa diferença possa aparecer.

A tese de Taylor, portanto, não é simplesmente que precisamos dos outros para sermos felizes ou que a sociedade influencia nossas escolhas, isso seria simplório. O filósofo canadense compreende que o outro participa das condições de possibilidade daquilo que chamamos de “eu”. Assim, o reconhecimento está envolvido na própria formação da identidade.

Conclui-se que ninguém se faz sozinho. Somos autores de nossas vidas, mas não somos os autores de todas as palavras pelas quais nos definimos. Escolhemos nossos caminhos, mas não escolhemos o mundo a partir do qual aprendemos a distinguir caminhos melhores e piores. Podemos transformar aquilo que recebemos, mas só conseguimos transformar porque primeiro recebemos alguma coisa. Essa é a grande provocação de Taylor contra a imagem moderna do sujeito autossuficiente: antes do eu, já havia o outro.


REFERÊNCIAS

TAYLOR, Charles. A ética da autenticidade. Tradução de Talyta Carvalho. São Paulo: É Realizações, 2011.

TAYLOR, Charles. As fontes do self: a construção da identidade moderna. Tradução de Adail Ubirajara Sobral e Dinah de Abreu Azevedo. 4. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2013.

TAYLOR, Charles. A política do reconhecimento. In: TAYLOR, Charles. Argumentos filosóficos. Tradução de Adail Ubirajara Sobral. 2. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2014. p. 241-274.

TAYLOR, Charles. Self-interpreting animals. In: TAYLOR, Charles. Human agency and language: philosophical papers 1. Cambridge: Cambridge University Press, 1985. p. 45-76.


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