Ao que responde o líder fascista? Uma pesquisa de Th. Adorno

Maurício Vieira Martins

Professor da UFF

30/07/2021 • Coluna ANPOF

Cresce no espaço público o debate sobre as razões que levam ao surgimento no mundo contemporâneo de lideranças com características regressivas muito evidentes. E que não se diga que trata-se de um fenômeno apenas brasileiro: ­­com diferenças nacionais sem dúvida marcantes, também os países do G7 assistem à emergência de lideranças autoritárias. Nos Estados Unidos, mesmo notórios integrantes do Partido Republicano de Donald Trump se pronunciaram sem maiores rodeios sobre isso: “há um nome para o tipo de política de Trump: neofascismo”[1]. Por outro lado, o debate sobre as circunstâncias que geram regimes autoritários é muito mais antigo do que se supõe. Abordado já por Espinosa em seu Tratado Teológico-Político – que argutamente lembrava que, permanecendo as causas da tirania, um tirano derrubado logo será substituído por outro -, ele atravessa toda a modernidade até chegar ao século 21, onde foi retomado por pensadores proeminentes. Dentre eles, há um texto de Th. Adorno que merece ser destacado neste ano de 2021, quando completa exatos 70 anos. Trata-se de um ensaio de 1951, intitulado A teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista[2].

O texto insere-se num programa de pesquisa mais amplo que Adorno desenvolveu em diferentes momentos de sua vida (em parceria com M. Horkheimer e outros pesquisadores), programa que gerou também o volumoso livro A personalidade autoritária. Quanto ao referido ensaio, embora conhecido em círculos mais especializados da filosofia e das ciências humanas, ele apresenta a nosso juízo vetores ainda a serem explorados, que chamam a atenção precisamente por sua atualidade. Tal ocorre por se situar num campo de interseção muito fecundo entre a filosofia, as ciências sociais e a psicanálise, mobilizando conceitos que buscam aclarar a complexidade do momento histórico vivido por Adorno, que apresenta desdobramentos que hoje nos atingem em cheio.

 Adorno inicia seu texto chamando a atenção para a pertinência de algumas categorias desenvolvidas por Freud em 1921 – anteriormente ao apogeu do fascismo, portanto - no livro Psicologia das massas e análise do eu. O hiato de 30 anos que separa o escrito freudiano do ensaio de Adorno não impediu que este último apontasse com segurança para a produtividade da elaboração do pai da psicanálise. Resumindo aqui um longo trajeto, Freud se indaga pelos mecanismos que propiciam a forte coesão obtida por um líder entre seus liderados. Sua análise desvela a ligação libidinal existente entre eles[3], promovendo uma união em torno do mesmo objeto, o próprio líder. Mesmo que dessexualizado, este vínculo fornece o esteio de um certo tipo de laço social onde são secundarizados os traços singulares de cada participante, em nome da coesão do grupo agora formado. Freud destaca em particular a importância dos processos de identificação que se dão tanto entre cada um dos liderados e o líder, como também, horizontalmente, entre os que formam aquele grupo.

Momento decisivo no argumento freudiano é quando ele demonstra que o líder passa a ocupar um lugar preciso na economia psíquica de seus liderados. Trata-se do ideal do eu, instância psíquica de origem arcaica, relacionada àquilo que formamos como nossos ideais, lugar que nos garante um reconhecimento. Estamos diante de “uma quantidade de indivíduos que puseram um único objeto no lugar de seu ideal do Eu e, em consequência, identificaram-se uns com os outros em seu Eu” (Freud, p. 59).

 Consequência disso, acrescentamos, é que a imagem do líder se aloja no psiquismo de seus liderados, tornando-se indiscernível da do próprio seguidor. É esta cola identificatória que permite entender porque mesmo ações gritantemente equivocadas da liderança podem ser endossadas por seus seguidores. E explica também porque as críticas dirigidas a ela são sumariamente rechaçadas: tudo se passa como se os próprios seguidores se sentissem criticados... De resto, para quem cultiva uma visão idealizada do psiquismo humano, um dos momentos mais desconcertantes do texto freudiano é quando ele sustenta que a qualidade do afeto partilhada pelos liderados não necessita ser positiva: também o ódio é capaz de unir sujeitos distintos (Freud, p. 42). Aqui, o laço social adquire sua feição mais sombria. Ao invés da possibilidade de um projeto civilizatório, entra em ação um grupo com evidentes características destrutivas.

Dada a presença recorrente de categorias freudianas no ensaio de Adorno, poderia-se supor uma quase-identidade entre as posições dos dois autores. Mas esta impressão não é de todo correta. A partir de certo momento de seu texto, Adorno menciona a necessidade de uma teoria explícita da sociedade para o entendimento da massa fascista que lhe interessa analisar. O leitor presencia então um engenhoso giro argumentativo, que desvela uma nova face do pensamento adorniano:

o fascismo como tal não é uma questão psicológica....Numa sociedade completamente reificada,..., na qual cada pessoa foi reduzida a um átomo social, a uma mera função da coletividade, os processos psicológicos, apesar de persistirem dentro cada indivíduo, deixaram de aparecer como forças determinantes do processo social (Adorno, 2018)

Assim, o que de início parecia uma restitutio in integrum da teoria freudiana, acaba nela operando uma inflexão que, mantendo sua produtividade, introduz agora determinações societárias decisivas. Dentre estas últimas, surge uma questão central: quem são aqueles, afinal, que caem nas malhas das lideranças fascistas? No segmento final de seu ensaio, sobressai o Adorno estudioso da reificação das relações numa sociedade capitalista: “O segredo da propaganda fascista pode bem ser o fato de que ela simplesmente toma os homens pelo que eles são – os verdadeiros filhos da cultura de massa estandardizada atual, amplamente despojados de autonomia” (Adorno, 2018).

Estamos diante de um peculiar “individualismo sem indivíduo”, momento histórico que ao mesmo tempo em que apregoa a importância da individualidade, na prática esvazia a efetividade de cada indivíduo, tornando-o um joguete de forças impessoais. Neste sentido, o líder fascista responde tanto às instâncias psíquicas de seus liderados como à ausência de horizontes e às profundas cisões de numa sociedade mercantilizada. Nas palavras de Adorno, torna-se por isso um “mandatário de interesses econômicos e políticos poderosos”: agora, o foco da análise incide sobre uma configuração histórica precisa.

Incidentalmente, esta explícita referência aos interesses objetivos presentes no regime fascista permite testar a atualidade do estudo de Adorno numa aproximação com o Brasil contemporâneo. A produção acadêmica já disponível sobre o governo Bolsonaro (caracterizado por muitos como neofascista) chama a atenção para o fato de que uma análise apenas política do atual regime é insuficiente. Para além das declarações ruidosas do presidente – que ocupam lugar de destaque na mídia - há uma agenda econômica particularmente perversa sendo implementada, que penaliza sobremodo os setores mais vulneráveis da população. Sobre isso, dentre os vários exemplos disponíveis, citemos aquele escolhido com precisão pelo historiador Marcelo Badaró: a ida de Bolsonaro ao STF em maio de 2020, acompanhado por nada menos do que 15 dirigentes de entidades empresariais, “numa teatral ‘marcha ao Supremo’, com claro objetivo de pressionar o judiciário a abrir mão das garantias constitucionais à vida humana, em nome do ‘salvamento dos CNPJ’” [4]. (E se tomarmos como referência o caso clássico alemão, é bem conhecido o seu financiamento por gigantes como a Krupp e a Siemens).

Retornando a Adorno, cabe lembrar que, como todo autor proeminente que gerou um ciclo interpretativo, existem críticas a seu trabalho que merecem ser conhecidas. Fugiria aos objetivos deste breve escrito enumerar tais críticas. Mencionemos apenas aquela feita pelo filósofo Anselm Jappe que, embora reconhecendo a relevância do projeto de Adorno, diverge de sua tácita postulação de uma sociedade totalmente administrada, pois ela finda por desconsiderar contradições disruptivas que são próprias a diferentes formações sociais[5]. Este não discernimento das fissuras do capitalismo de seu tempo é paradoxal, se levarmos em conta o fato de que Adorno era também um estudioso de Hegel, precisamente o pensador que, distanciando-se das filosofias da identidade, ofereceu uma seminal contribuição para o entendimento das contradições[6].

 

Isso posto, ainda assim o ensaio A teoria freudiana e o padrão de propaganda fascista se encerra com uma nota otimista. Adorno sustenta que, embora intenso, o domínio dos liderados por seu líder contém uma artificiosidade que o torna vulnerável à irrupção de um real que insiste em se manifestar. Mesmo os hipnotizados não são alheios às convulsões da realidade. Daí a bela metáfora adorniana que sugere que, corroído o entusiasmo inicial alienante, finalmente “despertarão aqueles que mantêm seus olhos fechados apesar de não estarem mais dormindo”.

 

[1] É o caso de Daniel Pipes: There's a name for Trump's brand of politics: neo-fascism. Disponível em: https://www.inquirer.com/philly/news/politics/20160408_Commentary__There_s_a_name_for_Trump_s_brand_of_politics__neo-fascism.html

[2] Há uma tradução brasileira disponível no site da Boitempo Editorial: https://blogdaboitempo.com.br/2018/10/25/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo/ 

[3] Freud, S. Psicologia das massas e análise do eu. Companhia das Letras, p. 44.

[4] Mattos, Marcelo Badaró. Uma história de terror: o Brasil de Bolsonaro e a pandemia. Disponível em: https://www.observatoriodacrise.org/post/uma-hist%C3%B3ria-de-terror-o-brasil-de-bolsonaro-e-a-pandemia

[5] Jappe, Anselm. As aventuras da mercadoria. Ed. Antígona, p. 109.

[6] Desenvolvi com mais vagar a contribuição de Hegel para o estudo das contradições em meu artigo Hegel, Espinosa e o marxismo: para além de dicotomias. Revista Novos Rumos, v. 57, p. 29-46, 2020.