Aplicativos, sedentarismo cognitivo e a atrofia da razão

John Karley de Sousa Aquino

Professor de Filosofia do IFCE; membro do GT Filosofia Brasileira da Anpof

28/07/2026 • Coluna ANPOF

           A cognição é a capacidade humana de adquirir, armazenar, organizar e utilizar informações para lidar consigo, com os outros e com o mundo. Em suma, consiste na nossa capacidade de aprender. Por séculos, os filósofos se perguntaram e discutiram sobre a origem das nossas ideias, se elas eram inatas à razão ou adquiridas através da experiência. É mérito de Kant ter mostrado que o processo cognitivo não é uma competição entre razão e experiência, mas uma cooperação entre ambas. É o trabalho conjunto de ambas as capacidades cognitivas que nos permite formar ideias sobre as coisas.

            Os estudos sobre a cognição humana se ampliaram desde Kant. Há pesquisas na área da psicologia do desenvolvimento, como as de Piaget e Vygotsky, mas também as descobertas da neurociência. Entretanto, de toda maneira, é consenso que o ser humano é um animal capaz de aprender e que possui habilidades cognitivas fundamentais para sua sobrevivência.

            São consideradas habilidades cognitivas: (1) a atenção; (2) a percepção; (3) a memória; (4) a linguagem e (5) o raciocínio. A (1) atenção consiste na nossa capacidade de focar em um conteúdo em meio a vários, por exemplo, ser capaz de ler um livro em meio ao barulho ou ser capaz de anotar o que o professor está falando, mas também a capacidade de ler um texto longo sem se dispersar, isto é, esquecer o que acabou de ler. A (2) percepção consiste, como disse Kant, no modo como o sujeito entende o objeto. O modo como entendemos as coisas, diz Kant, depende de como as percebemos e para ele nosso entendimento é mediado pelos nossos cinco sentidos, por isso haveria aspectos da realidade imperceptíveis para nós. Os culturalistas dizem que é a cultura que media nossa percepção e entendimento dos objetos enquanto os adeptos da reviravolta linguística dizem que é a linguagem a instância mediadora entre o Eu e o mundo. De todo modo, o fundamental é a admissão de que nossa percepção da realidade não é imediata, mas mediada e a tecnologia é um elemento mediador, por exemplo, os instrumentos óticos como microscópio e telescópio que ampliam nossa percepção do real além do olho nu. A (3) memória é indispensável para o aprendizado, como disse Aristóteles. Ninguém aprende nada se não é capaz de reter, isto é, “decorar” alguma coisa. Nossa memória é de curto (15 a 30 segundos), médio (algumas horas) e longo prazo (dias ou a vida inteira). A (4) linguagem consiste na nossa capacidade de comunicar o que aprendemos, mas também serve para representar nossas ideias verbalmente. Há uma querela se o pensamento é pictórico ou se articula linguisticamente, mas isso não vem ao caso, o que se admite é que quanto mais amplo meu vocabulário maior meu domínio cognitivo do mundo objetivo e interior. E, por fim, o (5) raciocínio é a capacidade de conectar ideias e solucionar problemas. Para variar, Aristóteles foi pioneiro na classificação dos tipos de raciocínio e declarou que os principais, pois os mais utilizados por nós, eram o raciocínio indutivo e o dedutivo. Na nossa mente, essas habilidades não funcionam separadamente, mas estão todas conectadas, funcionando simultaneamente e de maneira orgânica.

            Qual o grande problema do uso exagerado de aplicativos que facilitam nossa vida cotidiana, como GPS ou calculadora e, principalmente, da inteligência artificial (I.A.)? É o sedentarismo cognitivo.

            O sedentarismo cognitivo em resumo significa o desuso de nossas habilidades cognitivas a ponto de elas irem “atrofiando” ou falhando por “falta de uso”. Se fizermos uma analogia entre nossa mente e um músculo, é como se ao não usarmos adequadamente nossas habilidades cognitivas não estivéssemos “malhando” e por isso esse músculo vai perdendo a força, enfraquece e diminui de tamanho, o que no caso da nossa cognição implica mau funcionamento e dependência tecnológica. Por exemplo, antes do celular, nós anotávamos os contatos em agendas e como nem sempre podíamos sair com a agenda debaixo do braço, éramos obrigados a memorizar muitos números telefônicos. Hoje, terceirizamos essa função cognitiva para o celular e no máximo temos memorizado o nosso contato e às vezes nem isso. Caso nosso celular descarregue é provável que fiquemos incomunicáveis, pois não temos memorizados o contato de ninguém. O mesmo ocorre com o uso do GPS. Outrora o motorista tinha que decorar todos os caminhos, nomes de ruas e de bairros, memorizar todo o mapa da cidade, mas hoje não precisamos fazer isso, pois basta digitar o endereço do destino no GPS e temos o melhor trajeto na palma da mão. O problema é que se ficamos sem internet ou o celular descarrega, não sabemos para onde ir, pois quem nos guia não é nossa memória, mas o GPS.

            Outro fato que afeta negativamente nossas habilidades cognitivas são os vídeos curtos e os áudios e vídeos acelerados, mas também as notificações constantes. Devido à velocidade acelerada e às interrupções frequentes de aplicativos de mensagem, temos dificuldade de prestar atenção e nos concentrar, ou seja, nossa habilidade de prestar atenção é comprometida. São inúmeros os relatos de jovens que reclamam de ter que ler “textões” ou assistir um filme longo ou na velocidade normal, sem poder acelerar. A consequência é a dificuldade de focar no que está acontecendo ou mesmo o pensamento acelerado, grande fator ou sintoma de ansiedade.

            As novas tecnologias digitais e a informática também afetam nossa percepção do tempo, que fica parecendo mais acelerado, mas também nossa percepção sobre fatos da vida humana. Por exemplo, o impacto do acesso fácil, precoce e em excesso de conteúdo pornográfico na vida sexual dos jovens. É sabido que quanto mais o jovem tem acesso a pornografia, mais sua percepção sobre o corpo e o desempenho sexual é prejudicada, já havendo toda uma literatura sobre a relação entre consumo precoce e exagerado de pornografia e ansiedade de desempenho e dificuldade de excitação com corpos reais sem o uso de medicamentos.

            Ademais, quando terceirizamos para a “máquina” a elaboração de textos ou pedimos conselhos a ela, como já ocorre, estamos terceirizando nossa capacidade de raciocinar e tomar decisões. Como a I.A. não cria ideias, mas apenas utiliza as disponíveis, isso implica o comprometimento de nossa capacidade criativa. Sem contar que a I.A. se alimenta de ideias produzidas por seres humanos que são divulgadas e ela as utiliza sem dar os devidos créditos e sem pagar pelos direitos autorais. Além disso, há a questão ética do poder usar a I.A. para realizar tarefas intelectuais, como escrever nosso Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), mas até que ponto não devemos fazer isso? Afinal, não é porque posso que devo. Mas aí fica a questão, a saber, como controlar de modo eficaz o que posso, mas não devo? Isso acarreta para a escola e a universidade um problema pedagógico: o de como avaliar o nível de aprendizado dos estudantes se não podemos confiar se eles não vão pedir a I.A. para fazer o trabalho por eles? Isso coloca para o nível superior a questão da originalidade, pois se o objetivo é apenas adquirir conhecimento para executar tarefas, a I.A. é um instrumento útil, mas se a questão for de fato descobrir algo novo ou criar uma ideia nova, a I.A. é um obstáculo e seu uso no nível superior deve ser rigorosamente regulado e devemos exigir mais dos nossos pesquisadores e não que eles apenas digam mais do mesmo, como de fato é o que acabamos fazendo. Ora, se for um doutorado em filosofia apenas para explicar como Hegel definiu o Estado, então é melhor deixar que os interessados no assunto apenas consultem a I.A., mas se o que queremos é uma reinterpretação da consciência infeliz ou uma correção da dialética, como fez o finado professor Carlos Cirne Lima (1931 – 2020), então a I.A. é algo a ser evitado, pois ela promove o sedentarismo cognitivo e inibe a nossa capacidade de raciocinar.

            Para finalizar essa breve reflexão sobre esse complexo assunto, gostaria de dizer que há pessoas que usam a I.A. para fazer terapia, o que é um absurdo. Afinal, um dos fatores fundamentais para o sucesso de uma psicoterapia é a constituição do vínculo terapêutico ou da transferência no caso da psicanálise, coisa que a “máquina”, incapaz de ter empatia, não estabelece com o paciente. Esse é o cúmulo da alienação tecnológica, pois consiste na entrega na nossa subjetividade mais íntima aos algoritmos.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.

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