As Fantasias Raciais da Odisseia de Christopher Nolan
Fabíola Menezes de Araújo
Doutora em Filosofia pela PUC- Rio e em Teoria Psicanalítica pela UFRJ
12/08/2026 • Coluna ANPOF
Especial | XXI Encontro Anpof
Uma menina negra é arrastada à força. Outras mulheres negras surgem dominadas pela ira. É assim que aparecem algumas das principais personagens negras em A Odisseia, de Christopher Nolan. Essa escolha de elenco não seria relevante se não dialogasse com um imaginário muito antigo: aquele que distribui virtudes e vícios segundo marcadores raciais. No genocídio da população negra em curso, Ifigênias continuam a morrer. Quando é o Estado que decide quem pode, e quem não pode morrer, nós negros somos os primeiros excluídos.
Desde Freud sabemos que fantasias não pertencem apenas aos entes que somos. Jacques Derrida lembra que vivemos entre fantasmas. As sociedades são habitadas por imagens que sobrevivem aos séculos, e que continuam a organizar desejos.
A Odisseia traz à baila um desses fantasmas. Odisseus é um herói sexualmente disponível para Circe, Calipso e até para o canto das sereias. Penélope, ao contrário, transforma a fidelidade em destino. A assimetria não é apenas narrativa. É política. Aos homens pertence a mobilidade do desejo; às mulheres, a virtude da castidade, e da fidelidade.
Esse problema, porém, não pertence exatamente ao mundo grego. A sexualidade, entendida como identidade de gênero, é uma invenção moderna. Entre os gregos, importavam sobretudo os papéis políticos, a educação do desejo (ér?s), os prazeres (aphrodisía) e o autocontrole (enkráteia). A questão não era redescobrir a sexualidade, mas formar cidadãos capazes de governar a si mesmos.
É justamente por isso que chamam atenção as opções de Nolan. Atenas, interpretada por uma atriz negra, não preserva a inteligência estratégica da Deusa, ela não ocupa um lugar distinto, mas aparece subordinada ao protagonismo de Odisseus. Ingênua, mansa, ela olha Odisseus de baixo para cima. Já Ifigênia, Helena e Clitemnestra — representadas por atrizes negras — concentram as imagens de revolta, de ruptura e de violência. Elas ocupam um lugar distinto: o lugar dos excluídos.
Na tradição clássica, a menina Ifigênia é conduzida ao sacrifício pelo próprio pai, Agamêmnon. Sua figura costuma oscilar entre a da vítima inocente, e a da jovem que aceita morrer pela Hélade. Nolan rompe parcialmente com essa tradição ao apresentar uma personagem marcada pela recusa, e pela indignação. É ela a menina negra arrastada à força. O mesmo acontece com Helena e Clitemnestra, mulheres que parecem desafiar a ordem patriarcal.
O problema não está em representar mulheres revoltadas. O problema está na distribuição racial dessa revolta. As personagens identificadas com a dissidência são negras; aquelas associadas à estabilidade da ordem permanecem majoritariamente brancas. A racialização deixa de ser um detalhe estético para produzir uma gramática visual.
Não se trata de acusar Nolan de racismo deliberado. Fantasias culturais raramente funcionam com base em decisões conscientes. As fantasias operam precisamente porque parecem naturais.
É nesse ponto que Platão continua atual. Costuma-se dizer que ele expulsou Homero da cidade ideal porque os poetas seduziam pela aparência. A questão, sustentamos, porém, não era eliminar a imaginação, mas perguntar quais narrativas educam melhor uma comunidade. Toda sociedade forma seus cidadãos também pelos mitos que idolatram. No mito da Caverna, o Bem, e a Koinonia não seriam um aquilombamento porque quem produz, os artesãos, na República, deve permanecer à serviço da terra. Já à majestade cabe o luxo da filosofia. O maior luxo: o anel de Giges. É um dos poderes de Atenas que nasce da cabeça de um deus-rei para governar outros reis. Nem Odisseus nem Aquiles poderiam ser rei-filósofos. O primeiro porque mente, e o segundo porque, no Hades, descobre ser melhor “ser um pobre agricultor entre os vivos que um rei entre os mortos."
A querela em que se separam filosofia e poesia permanece viva.
Desde 2023, no Pibid (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência) de Filosofia na UNIRIO 2023-2026, desenvolvido com apoio da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), temos investigado justamente as disputas pela atenção e pelo imaginário. O objetivo não é censurar obras, mas compreender como elas participam da formação ética e política dos estudantes. Ensinar filosofia também significa ensinar a ler imagens.
A questão racial inscreve-se nesse horizonte. Quando personagens negros aparecem reiteradamente associados à violência, ao excesso e à desordem, enquanto a virtude continua racialmente invisível porque identificada à branquitude, não estamos apenas diante de escolhas de elenco. Estamos diante de uma pedagogia silenciosa do olhar. O poético se ausenta onde se ausentam os deuses.
Na novela A Nobreza do Amor ocorre quase o inverso: personagens negros são associados à virtude, enquanto personagens brancos concentram vícios, e abusos. Em ambos os casos, a distribuição moral acompanha uma distribuição racial. O problema não muda apenas porque os sinais se invertem.
A filosofia nos convida justamente a interromper o automatismo.
Por isso, justiça racial não é apenas ampliar direitos, ou combater práticas discriminatórias. É também disputar o imaginário coletivo. As leis alcançam os atos; mas não alcançam, sozinhas, as fantasias que tornam esses atos (in)aceitáveis, ou vexatórios. A vergonha precisa mudar de lado.
O colonialismo, como regime jurídico, talvez tenha terminado. Como pedagogia da imaginação, continua atuante. Toda narrativa distribui prestígio, organiza afetos e ensina quem merece confiança, admiração ou suspeita.
É por isso que a questão da representação importa. Trabalhando apenas a questão da sexualidade não superamos o Patriarcado.
Para Platão, a educação sempre começa pelos mitos. Hoje, talvez devêssemos reformular essa pergunta: que imaginário racial continua educando nosso olhar?
A resposta não depende apenas do cinema. Depende da disposição de reconhecer que as fantasias se mantêm com base na libido. E que fantasiamos juntos ‘Isso’ que se torna realidade. Já quando a verdade tem oportunidade, pode-se moldar o presente com base na força silenciosa dos Orixás.
Costuma-se repetir que Platão expulsou Homero da Kallípolis porque o poeta era uma péssima influência para a juventude. Em outras palavras: inventou o primeiro “banimento por comportamento inadequado”. Em pretoguês, Platão colocou Homero abaixo de cachorro. Em lacanês: ninguém entendeu nada, mas todos concordaram balançando a cabeça quando Odisseus pegou geral, e deixou Penélope esperando por vinte anos, casta.
Só que para Platão também a virtude feminina é condição de sua nobreza real. Subir do real às Ideias exige tanto esforço que, se existisse aplicativo de corrida filosófica, Platão ganharia medalha por quilômetros percorridos sem sair do lugar. É um Sísifo premium: empurra a pedra montanha acima enquanto um supervisor, ou pibidiano, enxuga gelo logo atrás.
A fama é que Platão preferia a razão às fantasias. Tenho minhas dúvidas. Quem racionaliza compulsivamente é Odisseus. O homem consegue fazer análise SWOT até do canto das sereias. Enquanto qualquer pessoa normal amarraria o barco, ele faz reunião estratégica: “Pessoal, vamos ouvir o canto como se fossem sirenes de ambulância.”
No Pibid, também navegamos entre cantos e sirenes. Lemos e ouvimos Do Canto das Sereias ao Barulho das Sirenes1 porque, convenhamos, ir “do Neepa ao Grupo do WhatsApp” é sempre um épico. A ideia é preparar futuros docentes para a escola pública, onde se aprende rapidamente que o verdadeiro monstro mitológico não é o Ciclope: é o projetor que não funciona, e, quando chega o técnico do ar-condicionado, é porque já devemos estar no Apocalipse.
É desse lugar que olhamos para a Ifigênia negra de Nolan. Na tradição, ela é sacrificada pelo pai. Em Nolan, reaparece revoltada. Electra nem aparece. Aliás: aparentemente, todas as mulheres negras do filme receberam a mesma orientação de elenco: “— Entrem em cena como quem acabou de descobrir que o Wi-Fi caiu, e ainda pediram trabalho em grupo.”
O curioso é que, durante séculos, a tradição exaltou a resignação feminina. Ifigênia costumava alternar entre vítima inocente e heroína do sacrifício. Nolan resolve mudar o roteiro: suas personagens parecem dizer “— Chega”. Helena, Clitemnestra e Ifigênia finalmente descobrem um recurso revolucionário na história da literatura: responder ao patriarcado com um sonoro “vocês que inventaram a guerra que tratem de inventar a paz”.
No fim das contas, talvez Platão tivesse razão em expulsar os poetas. Não porque eles imitassem demais, mas porque, dois mil e quatrocentos anos depois, ainda conseguem transformar uma sessão de cinema em assembleia filosófica, guerra cultural e reunião de condomínio — tudo menos ser anticapitalista e anti-machista.
À diferença de Alexandra Kollontai, que imaginava um Eros alado — uma força capaz de reorganizar os vínculos afetivos e sociais e de transformar a revolução comunista, antes de tudo, numa revolução das formas de amar —, Nolan parece preferir outra especialidade. Surge como uma espécie de psicanalista de fim de semana de Homero: diagnostica os perigos da militância com a segurança de quem fez um curso intensivo de duas horas. No fim, não se sabe se está interpretando a epopeia, ou usando Odisseus como terapeuta. De tanto admirar o herói da astúcia, acaba se condecorando diante do espelho. Afinal, entre um Eros alado e um ego inflado, Nolan parece ter escolhido voar apenas até o espelho.
Para quem reconhece, na Umbanda, uma tecnologia ancestral, conviver com os mortos nunca foi uma metáfora. Trata-se de uma experiência ritual.
Talvez haja Umbanda no ato de Odisseus de ir ao Hades, ou Candomblé no ato de Platão de colocar Er, no mito homônimo, para ouvir as Moiras. Tirésias dá as ordens em ambos os casos. Como um santo? Não. Como um Caboclo.
1 FEITOSA, Charles. Do Canto das Sereias ao Barulho das Sirenes. Revista Brasileira de Estudos da Presença, [S. l.], v. 15, n. 1, 2025. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/presenca/article/view/138635. Acesso em: 26 jul. 2026.
REFERÊNCIAS
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