Beauvoir: uma filósofa da velhice

Flávio Rocha de Deus

Doutorando em Filosofia (UFOP)

12/09/2025 • Coluna ANPOF

Entre todos nós, a aquisição e posse de opiniões impopulares se encontra, nos mais distintos graus e recortes, sempre presente. Dentre as minhas, há uma que costuma causar, ao menos num primeiro momento, certa resistência entre meus pares quando a compartilho: sinceramente, acredito que Simone de Beauvoir merecia ser mais lembrada em nossos currículos e manuais por sua obra sobre a velhice do que por seus estudos sobre os gêneros. E acrescento: o fato disso causar alguma surpresa ou espanto só reforça a tese da própria filósofa sobre a sistemática “indiferença à idade avançada”, onde o “velho é sempre o outro”.

A obra mais célebre de Simone de Beauvoir, O segundo sexo (1949), tornou-se fundacional para o pensamento feminista contemporâneo e uma referência incontornável da filosofia do século XX. Que seja claro: não se pretende aqui negar a importância histórica e filosófica dessa obra, nem diminuir seus méritos, mas situá-los com rigor para evidenciar, comparativamente, a singularidade que foi a publicação de A velhice (1970) e, consequentemente, as injustiças formais de sua subestimação.

Foi O segundo sexo uma obra original, indispensável e sem precedentes? A resposta é ambígua: sim e não. Sim, porque Beauvoir conseguiu articular uma síntese filosófica poderosa, articulando ferramentas do existencialismo e do materialismo histórico para pensar a condição feminina como a do “Outro”. Esse gesto teórico foi decisivo no auxílio da consolidação do feminismo contemporâneo. Mas, de igual forma, muitas de suas ideias centrais já circulavam antes: Mary Wollstonecraft, no século XVIII, já apontava a dimensão social da desigualdade de gênero, constituída desde a infância, das brincadeiras às permissões de liberdade.

Contemporaneamente, autoras francófonas como Colette Audry, Suzanne Lilar e Marie-Andrée Lagroua Weill-Hallé, sem falar nas sufragistas inglesas como Emmeline Pankhurst, já problematizavam a construção social da mulher; escritoras como Virginia Woolf também já apontavam a opressão estrutural e cultural das mulheres; e, paralelamente, na França do pós-guerra, havia intenso debate sobre emancipação, envolvendo trabalho, sexualidade, educação e cidadania. O que faltava, porém, era uma sistematização filosófica capaz de dar coesão a esse conjunto difuso de vozes. É justamente aí que Beauvoir intervém: ao oferecer densidade teórica e síntese conceitual, ela transformou um movimento teoricamente disperso em reflexão filosófica de alcance universal. A ideia da mulher como “o Outro” ecoa as categorias hegelianas e existencialistas, ampliando sua aplicabilidade, neste escopo, a potência filosófica da obra está justamente aí: não tanto em inaugurar um tema, mas em elevá-lo a um outro patamar. Assim, O segundo sexo marca o pensamento feminista, mas, ao contrário de A velhice, não representa uma ruptura ou acrescimo radical com o tempo histórico — ao contrário, responde a ele.

A publicação de A velhice em 1970, mais de vinte anos depois de O segundo sexo, mostra uma Beauvoir que desloca seu foco para um sujeito ainda mais invisível do que a mulher: o velho. Em sua obra, a velhice é tratada como uma condição radical de alteridade. Diferente da mulher, que pode ao menos ser erotizada ou maternalizada, o velho representa a pura inutilidade social: é o corpo gasto, a produtividade perdida, a sombra da morte, é uma “palavra de um sentido pejorativo, [que] soa como um insulto”[1].

O gesto filosófico de Beauvoir é audacioso: ela não escreve uma ode à sabedoria dos anciãos, como Cícero, nem pensa a decadência como metáfora da existência, como faziam Schopenhauer e Nietzsche. Ela investiga o velho como problema político, social e existencial concreto, marcado por exclusão, abandono, perda de direitos e desumanização. Sua análise não romantiza nem idealiza o envelhecimento. Ela revela a brutalidade com que as sociedades capitalistas lidam com o tempo e com o corpo que já não produz. Nesse sentido, A velhice  não é apenas original, é inédita. Desde a Antiguidade, nenhuma obra filosófica de tamanha envergadura (seis centenas de páginas irredutíveis) havia se dedicado a tratar a velhice como categoria de análise em si.  Nem mesmo Heidegger, ao tratar do ser-para-a-morte, aborda a velhice como modo de existência, mas Beauvoir, sim. É por isso, que não me parece exagero dizer que sua obra permanece até hoje como a mais importante reflexão filosófica sobre a velhice já produzida. Curiosamente, conhecida mais por estudantes de medicina (geriatria) do que pelos de filosofia.

Ao comparar a recepção de O segundo sexo com a de A velhice, vemos uma assimetria gritante. Enquanto o primeiro virou marco teórico, curricular e militante, o segundo foi silenciado. Raramente aparece nos estudos de filosofia contemporânea. Não integra bibliografias fundamentais. Não virou referência para movimentos de luta. E isso não porque seja menos denso ou bem escrito, mas porque, para nós, o tema parece ser menos “útil”, afinal, como nos disse a filósofa: “ignoramos quem seremos: aquele velho, aquela velha”[2].

Essa constatação, primeiramente, leva a uma hipótese metacrítica: o valor filosófico de uma obra não está apenas em sua originalidade teórica ou profundidade analítica, mas na capacidade que ela tem de se tornar funcional aos interesses de seu tempo. O segundo sexo serviu a um projeto político crescente: o feminismo. A velhice não encontrou quem a defendesse. Não há uma militância dos velhos. Não há um imaginário do velho desejável. A sociedade ocidental moderna constrói a velhice como ruína, perda, quase-morte. Assim, o esquecimento da obra de Beauvoir sobre a velhice não é um acidente, mas uma confirmação de sua própria tese: o velho é aquele que não se vê, porque ninguém quer ver.

Michel de Montaigne, no século XVI, em seu ensaio “Da idade”, fez uma breve crítica ao fato de chamarmos a morte por velhice como a “morte natural”. Para ele, não deveríamos denominar como “natural o que é apenas exceção”, sendo que o mais ordinário — e, portanto, natural — era “quebrar a cabeça numa queda, afogar-se em algum naufrágio, morrer de peste ou de pleurisia”. Para ele, em sua época, “morrer de velhice é coisa que se vê raramente, singular e extraordinária”.[3] Tal comentário nos orienta a uma curiosa percepção: se outrora a velhice, mesmo que possível, era um acontecimento raro, hoje ela se tornou uma das experiências mais comuns da existência humana. Desta forma, podemos afirmar, tranquilamente, que, a despeito da ablepsia dos debates de nosso tempo, poucas coisas são tão contemporâneas quanto envelhecer.


Notas

[1] BEAUVOIR, Simone. A velhice. Trad. Maria Helena Franco Martins. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990, p. 11.

[2] Cf. Ibidem.

[3] MONTAIGNE, Michel de. Ensaios I. Tradução: Sérgio Milliet. São Paulo: Nova Cultural, 1996, p. 286.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.

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