Como decapitar a si mesmo e continuar pensando: Inventando outras metodologias de estudos e pesquisas

Renata Lima Aspis

Prof. (UFMG) e GT Filosofar e Ensinar a Filosofar

08/09/2026 • Coluna ANPOF

Especial | XXI Encontro Anpof | Minicursos

Metodologia de estudo e pesquisa “fuçar-ler-escrever”

As universidades modernas, na Europa Ocidental, como sabemos, foram criadas sob a égide do Humanismo, na perspectiva da laicidade e da universalidade do conhecimento. Importante salientar também, a título de sua caracterização, que desde o princípio, voltadas para as elites, não tiveram qualquer problema de conformidade com o capitalismo.

O Humanismo, como filosofia e ideologia, que teve seu auge no século XVIII, moldou a concepção que os seres humanos, no Ocidente, em geral, têm de si mesmos. Essa concepção, por sua vez, está calcada na tradição do racionalismo cartesiano, que executa uma cisão entre corpo e mente, declarando-os discrepantes, feitos de diferentes substâncias, e tendo, portanto, diferentes importâncias. O corpo (res extensa), só consegue produzir conhecimentos enganados e enganosos; a mente (res cogitans), pode produzir conhecimentos verdadeiros e a existência de um sujeito cognonscente só é possível por meio dela. Esta cisão que estrutura o pensamento ocidental platônico-cartesiano, fundamenta a tradição greco-romana-judaico-cristã-europeia-colonizadora da Modernidade e a divisão capitalística do trabalho.

Do lado de baixo do equador, a permanência do modo de pensar e agir do colonialismo - a colonialidade-, a despeito da diversidade e complexidade das inúmeras culturas, garante a submissão da multiplicidade ao padrão do humanismo europeu. Esse humanismo, porém, como sabemos hoje e cada vez mais, refere-se a (apenas) um determinado tipo de ser humano, que foi tornado modelo a ser seguido: macho, branco, hétero, cisgênero, cristão, urbano, com posses, instruído. E é este “O Homem” que gere a produção de conhecimento nas instituições universitárias e é também sob a sua perspectiva e para seus interesses que convergem as produções dessas instituições de ensino, que, ao longo do tempo, foram se tornando também locais para o desenvolvimento de pesquisas. No Brasil, a Constituição de 1988 consolidou a base da universidade pública no tripé ensino, pesquisa e extensão...todas sob o modo de pensar do humanismo europeu: racista, sexista e especista, talvez não seja exagero acrescentar.

Louvamos as políticas públicas de democratização do conhecimento e minimização das injustiças e desigualdades sociais, implementadas no Brasil nas últimas décadas. Porém, perguntamos: qual o sentido das políticas de inclusão das minorias nas universidades se for para matá-las, conformando-as e tornando-as reprodutoras do conhecimento hegemônico? Pense no seguinte exemplo fictício: uma jovem mulher negra, periférica, mãe solo de duas crianças novas, sendo uma diagnosticada com autismo/TEA, nível 3 de suporte, depois de anos de graduada, entra no mestrado de uma universidade federal e é designada para ser orientada por um homem branco, heterocis, egresso de uma das universidades públicas mais aclamadas do país. No processo de orientação ele exige dela a leitura acelerada de sociólogo francês canônico, como base para sua pesquisa. A pesquisa: a condição de mães negras periféricas como estudantes nas universidades, no Brasil, hoje. A orientação é a de que ela encaixe sua pesquisa na perspectiva do sociólogo, o que não couber, fica fora. A orientação é a de que ela entregue o primeiro capítulo em duas semanas. A orientação é a de que ela seja como ele.

O epistemicídio vem sendo largamente estudado, atualmente, no Brasil, a partir das contribuições de pensadores brasileiros como Nêgo Bispo, Cida Bento, Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez, entre outros, cujo pensamento é importantíssimo para impulsionar o pensar antirracista. No entanto, pouco tem se pensado no epistemicídio que é operado molecularmente, por meio dos modos de ensinar, dos modos impostos de pesquisar: elaborar problemas, escolher caminhos, dos modos de expressão: exigência ao modelito padrão “escrita acadêmica”, das referências bibliográficas oferecidas, restritas ao universo “Homem” europeu. Uma verdadeira máquina de moer corpos minoritários e seus universos e jogar essa massa na fôrma padrão do suposto conhecimento universal. “Nós somos os diversais [...] Não somos humanistas, os humanistas são as pessoas que transformam a natureza em dinheiro [...] Todos somos cosmos, menos os humanos. Eu não sou humano, sou quilombola. [...] sou um ente do cosmos (Nêgo Bispo, 2023, p.29). Em conformidade com esta concepção de seres humanos, está aquela de corpo, para Spinoza, na qual, ao contrário de Descartes, ele considera que o corpo é constituído por tudo aquilo que o afeta, não distinguindo-o substancialmente da mente, afirmando, fique nítido, que ambos, corpo e mente são feitos da mesma substância, que é a mesma também de todos os outros corpos existentes, o que se chama Natureza, que é Deus (ideia esta que valeu seu banimento completo da comunidade judaica, tendo sofrido o herem, equivalente à excomunhão católica).

Se estamos verdadeiramente de acordo que haja democratização do conhecimento e minimização das injustiças e desigualdades sociais, se nos colocamos neste mundo como antirracistas, nosso empenho, hoje, pensamos, precisa ser em criar metodologias ex-tranhas que propiciem a entrada do fora na construção de conhecimento nas universidades públicas, nos territórios onde se esteja operando a colonialidade nesse fazer. Inventar maneiras concretas para que corpos negros, indígenas, femininos, LGBT+, trans, gordos, crip, todos os subalternizados, todo tipo de dissidência ao modelo do Homem Moderno possam criar conhecimento como si mesmos. Não estamos aqui fazendo apologia de um suposto “vale qualquer coisa”, é condição imprescindível que se mantenha o rigor conceitual. Trata-se, acreditamos, de nos empenharmos pragmaticamente, de forma concreta, pedaço por pedaço, em montar e experimentar metodologias dissidentes, metodologias próprias, relativas às minorias, a cada uma delas, que sejam científicas, sempre, filosóficas, sempre. E não há porquê demorar.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.

DO MESMO AUTOR

Ensino não-formal de filosofias

Renata Lima Aspis

Prof. (UFMG) e GT Filosofar e Ensinar a Filosofar

18/10/2021 • Coluna ANPOF