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Prof. Dr. Waldomiro J. Silva Filho

UFBA, CNPq

05/05/2021 • Coluna ANPOF

Na sua última entrevista, Clarice Lispector afirmou que, na sua obra, seu texto favorito, ao lado de “O ovo e a galinha”, era “Mineirinho”, de cinco arrebatadoras páginas, publicado na década de 1960. Clarice já declarara que não era refém de estilos e não é de se estranhar que “Mineirinho” ronde o terreno impreciso do conto, da crônica, da meditação, do ensaio. O “motivo” desse texto único, belo e aterrador foi um fato amplamente noticiado na imprensa carioca: no dia 1º de maio de 1962, Dia do Trabalho, os jornais estampavam a morte do assaltante fugitivo José Miranda Rosa, conhecido como Mineirinho, sentenciado a mais de cem anos de prisão por vários crimes, inclusive assassinatos.

Na entrevista, concedida à TV Cultura em 1977, ano da sua morte, Clarice disse, lânguida, que “um tiro” bastava para matar Mineirinho. Os outros disparos, até o décimo terceiro, um a um, vão revelando o insondável das nossas almas. O último tiro a atingiu; atingiu Clarice e a todos. Elis Regina cantou esse fuzilamento humano em “Onze fitas” e também João Bosco e Aldir Blanc mostram a indiferença diante da violência no clássico “De frente pro crime”.

A narradora de “Mineirinho” não pode esconder sua divisão, afinal Mineirinho era um facínora perigoso, assassino confesso e condenado e aquela morte traria alguma sensação de segurança e justiça. Por que lhe doeria “a morte de um facínora”? Por que lhe interessaria “contar os treze tiros que mataram Mineirinho” e não os “seus crimes”?

Clarice escreve: “... há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina – porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.”

A sequência do fuzilamento de Mineirinho desvela um crime ainda mais brutal do que cada um dos que ele cometera, pois “na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo seu crime particular (...). Na hora de matar um criminoso, nesse instante está sendo morto um inocente.” Mas esse crime particular do justiceiro parecia estar protegido por nossas asas angelicais, nossos medos legítimos: o horror estava lá fora e nos cercou, o facínora ia nos ferir ou algo ainda pior, rir de nossos medos. Aqueles que puxaram o gatilho eram cinco, eram mil, eram milhões, éramos todos nós. E nos havíamos perdoado liminarmente.

Afinal, nunca fomos tão maus quanto Mineirinho...

A adesão voluntária ao horror e à violência sempre foi algo vergonhoso, um segredo guardado a sete chaves, um tabu familiar. Aquele que a praticava era como alguém amaldiçoado, um leproso que carregava suas chagas sobre andrajos. A paixão doentia pelos jogos de tortura e morte, o prazer macabro de ouvir o som surdo do corpo que cai depois de levar um tiro sempre foram reprimidos como uma depravação que não podia nem mesmo frequentar os confessionários. E para quem não conseguia conter sua perversão e carregava consigo um odor putrefato que exalava dos seus poros e orifícios, havia o recurso de longos banhos com perfumes finos para disfarçar.

Mas então surgiu ele. Sim, esse homem que vocês já se acostumaram. Ele mesmo.

Ele convoca os monstros que habitam no peito dos pais zelosos, na mente de moças de boa estirpe e senhoras que sempre estiveram abraçadas aos bons modos e à palavra sagrada. Ele os convoca e todos aparecem, primeiro tímidos, depois eufóricos. Ele começa tocando em uma ferida inflamada, sensível e dolorosa: o medo que se espraia pelos corredores e becos, que se arrasta sob as portas, pelas frestas, nos momentos em que estamos distraídos. E ele diz que o horror está lá fora e que se aproxima. Ele também acaricia uma zona erógena e faz fremir as carnes do pervertido, chacoalha as fantasias intocadas e recalcadas do homem de bem.

O décimo terceiro tiro também me atinge o peito, a mente, a alma. Caídos estavam Mineirinho e Clarice. E eu tombo sobre seus corpos.

 

DO MESMO AUTOR

Atoleiro Epistêmico

Prof. Dr. Waldomiro J. Silva Filho

UFBA, CNPq

02/02/2021 • Coluna ANPOF