Dia do Filósofo, eu: filósofa.
Jéssica de Farias Mesquita
Doutoranda (Filosofia/UFRGS)
26/08/2026 • Coluna ANPOF
É estranha a sensação que tenho em escrever sobre esse dia. Hoje passei o dia em casa, sozinha, refletindo sobre esses quase 20 anos que me pus a estudar Filosofia. Sem dúvida, estudar Filosofia não é o mesmo que ser filósofo ou, como no meu caso, filósofa. Ser filósofa talvez seja carregar a inconveniente incapacidade de aceitar as coisas simplesmente porque elas são assim. Independente do nível de aprofundamento, ingressei nessa jornada que me proporcionou o contato direto com as mais variadas mentes que percorreram a história desde a Antiguidade até o mundo contemporâneo. Ao estudar filosofia, passei por bons momentos e também por maus bocados. Eu me encontrei e me perdi na mesma proporção. Até agora não me vejo nem perto de chegar em uma verdade que me satisfaça absolutamente. Navegar na filosofia é enfrentar o mundo de olhos fechados e aceitar que a iluminada razão vem permeada por uma inexplicável escuridão. É analisar várias perspectivas diferentes sobre a realidade, sobre Deus e sobre o homem e, no fim das contas, você se vê abraçado por uma crise existencial que te obriga a andar com as próprias pernas no mundo abandonado do logos. E no meio das exigências mundanas, vejo-me perdida em pensamentos como uma escolha de vida, ao mesmo tempo que o próprio mundo atual rechaça esse modo de pensar que outrora foi tão caro à ciência. Em todas as épocas temos priorizado um tipo de pensar sobre o mundo, e me preocupa saber que especificamente a nossa época se distancia da época do esclarecimento kantiano. A dialética entre realidade e aparência deu lugar apenas a uma aparência no sentido verbal de aparecer aos olhos dos outros e não mais de existir com significado. A era tecnológica e das mídias digitais, embora tenha revolucionado a comunicação, perdeu a qualidade na informação por ter dado primazia aquilo que os olhos vêem, ou aquilo que causa impacto emocional. Diariamente nos deparamos com notícias sobre subcelebridades que nada têm a contribuir com a sociedade ou com alguns influencers completamente inúteis, mas são estes que produzem “conteúdos” e acumulam milhares de seguidores. A lógica da visibilidade passou a competir com a lógica da verdade, e aquilo que aparece aos olhos de todos parece ter adquirido mais importância do que aquilo que, de fato, merece ser visto. Umberto Eco, infelizmente, tinha razão quando disse que a “internet deu voz a uma legião de imbecis”. Infelizmente para nós, para o nosso mundo, para a nossa geração essa é a verdade que se faz presente. Enquanto somos bombardeados por inutilidades, o mundo vive uma catástrofe climática sem precedentes e quase ninguém em rodas de conversas fala sobre o assunto. Enchentes e estiagem no Brasil, terremotos em várias partes do mundo, seca na Europa seguido por vários episódios de incêndios florestais e ameaça de tsunami. O El Niño está dando seus primeiros sinais com alguns tornados no sul do Brasil, mas o mais importante é abrir a rede social para descobrir qual celebridade terminou o relacionamento, quem lançou um novo produto ou qual influenciador resolveu transformar a própria vida em espetáculo, enquanto pouco importa se o preço da comida vai subir nos próximos meses. A nossa primorosa razão deveria receber mais atenção, mas está perdendo espaço neste mundo bonito e tão ridiculamente controverso. Agora eu me pergunto: o que eu faço hoje com a minha vã Filosofia? Não gostaria que anos de estudos fossem pelo ralo com a total desvalorização do processo de reflexão sobre a realidade. Contudo, a realidade é diferente para cada indivíduo e não só a verdade foi relativizada, mas o modo como enxergamos cada detalhe do mundo. O mundo grita, agita, pede socorro e insistimos em ignorá-lo. Nem podemos afirmar, por razões óbvias, que ignoramos pela falta de informação, e sim pelo desinteresse e apatia acerca daquilo que realmente importa, que realmente nos traz benefícios e malefícios que é o processo de vida. Talvez minha Filosofia seja mesmo vã. Vã porque não detém as guerras, não interrompe as queimadas, não silencia os algoritmos, não impede as enchentes e não convence ninguém a abandonar a superficialidade. Mas talvez sua grandeza esteja justamente em não se calar diante disso. Ser filósofa é um desafio diário de tentar ultrapassar as dificuldades de pensar em um mundo que parece cada vez menos disposto a pensar, de questionar aquilo que se apresenta como evidente e de não aceitar como verdade aquilo que apenas aparece diante dos nossos olhos. Talvez seja essa a maior contribuição da Filosofia: manter acesa a inquietação quando todos parecem apagados e cegos diante de tantas aparências que se apresentam como verdades.