Em busca da voz perdida

Manoel Pereira Lima Junior

Doutorando em filosofia pela UFBA. Professor da rede pública do estado da Bahia

08/06/2021 • Coluna ANPOF

“Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde desde então corre o infinito...

Onde estás, Senhor Deus?..”

Castro Alves
 

Há milênios que um grito mudo paira no infinito. Em vão. Deus não responde. Um Deus que parece não escutar (ou não se importar) com as vozes daqueles que lhe suplicam. Deus está mudo em seu silêncio sacro. Se Deus não responde, será que as mulheres e homens prestarão atenção no que dizem “esses desgraçados”? Nós, “os humilhados da terra”, somos as vozes perdidas (do Saara ao semiárido do sertão nordestino, de Madras aos povos da floresta, dos bolivianos explorados em São Paulo aos sírios de Alepo ou dos palestinos de Gaza). O tempo presente está marcado pela tarefa de resgatar, restaurar, fazer-se ouvir as vozes daquelas pessoas que foram, por séculos, silenciadas. É tempo de encontrarmos a nossa voz perdida.

Em certa medida, sinto-me como Descartes: tudo que me foi ensinado até agora, parece-me falso. É preciso calar as vozes que falam em mim, mas não são minhas. Quase nada do que elas falam, fazem-me sentir quem eu sou – e o que sou? Com certeza, não sou somente uma “coisa pensante”. Sou mais do que isso. O grito que ecoa desde o infinito chega a mim toda vez que tentam me fazer crer que o que sinto, penso e falo é desprovido de valor epistêmico. Toda vez que, epistemicamente, sou marginalizado nos diversos grupos. Esse grito me chamou e me colocou em contato com os saberes ancestrais dos meus. Agora, o que penso passou a fazer sentido para mim mesmo. O que eu sempre ouvia na canção de Bob Marley ganhou novas cores: “Emancipate yourselves from mental slavery”.

Estou em um “aprendizado de desaprender”, um processo de emancipação da escravidão mental. Há quanto tempo frequento ambientes educacionais e há quanto tempo me foi negado o direito de conhecer pensadoras e pensadores Negros? Há quanto tempo impuseram-me uma linguagem e modo de pensar, de ler e de escrever que me é estranho, estrangeiro e não dizem nada sobre quem sou? Isso é uma cultura de silenciamento. É uma “monocultura”.

Em Memórias da Plantação, Grada Kilomba rastreia os efeitos psicológicos e emocionais dos silenciamentos e da perda da própria voz. Nas plantações de cana-de-açúcar e de cacau na Bahia, por exemplo, máscaras eram colocadas em pessoas escravizadas. Isso tinha duas finalidades, segundo Kilomba: a) impedir que as pessoas escravizadas comessem os frutos da plantação; b) impedir que as pessoas escravizadas falassem. Mas isso não ocorria somente na Bahia. Era uma estratégia dos colonizadores. O silenciamento é uma tática política. A problematização de Kilomba gira em torna da questão de “quem pode falar”, “quem tem direito à voz”. Não é à toa que os beneficiários do contrato sócio-racial (Charles W. Mills) têm, até hoje, o mal hábito de perguntar: “Você sabe com quem está falando?”. É claro, tem muitas maneiras de deixar “claro” quem pode falar. Ela não precisa está explícita. Por vezes, ela vem em forma de elipse (sou Dr. ou Dra tal e tal, “bairro nobre”, “zona nobre”, os argumentos de autoridade e seus marcadores de credibilidade que devem calar o outro).

Obviamente, o problema não é ser “doutora” ou “doutor” em algo, mas sim as identidades que atravessam as subjetividades dos doutos. Falando de modo direto: quanto pesa uma doutora ou um doutor de África ou da diáspora na balança epistêmica? Não me responda que pesa o mesmo que uma doutora ou doutor branco. Façamos um teste: Quais são as cientistas negras e os cientistas negros que você conhece? E quais são as filósofas negras e filósofos negros que você conhece com propriedade as ideias? Quantas dessas pessoas estão nas suas referências bibliográficas? Começou a cair o véu de Maia, não é? Ah, sim, tem as pensadoras negras e pensadores negros que você leu porque foi chancelado por doutoras e doutores brancos. Quer dizer, elas e eles precisam de recomendação. Esse não é um problema teórico e, sim, uma questão prática. As vozes de pensadoras negras e de pensadores negros (e indígenas) só são escutadas (lidas) quando intelectuais brancos autorizam. Isso tem nome: racismo epistêmico.

Impor a todo um povo outra língua, ou outro vocabulário que não diz nada a respeito dele é impedir que se imagine outra realidade, é impedir que tal povo se pense a partir de si mesmo, que dê expressão às suas vivências, que nomei seus sentimentos, é corromper suas experiências religiosas e artísticas, é não reconhecer sua capacidade de produzir conhecimento. Em suma, é negar-lhe a humanidade. Só se reconhece como conhecimento legítimo o que pode ser dito na língua do colonizador. E por que reproduzimos esse modelo de escravidão mental por tanto tempo? Porque há um medo nos intelectuais de se descobrirem cúmplices nisso tudo. Para evitar a culpa e a vergonha pelo racismo epistêmico, fingem que isso não existe. Admitir o racismo epistêmico força uma mudança prática na vida intelectual: dar voz e vez a intelectuais de África e da diáspora negra. Não porque essas pessoas sejam negras, mas porque elas são competentes.

Ler intelectuais negros e inclui-los nas bibliografias pode espelhar o racismo nosso de cada dia na face de quem os lê. Evitar as vozes (textos) de pessoas negras é uma forma de não reconhecer a projeção branca sobre pessoas negras. É preciso, então, mantê-los calados, sem voz, para que “verdades inconvenientes” não emerjam à consciência. Quantos brancos ditos não-racistas podem se descobrir racistas epistêmicos, uma vez que só leem e só escutam pessoas brancas? A negação do racismo epistêmico, nesse caso, funciona como mecanismo de proteção. Assim, pessoas brancas podem viver sem culpa por uma realidade produzida imaginativamente, onde o doente é o outro, que é alvo da “objetificação”. Aqui também não há do que se envergonhar, nem porque ser responsável, já que não há o reconhecimento do estado de coisas em questão.

Como afirma Grada Kilomba, conceitos como conhecimento, erudição e ciência “estão intrinsecamente ligados ao poder e à autoridade racial”. (pg. 50). Quando se fala desses termos mencionados acima é preciso ainda perguntar: quais conhecimentos têm feito parte da agenda acadêmicas e quais não?; conhecimento de quem?; quem é reconhecido como portador de conhecimento e quem não é? Em função disso tudo, é preciso levantar a nossa voz. É preciso recuperar esse eco infinito, que ressoa desde nossos ancestrais. É preciso dizer mais uma vez que os espaços acadêmicos não são neutros e que são espaços brancos onde o privilégio de fala tem sido negado para as pessoas negras (p. 50). Por assim dizer, é preciso inventar uma nova gramática (e isso já está em curso) capaz de suprimir as injustiças epistêmicas sofridas por pessoas não-brancas. Uma gramática capaz de suprir as lacunas hermenêuticas que esvaziam as experiências de pessoas não-brancas. Só assim poderemos imaginar outro futuro diferente do que está aí, outra realidade na qual eu possa “perder de vez tua cabeça” e “minha cabeça perder teu juízo”. Afasta de mim esse cale-se.

 

Referência

KILOMBA, G. Memórias da Plantação –Episódios de racismo cotidiano. Lisboa: Cobogó, 2019.