Especial 8M - Filósofas que pesquisam Wittgenstein

Janyne Sattler

Profa. UFSC; integrante do GT Filosofia e Gênero e do Projeto Uma Filósofa Por Mês; Presidente da Anpof 2025-2026

Mirian Donat

Professora adjunta da Universidade Estadual de Londrina

28/03/2025 • Coluna ANPOF

Sou uma pesquisadora da filosofia de Ludwig Wittgenstein há mais tempo do que sou uma pesquisadora da filosofia feminista, mas foi a filosofia feminista e o aporte dos conceitos feministas de análise que me permitiram identificar de modo mais pungente as ausências das companheiras filósofas nos encontros e grupos de trabalho dedicados ao filósofo austríaco e a questionar, a partir daí, os motivos dessa refração e a continuidade deste insulamento. Muitas vezes, eu era a única estudante, e depois pesquisadora, presente em um evento. Outras vezes, éramos eu e uma companheira, apenas. Meus outros interesses de pesquisa me fizeram deixar de frequentar o GT Wittgenstein da Anpof, mas eu já sentia antes disso os desconfortos de um fazer filosófico autocentrado e individualista e, de algum modo meramente exegético e, a meu ver, improfícuo. Então não senti como um custo alto a minha saída do grupo de trabalho. Claro, estes desconfortos não eram compartilhados com ninguém, também porque os demais presentes pareciam sempre muito confortáveis no ambiente de seus pares masculinos e de suas pesquisas especialíssimas, o que me levava a pensar que o problema era “eu”. Algumas vezes me perguntei se estava mesmo no lugar certo, ou se eu deveria estar ali, com minhas próprias pesquisas exegético-práticas acerca do Tractatus logico-philosophicus, mas insegura sobre meu lugar de “especialista”. Isso não me soava muito bem diante de minhas dúvidas sobre essa filosofia. Como eu não falava sobre isso com ninguém próximo ao círculo wittgensteiniano, foi apenas recentemente que reconheci a partilha do incômodo entre nós, as filósofas que pesquisam Wittgenstein. No meu caso, aquilo que chamo de “desvio qualificado” pelas epistemologias e teorias feministas, tem me dado a oportunidade de pensar a filosofia wittgensteiniana de modo muito mais autônomo e autoritativo, e seguro. Creio que Mirian Donat tenha uma história própria a contar nesse sentido.

Não sou uma pesquisadora que tem como foco especificamente questões relativas à filosofia feminista. Meu objeto de pesquisa tem sido, pelo menos desde meu doutoramento, a filosofia madura de Wittgenstein e seus desdobramentos. No entanto, é inevitável perceber o número reduzido de mulheres que pesquisam esse autor, o que fica claro tanto nos eventos quanto nas publicações relativas ao filósofo. Nos últimos anos foram publicados vários dossiês e coletâneas relativos aos 100 anos de publicação do Tractatus logico-philosophicus e também dos 70 anos de publicação das Investigações Filosóficas. Entretanto, se passamos os olhos nos sumários dessas obras, vemos imediatamente como são poucas as pesquisadoras que aparecem ali. Em relação aos eventos, essa percepção ficou ainda mais evidente na última edição da Anpof, em 2024, em que apenas eu e outra pesquisadora estávamos presentes. Além disso, meu próprio grupo de pesquisa na Universidade Estadual de Londrina sempre contou com um número muito maior de alunos do que alunas participantes. Tudo isso me faz pensar sobre quais seriam as causas dessa reduzida participação de mulheres nesse contexto. Seria algo relativo ao número também reduzido de mulheres nos cursos de Filosofia, em especial na pós-graduação? Ou seria algo relativo aos próprios eventos e publicações sobre a obra de Wittgenstein que provocam um afastamento das mulheres? Ou seria ainda a própria obra de Wittgenstein que não atrai as mulheres para que seja objeto de suas pesquisas? Ao compartilhar tais questões com a Janyne Sattler percebi que não eram apenas parte de uma percepção isolada minha, mas que também traz um incômodo para outras pesquisadoras e isso me fez pensar que juntas talvez possamos encontrar respostas para essas questões.

Diante dessas percepções, estamos pensando juntas algumas atividades que nos ajudem tanto a nos conhecermos e a nos encontrarmos quanto refletirmos conjuntamente sobre estes incômodos. Mas não apenas isso, claro, senão conversarmos sobre nossas pesquisas e sobre como a filosofia wittgensteiniana corrobora nossas posturas filosóficas e nossas compreensões teóricas em seus variados aspectos. Nos importa também insistir na afirmação de que nossas atividades de pesquisa e trabalho, como filósofas cientes dos vieses de gênero presentes na academia, não encontra sua plataforma de excelência e realização no entorno apenas das temáticas de gênero e de filosofia feminista. Esperamos que os espaços tornados mais democráticos com as discussões em torno do cânone filosófico, em torno da presença das mulheres na filosofia, e em torno da própria abertura da filosofia a atividades filosóficas diversas, também nos encoraje a desenvolver nossas pesquisas a partir do ferramental teórico que aprendemos com os filósofos que nos interessou e ainda nos interessa estudar criticamente. Esse é o nosso caso desde a filosofia wittgensteiniana.

Convidamos as filósofas pesquisadoras da filosofia de Wittgenstein para somarem conosco nesta empreitada. A nossa primeira atividade será realizada entre 07 e 09 de outubro de 2025, com o V Encontro Wittgenstein da UEL. Fique atenta às chamadas que em breve divulgaremos, prepare seu texto e entre em contato conosco.