Especial 8M - Nísia Floresta não traduziu Mary Wollstonecraft

Gisele Secco

Doutora em filosofia pela PUC-Rio; integrante da Cátedra UNESCO para a História das Mulheres na Filosofia, Ciências e Cultura

23/03/2026 • Coluna ANPOF

Em parceria com GT Mulheres na História da Filosofia da Anpof

Nascida Dionísia Gonçalves Pinto no interior do Rio Grande do Norte em 1810, Nísia Floresta Brasileira Augusta (seu mais completo nom de plume) faleceu no interior da França em 1885. Seus restos mortais foram trazidos ao Brasil em 1954 e hoje se encontram num mausoléu na cidade onde nasceu, rebatizada em 1948 como Nísia Floresta. Viveu uma vida itinerante e repleta das vicissitudes típicas das trajetórias de mulheres que trabalham intensa e autonomamente pela denúncia e pela emancipação das condições opressoras às quais são submetidas: um casamento precoce do qual se livrou por volta dos 14 anos; a fuga dos perigos de duas revoluções (a Praieira e a Farroupilha); a inauguração de um colégio para meninas; o acossamento a ela dirigido por vozes misóginas de seu tempo (o Colégio Augusto ousava ensinar até matemática!); o exílio autoimposto; a aproximação de Auguste Comte; a publicação de cerca de vinte obras (em português, francês, italiano e inglês). Ainda que breve, esta enumeração justifica o título de “mulher à frente de seu tempo”. No que se segue, quero endereçar uma vicissitude típica das recuperações histórico-filosóficas do legado de mulheres: a persistência de equívocos já solucionados.  

É que na ocasião do mês da mulher, quando se intensifica a divulgação de trabalhos de e sobre mulheres filósofas, aparecem sinais esperançosos de continuidade dos movimentos de resgate dos aspectos filosóficos da obra de Floresta. Exemplares de tais movimentos são os trabalhos de Margutti (2019) e Pugliese (2023). De minha parte – a de alguém que trabalha com ensino e história da filosofia e da lógica em chave de gênero –, quero dar continuidade aos movimentos de resgate abordando um tópico que permanece confuso entre nós. Refiro-me à afirmação, ainda recorrente, de que a primeira publicação de Nísia Floresta, Direitos das mulheres e injustiças dos homens (1832) é uma tradução livre de Vindication of the rights of women [Reivindicação dos direitos da mulher], publicado em 1790 por Mary Wollstonecraft (1759-1797). Minha contribuição não é original, mas é movida pelo desejo de ver desmistificada a ideia de que Floresta é a “Wollstonecraft brasileira”, trazendo alguma justiça histórica aos estudos florestinos. Estas breves notas são registros parciais de estudos colaborativos com Nastassja Pugliese desde 2018, do diálogo com Monalisa Carrilho, e se baseiam na leitura da bibliografia relevante[1] e em consultas documentais na Biblioteca Nacional da França.

A confusão possui causas, razões e motivos. Comecemos pela dimensão causal: uma sequência de equivocadas atribuições de autoria, originada em 1739 com a publicação, em Londres, de um panfleto intitulado Woman Not Inferior to Man: Or, a Short and Modest Vindication of the Natural Right of the Fair-Sex [Mulher Não Inferior a Homem: Ou, uma Breve e Modesta Vindicação do Direito Natural do Sexo Frágil], por uma anônima Sophia. Este panfleto foi traduzido para o francês como Les Droits des femmes et L’injustice des hommes. A capa do livreto[2] – aqui começa a confusão – informa que ele foi escrito par Mistriss Godwin [pela Senhora Godwin] e que foi Traduit librement de l’anglais sur la 8e édition [traduzido livremente da oitava edição em inglês]. A versão francesa possui um apólogo intitulado L’instruction sert aux femmes à trouver des maris [A instrução serve às mulheres para que encontrem maridos], escrito por César Gardeton, o editor. Ao publicar Direitos das mulheres e injustiças dos homens, Floresta reproduz, na capa (da edição de 1933, ao menos), o que constava na capa da edição que traduzira: que o livro havia sido escrito por Mistriss [sic] Godwin, o nome de casada de Mary Wollstonecraft. Como nota Pugliese (2023, p. 9), não sabemos por que Gardeton mudou o título do livro, ou por que o atribuiu a Wollstonecraft, com seu nome de casada. Aqui, o que importa é notar que as razões da confusão só começaram a ser aventadas em 1989, quando Constância Lima Duarte notou que Direitos não era uma tradução de Reivindicação. A sequência da solução do enigma sobre a autoria e a origem do texto traduzido por Floresta foi em 1996, quando Maria Lúcia Pallares-Burke publicou sua descoberta de que se tratava de uma tradução literal de Woman Not Inferior to Man.[3] Foi somente em 2014, entretanto, que Botting e Mathews encontraram, na Biblioteca Nacional da França, o texto fonte da tradução de Floresta – a versão francesa do primeiro dos panfletos de Sophia publicada por Gardeton.[4] Esta descoberta pôs, portanto, fim à série causal da confusão.

Quanto às razões do rebu, vejo somente uma, tão simples como um silogismo de primeiros modo e figura: não tendo razões para duvidar do editor francês, Floresta confiou nas informações por ele fornecidas (o título e a autoria da obra). Logo, ela não se equivocou em atribuir o texto à Senhora Godwin. Nem se equivocou quem, sabendo que “Godwin” era o sobrenome de casada de Wollstonecraft, julgou que Floresta traduziu Wollstonecraft. O equívoco originário foi de Gardeton. Agora, que se tenha começado a duvidar dessas informações mais de 150 anos depois da publicação de Direitos – o primeiro texto feminista publicado no Brasil – mostra o cuidado com o legado de Floresta entre nós. Com a intensificação dos movimentos de resgate que mencionei antes, todavia, talvez pudéssemos esperar que tais descuidos fossem menos frequentes.

No que concerne aos motivos da confusão, eles implicam as disposições e as atitudes intelectuais das pessoas envolvidas na preservação, na pesquisa sobre e na transmissão do legado de Floresta. Disposições e atitudes intelectuais, conquanto pessoais, subjetivas como as respostas que engendramos quando, por exemplo, encaramos nossos erros e insuficiências, se concretizam em contextos sociais permeados por dispositivos de poder (como gênero e racialidade, lembrando Carneiro 2023). Poderíamos dizer que os historiadores da literatura, da pedagogia e da filosofia brasileiras estiveram, individual e coletivamente, por mais de 150 anos, indispostos ou indiferentes ao trabalho inaugural de Floresta? Seja como for, a mitologia da “Wollstonecraft brasileira” ainda se perpetua em trabalhos, acadêmicos e de divulgação, sobre nossa primeira filósofa feminista – a despeito de ter sido esclarecida há mais de uma década por brasileiras (Duarte em 1989, Pallares-Burke em 1996) e estrangeiras (Botting e Mathews em 2014), e divulgado por ao menos dois historiadores brasileiros da filosofia em anos mais recentes (Margutti em 2017 e 2019, Pugliese em 2023). A perpetuação do mito, a meu ver, sugere disposições a atitudes intelectuais de descuido.

O trabalho de resgate de mulheres filósofas, e a consequente restauração da história da filosofia em chaves de diversidade e inclusão, como as de gênero, raça, etnia e classe, não pode prescindir de uma atitude de cuidado com evidências históricas. A pesquisa com fontes, tais como manuscritos (digitalizados ou não), a busca por trabalhos perdidos e a organização e divulgação das pesquisas em curso[5] – para que sejam traduzidas, ensinadas e, assim, mais estudadas – é uma condição necessária para o avanço da agenda de expansão do cânone. Que isso tudo se conecte à necessidade de atenção cuidadosa ao que fazemos, incluída a atenção às nossas mais pessoais atitudes frente às vicissitudes do caminho de pesquisa em história da filosofia, parece ser uma aprendizagem que temos de estar dispostos a sempre refazer, como o pão de cada dia.


Referências

BOTTING, E.H. & MATTHEWS, C.H. (2014) Overthrowing the Floresta–Wollstonecraft Myth for Latin American Feminism. Gender & History, 26 (1), 64–83.

CARNEIRO, S. (2023). Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser. Rio de Janeiro: Zahar.

COELHO, C.A. (2019). Direitos das mulheres e injustiças dos homens: a tradução utópico feminista de Nísia Floresta. Dissertação de mestrado. Orientadora: Maria Silvia Cintra Martins. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

DUARTE, C.L. (1989) Introdução. In: Nísia Floresta Brasileira Augusta. Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens. São Paulo: Cortez Editora.

LEDUC, (2010). Réécritures anglaises au XVIIIe siècle de“l’Égalité des deux sexes” (1673) de François Poulain de la Barre : Du politique au polemique. Paris: L’Harmattan.

MARGUTTI, P. (2017) Nísia Floresta e a questão da autoria de Direitos das mulheres e injustiça dos homens. Annales, 2 (3), 5-28.

MARGUTTI, P. (2019) Nísia Floresta, uma Brasileira desconhecida - feminismo, positivismo e outras tendências. Editora Fi.

PALLARES-BURKE, M.L. (1996) A Mary Wollstonecraft que o Brasil conheceu, ou a travessura literária de Nísia Floresta. In: Nísia Floresta. O carapuceiro e outros ensaios da tradução cultural. São Paulo: Hucitec, pp. 167-92.

PONTES, Y. A. L. (2023) Direitos das mulheres e injustiça dos homens: uma análise da tradução e contexto histórico na obra de Nísia Floresta. Dissertação de mestrado. Orientadora: Nastassja Pugliese. Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

PROJECT VOX TEAM (2025) “Nísia Floresta Brasileira Augusta.” Project Vox. Duke University Libraries. https://projectvox.org/floresta-1810-1885/.

PUGLIESE, N. (2023) Nísia Floresta. Cambridge: Cambridge University Press.

SOARES, E. (2017) Copie assumée, copie dissumulée: Les racines controversées de Diretos das mulheres e injustiça dos homens de Nísia Floresta. Memoire de master, Université Toulouse Jean Jaurès.

SOPHIA (1739) Woman Not Inferior to Man or, a Short and Modest Vindication of the Natural Right of the Fair-Sex to a Perfect Equality of Power, Dignity, and Esteem, with Men. London: John Hawkings.

WOLLSTONECRAFT, M. (2016) Reivindicação do direito das mulheres. Tradução de I. Pocinho Motta. São Paulo: Boitempo.


Notas

[1] Relevante ao tópico em questão, da qual destaco – além das já mencionadas – Duarte 1989; Pallares-Burke 1996; Leduc 2010; Botting & Mathews 2014; Soares 2017, Margutti 2017, Coelho 2019, Pontes 2023.

[2] Disponível no site do Projeto Vox https://projectvox.org/nf018a/

[3] O estudo de Soares (2017) mostra detalhadamente as poucas adaptações vocabulares que Floresta realizou com relação ao texto francês.

[4] Para uma visão de conjunto das versões do panfleto, ver Coelho 2019. Para uma comparação dos vocabulários de Sophia, Gardeton e Floresta, ver Pontes 2023.

[5] Para o caso de Nísia Floresta, ver o material produzido pela equipe da Cátedra UNESCO para a História das Mulheres na Filosofia Ciências e Cultura para o Projeto Vox https://projectvox.org/floresta-1810-1885/


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DO MESMO AUTOR

Carta-resposta a Luís Fernando Crespo

Gisele Secco

Doutora em filosofia pela PUC-Rio; integrante da Cátedra UNESCO para a História das Mulheres na Filosofia, Ciências e Cultura

17/05/2023 • Coluna ANPOF