Especial 8M - María Zambrano: exílio, gênero e insurgências

Solange Aparecida de Campos Costa

Professora de Filosofia (UESPI)

10/03/2025 • Coluna ANPOF

GT Raça, Gênero e Classe da Anpof

María Zambrano (1904-1991) foi uma das mais importantes filósofas espanholas do século XX. Sua obra se destaca pela originalidade e pela busca de um pensamento que conciliasse razão e imaginação, filosofia e poesia. Ao longo de sua vida, Zambrano desenvolveu uma filosofia fortemente influenciada pelo pensamento de Miguel de Unamuno, José Ortega y Gasset e Xavier Zubiri, mas que encontrou sua própria expressividade ao propor a chamada "razão poética". Através desse conceito, Zambrano rompe com a visão tradicional da filosofia ocidental, abrindo espaço para uma forma de conhecimento que não se limita à racionalidade estrita e ao método.

Nascida em Vélez-Málaga, na Andaluzia, María Zambrano cresceu em um ambiente intelectual e progressista. Seu pai, Blas Zambrano, era professor e pedagogo, o que influenciou diretamente sua formação. Estudou Filosofia na Universidade Central de Madri (atual Universidade Complutense), onde foi aluna de Ortega y Gasset. A aproximação com seu mestre fez com que sua obra inicial dialogasse intensamente com a filosofia da razão vital e histórica de Ortega.

Nos anos 1930, engajou-se politicamente na defesa da República Espanhola e no combate ao fascismo. Com a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e a vitória de Franco, Zambrano foi forçada ao exílio, dando início a uma longa jornada por diversos países, incluindo França, México, Cuba, Porto Rico e Itália. Durante esse período, sua filosofia se aprofundou, e ela consolidou suas ideias sobre a "razão poética", uma tentativa de superar os limites da filosofia tradicional e abrir espaço para uma forma de pensamento mais fluida, aberta e conectada ao simbólico.

Foi apenas em 1984, já idosa, que Zambrano pôde retornar à Espanha, recebendo diversos reconhecimentos, incluindo o Prêmio Cervantes em 1988. Apesar do reconhecimento tardio, sua influência na filosofia contemporânea é profunda, especialmente nos debates sobre razão, subjetividade e o papel do poético na compreensão do mundo.

O conceito de "razão poética" é central para compreender a originalidade do pensamento de Zambrano. Em oposição ao racionalismo cartesiano e à lógica formal que dominaram a tradição filosófica ocidental, Zambrano propõe uma forma de pensamento que integra razão e sensibilidade. Segundo ela, a filosofia ocidental, desde Platão e Aristóteles, estabeleceu uma cisão entre logos (razão) e mythos (mito), relegando a imaginação, a intuição e a poesia a um segundo plano.

A "razão poética" busca recuperar essa dimensão esquecida da experiência humana, afirmando que o conhecimento não pode ser reduzido a esquemas rígidos e formais, mas deve incluir também a vivência, o mistério e o simbólico. Assim, Zambrano propõe um modelo de pensamento que transita entre a filosofia e a literatura, valorizando o poder revelador da metáfora e da linguagem simbólica.

Ela defende que a "razão poética" permite um conhecimento mais próximo da verdade da vida, pois não impõe sobre a realidade uma estrutura apriorística, mas sim se abre para o fluxo da existência. Esse pensamento é particularmente influenciado pela mística espanhola, especialmente figuras como Santa Teresa d'Ávila e San Juan de la Cruz, que entendiam a experiência do sagrado como algo indizível e, ao mesmo tempo, profundamente real.

Embora Zambrano não tenha se identificado explicitamente como feminista, sua obra contém uma série de reflexões que podem ser lidas à luz da filosofia feminista. Sua ênfase na "razão poética" representa uma crítica à tradição filosófica ocidental, que historicamente excluiu modos de conhecimento associados ao feminino, como a intuição, a experiência subjetiva e a expressão simbólica.

Em seus escritos, Zambrano frequentemente reflete sobre a condição feminina de maneira implícita. Em textos como El hombre y lo divino (1955), ela explora a relação entre a mulher e o sagrado, apontando que as mulheres, na tradição ocidental, foram frequentemente associadas à experiência mística e ao conhecimento intuitivo. Isso ocorre, segundo Zambrano, porque a cultura patriarcal historicamente marginalizou as formas de pensamento que escapam ao racionalismo estrito, atribuindo-as ao universo feminino.

Além disso, em obras como Claros del bosque (1977), a filósofa descreve uma jornada interior que pode ser lida como uma metáfora para a experiência de exclusão e resistência das mulheres dentro do discurso filosófico. Ao se afastar do pensamento linear e sistemático, Zambrano reivindica um espaço para a subjetividade, o que ressoa com as preocupações do feminismo contemporâneo sobre a importância de reconhecer formas plurais de experiência e conhecimento.

Zambrano possui também uma série específica de textos ligados à temática de gênero. Pode-se dizer que desde muito cedo, essas questões surgiram em seus escritos. A primeira série de artigos sobre a mulher é publicada no jornal madrileno El Liberal, na seção "Aire libre", em uma coluna intitulada "Mulheres", a partir de 28 de junho de 1928. Trata-se de uma série de 15 artigos publicados quase semanalmente, abordando assuntos de natureza social. Nestes artigos, Zambrano aborda algumas preocupações do feminismo, como a participação da mulher na vida pública, a exploração da mulher pelo homem, sua condição de objeto, a necessidade da autonomia econômica como primeiro passo - necessário, porém não suficiente - em direção à liberdade das mulheres, a situação das mulheres trabalhadoras e a violência de gênero. Décadas depois, já no exílio, em 1940, Zambrano proferiu uma série de palestras em Havana sobre a situação da mulher na história, palestras que foram compiladas em dois artigos publicados na revista Ultra. Além destes, em diversos outros momentos Zambrano tratará da representação da mulher a partir da abordagem de personagens específicas como: Safo, Eloísa, Sor Mariana Alcoforado, Diótima de Mantinea, Antígona, entre outras.

Outro aspecto fundamental de seu pensamento em relação à questão de gênero é sua valorização do exílio como uma experiência filosófica e existencial. Como mulher e intelectual exilada, Zambrano viveu a exclusão em múltiplos níveis, o que aprofundou sua sensibilidade para com aqueles que se encontram à margem das estruturas de poder. Seu conceito de exílio não é apenas político, mas também ontológico: trata-se de uma condição de deslocamento e não pertencimento que, paradoxalmente, permite uma nova forma de ver e pensar o mundo. Esse conceito pode ser interpretado como uma metáfora para a condição feminina dentro da tradição filosófica, sempre relegada a um espaço periférico e nunca totalmente reconhecida.

A filosofia de Zambrano tem ganhado cada vez mais reconhecimento, especialmente em debates sobre epistemologia, estética e feminismo. Seu esforço em integrar filosofia e literatura inspirou filósofas como Luce Irigaray e Adriana Cavarero, que também problematizaram a exclusão das formas não racionais de conhecimento dentro da tradição filosófica ocidental.

A filosofia de María Zambrano se torna ainda mais relevante na atualidade diante do avanço da extrema-direita e do retorno do fascismo à esfera pública democrática. Seu pensamento sobre exílio, sua resistência e a necessidade de um novo tipo de racionalidade poética e intuitiva oferece uma perspectiva crítica ao pensamento instrumental e dogmático que caracteriza os movimentos autoritários contemporâneos. Zambrano foi uma pensadora insurgente, forte opositora do regime franquista, escreveu diversos textos que defendem a democracia e a liberdade. Zambrano compreendia o fascismo não apenas como um regime político, mas como uma forma de empobrecimento da experiência humana, baseada no controle rígido da linguagem e da subjetividade. Ao defender uma filosofia que valoriza a pluralidade, o simbólico e o indizível, sua obra se opõe radicalmente às tentativas de simplificação do mundo promovidas pelo discurso extremista. A "razão poética" desafia a visão binária e reducionista que sustenta o pensamento fascista, promovendo um espaço de abertura para a complexidade e a ambiguidade da existência.

Dessa forma, o pensamento zambraniano pode ser visto como uma ferramenta filosófica essencial para questionar a ascensão de discursos que apelam à intolerância e à supressão da diversidade. Seu chamado por uma razão que integre imaginação e sensibilidade ressoa como um antídoto contra a brutalidade ideológica que busca regimentar corações e mentes em nome da homogeneidade e do medo.

Além disso, sua crítica à razão instrumental e sua valorização da imaginação e do simbólico têm repercussões importantes em estudos decoloniais e feministas, que buscam desafiar a hegemonia do pensamento eurocêntrico e patriarcal. Seu pensamento abre caminho para uma filosofia que reconhece a importância da subjetividade e da experiência encarnada, questionando as dicotomias rígidas que estruturaram a tradição ocidental.

María Zambrano foi uma pensadora singular, cuja obra desafia os limites entre filosofia e poesia, razão e imaginação. Seu conceito de "razão poética" não apenas amplia a compreensão do conhecimento humano, mas também oferece uma crítica contundente à tradição filosófica que excluiu modos alternativos de pensar e sentir.

Embora seu pensamento não seja explicitamente feminista, suas reflexões sobre subjetividade, exílio e a relação entre o feminino e o sagrado abordam questões fundamentais nos debates sobre gênero e filosofia. Seu legado continua a influenciar novas gerações de filósofas e pensadoras que buscam ressignificar a experiência do pensamento.

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