Filosofar é divertido e eu posso provar

Marcela Tavares

Professora do IFRJ

16/09/2026 • Coluna ANPOF

Especial | VII Encontro Anpof Educação Básica | Minicursos

ENIGMA: Estratégias e Práticas de Jogos Filosóficos para o Ensino Médio

Há uma pergunta que me acompanha desde 2009, quando terminei minha Licenciatura em Filosofia na UFRJ e entrei, quase sem perceber, numa sala de aula de escola particular no Rio de Janeiro: como traduzir, para adolescentes, o amor — e por que não dizer, o tesão — que sinto por certas filosofias e certos autores? Desde então, minha trajetória tem sido feita de idas e vindas: geográficas, institucionais, existenciais. Em 2010 fui aprovada no concurso da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, mas nunca tomei posse: já estava em Ouro Preto, cursando o mestrado na UFOP. No interior de Minas Gerais, em 2014, tentei outro concurso, desta vez simplificado, para lecionar em um pequeno distrito da região — mas não completei a segunda fase, porque já sabia, que voltaria ao Rio para o doutorado. Voltei, de fato, em 2015, e no ano seguinte entrei no doutorado e, ao mesmo tempo, fui aprovada em primeiro lugar no concurso do Instituto Federal do Rio de Janeiro. Desde 2017, sou professora concursada de Filosofia para o ensino básico, técnico e tecnológico. Quase vinte anos depois daquela primeira sala de aula, a pergunta permanece — só que agora ela não é mais só minha.

Ao longo desses anos, o humor sempre foi o instrumento mais à mão: uma ferramenta ágil, quase um reflexo, para aproximar Sócrates, Spinoza ou Simone de Beauvoir da vida cotidiana de um adolescente do ensino médio. Mas há um limite para o que o riso, sozinho, consegue fazer. Nem mesmo a palhaçaria mais bem calibrada conquista, de forma duradoura, o coração — e o pensamento — dessa juventude. Foi diante desse limite que a filosofia, outra vez, ensinou-me algo: que talvez fosse preciso não apenas comunicar um conteúdo, mas construir uma experiência. E poucas experiências são tão radicalmente humanas quanto o jogo.

Em 2025, tornei-me supervisora do PIBID/UFRJ e passei a receber, na escola, licenciandos da mesma universidade que me formou. Já convivi com mais de dez licenciados, até hoje, que acompanharam minhas aulas, produzindo materiais comigo, ministrando conteúdos, elaborando avaliações ao meu lado. Desde então, todo o núcleo de filosofia do programa — coordenado pela Profa. Dra. Nastassja Pugliese, que coordena ainda duas outras escolas públicas de ensino do Rio de Janeiro — vem se dedicando, sobretudo, à criação de jogos: jogos didático-filosóficos que funcionam como quebra-gelo em aulas iniciais, ou mesmo como instrumentos de avaliação de conteúdo. Esses jogos conseguiram algo que meu humor, por mais afiado que fosse, não alcançava sozinho: provocar, por meio da ludicidade e da expansão do repertório filosófico, o pensamento crítico e criativo dos estudantes.

O jogo, longe de ser mera distração, é uma forma de pensamento em ato: ele exige regras, mas também invenção; exige rigor, mas também risco; produz sentido coletivamente, no encontro entre corpos, hipóteses e jogadas. Se a filosofia é, desde sempre, um exercício de pensar junto — um diálogo, uma disputa argumentativa, uma travessia compartilhada —, então o jogo talvez seja uma de suas formas mais fiéis, e não uma traição pedagógica ao "verdadeiro" filosofar.

É essa aposta que trago, junto com três pibidianos — Bernardo, Karen e Tamara —, para o minicurso "ENIGMA: Estratégias e Práticas de Jogos Filosóficos para o Ensino Médio", que acontecerá nos dias 17 e 19 de novembro, das 8h às 10h, na programação da ANPOF voltada ao Ensino Básico. Há algo inédito nessa proposta: conseguimos garantir, neste que é um dos encontros mais importantes da filosofia produzida no Brasil, a presença de graduandos que estão, agora mesmo, produzindo material didático-pedagógico no chão da escola, como parte de seu trabalho como bolsistas no PIBID. Trata-se de reconhecer que a formação docente em filosofia não acontece apenas nos bancos da universidade, mas também — e talvez principalmente — no atrito cotidiano com a sala de aula real. Como não há, historicamente, incentivo institucional para que graduandos participem de eventos como este — como custeio de passagens ou diárias —, organizamos uma vaquinha online para viabilizar a ida dos três a Florianópolis, sede da XXI edição do Encontro da ANPOF. Estamos quase na meta, mas ainda é possível contribuir: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/enigma-estrategias-e-praticas-de-jogos-filosoficos-para-o-ensino-medio.

No minicurso, discutiremos como os jogos que criamos operam como dispositivos de expansão do cânone filosófico — trazendo à tona autores e temas frequentemente silenciados pela tradição — e como essa transposição didática mediada pelo jogo fortalece tanto a formação docente quanto o engajamento estudantil. Mais do que isso: entendemos essa prática como um gesto de democratização do acesso a debates filosóficos contemporâneos e plurais, entre eles a recuperação da história e do legado de filósofas apagadas pela historiografia tradicional da disciplina.

Um dos jogos que apresentaremos é o "Quiz Lélia Gonzalez", um quiz interativo dedicado a divulgar o pensamento e o legado de Lélia Gonzalez — filósofa, antropóloga, intelectual e ativista brasileira, uma das referências centrais nos estudos que cruzam raça, gênero e classe. O jogo convida os estudantes a refletir criticamente sobre as desigualdades estruturais da sociedade brasileira a partir das ideias, da trajetória e dos conceitos elaborados pela própria autora — de forma lúdica, mas sem perder densidade crítica. Outro exemplo é o "BINGO FILÓSOFAS (Antigas, Medievais e Modernas)", que substitui os números tradicionais do bingo por 28 filósofas sorteadas ao longo do jogo. Seu objetivo é divulgar o pensamento de mulheres sistematicamente excluídas do cânone filosófico, promovendo o reconhecimento de suas trajetórias e conceitos. Apresentaremos ainda dois jogos de cartas, "Filostrato" e "Mnemosyne", que também serão disponibilizados a quem participar do minicurso.

No fundo, o objetivo do ENIGMA é pensar, junto com os participantes, outras formas de avaliar os estudantes — e construir, coletivamente, estratégias para que professores e professoras possam adaptar essas dinâmicas a diferentes realidades escolares e aos temas propostos pela BNCC. Isso se dá por meio do compartilhamento de experiências com graduandos que já estão vivendo, na prática, seus primeiros passos como docentes no chão da escola. No fim das contas, talvez o que estejamos tentando provar, mais uma vez e de uma vez por todas, seja algo simples: que a filosofia — e o próprio ato de filosofar — pode, e deve, ser divertida.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.