Inventaram o gênero e esqueceram de nos perguntar
Ana Paula Martins de Souza
Doutoranda em Filosofia na PUCPR
Letícia Helena Fernandes de Oliveira
Doutoranda em Filosofia na PUCPR
23/04/2026 • Coluna ANPOF
Na tradição filosófica moderna, a concepção de natureza em sua relação com a liberdade é fortemente articulada a um problema central da filosofia kantiana no que tange a relação entre natureza e liberdade. Em sua denominada Crítica da Razão Pura, a natureza é um domínio regido pela causalidade necessária, enquanto a liberdade pertence ao âmbito da razão prática. Por outro lado, na Crítica da Faculdade de Julgar, o filósofo busca pensar uma mediação entre esses dois âmbitos, trazendo a ideia da finalidade para a natureza.
É nesse contexto que a diferença sexual aparece integrada a um projeto teleológico ainda mais amplo da natureza. Desse modo, a associação das mulheres em relação à natureza pode implicar em uma forma indireta de subordinação, ao situá-las mais próximas de um domínio que, na arquitetura crítica, não coincide plenamente com a liberdade. Ainda nesse sentido, a própria ideia de uma natureza orientada por fins abre espaço para a transformação de descrições em prescrições, convertendo características atribuídas às mulheres, como o cuidado, a modéstia ou a sociabilidade em expectativas normativas legitimadas filosoficamente.
Holly Wilson, em sua obra intitulada “Kant’s Pragmatic Anthropology: Its Origin, Meaning, and Critical Significance”, observa que nessa perspectiva as mulheres não aparecem apenas como responsáveis pela reprodução biológica da espécie, mas como agentes do refinamento social e moral da humanidade. A natureza, nesse sentido, seria responsável por uma espécie de “educação natural” da espécie humana, distinta da educação artificial promovida pelas instituições sociais.
Essa associação histórica entre mulheres e natureza teve consequências duradouras. Ao situar as mulheres no domínio da natureza, frequentemente entendido como passivo ou pré-racional, muitas tradições filosóficas acabaram por limitar sua participação plena no espaço da razão e da política. No entanto, se faz necessário ir além dessa constatação, no sentido de questionar em que medida essa associação continua a criar estereótipos acerca da produção filosófica (e científica) feminina.
A partir desse contexto, podemos pensar junto com a pesquisadora e professora Oyèrónke Oyewùmí, a qual demonstra que o gênero é uma categoria criada no ocidente. Segundo sua obra “A Invenção das Mulheres”, a autora argumenta que a centralidade do gênero, bem como seus desdobramentos, como divisões de tarefas, status social e outros marcadores que chegam à ideia de uma “natureza feminina”, não é universal, mas uma construção histórica ocidental.
Podemos considerar que, a partir dessa perspectiva, associar as mulheres a um estado de natureza produz limites específicos de saber e relações sociais. Ou seja, essa associação não é neutra, mas pode ser vista como um controle epistemológico que organiza o mundo a partir de uma perspectiva que, posteriormente, torna-se universal. Inventar o gênero, nesse sentido, gerou também a invenção de uma “mulher” sem a capacidade de racionalidade, limitando-a a um grupo inferior. Nesse sentido, a autora propõe que a categoria gênero, longe de ser uma categoria natural, foi determinada como uma tecnologia de poder.
Sendo assim, gênero não apenas categoriza, mas também organiza, distribui e hierarquiza. Ele define quem pode ser visto como sujeito racional e quem permanece associado à natureza, necessitando, portanto, de domínio. Nesse processo, como em tantos outros, não fomos questionadas, fomos nomeadas.
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.