Mulheres também sabem Filosofia
Camila Palhares Barbosa
Professora de Filosofia na Universidade Federal de Santa Maria
19/06/2026 • Coluna ANPOF
“Mulheres Também Sabem Filosofia” (mtsf.com.br) é uma iniciativa de extensão desenvolvida na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), com financiamento da FAPERGS, que tem por objetivo criar o primeiro banco de dados nacional de pesquisadoras em Filosofia. Reconhecendo a importância de ampliar a participação e o reconhecimento das filósofas na comunidade acadêmica, o MTSF propõe a constituição de um portfólio virtual que reúna pesquisas conduzidas por mulheres nas mais diversas áreas da Filosofia. Compõem a equipe do projeto Jéssica Erd Ribas, Lu Immich e Henry Rosa Xavier.
Cada pesquisadora pode realizar seu cadastro e ter seu perfil incluído nas buscas, que são organizadas de acordo com as grandes áreas do conhecimento filosófico e com seus respectivos temas de especialização. Esse banco de dados contribuirá para o mapeamento das pesquisas desenvolvidas por filósofas nas diferentes áreas da Filosofia, tornando suas produções mais acessíveis e visíveis à comunidade acadêmica. Assim, o site é proposto como um recurso de busca bibliográfica e de divulgação científica.
Cabe destacar que, ao menos desde a chamada “Primavera de 2016” (Araújo, 2020), iniciou-se um movimento voltado à visibilização das desigualdades de gênero na Filosofia acadêmica brasileira. Tais esforços se somam a um amplo debate internacional que evidencia a persistência do caráter predominantemente masculino, branco e europeu da Filosofia profissionalizada (Hutchison; Jenkins, 2013). Apesar da ampliação das discussões sobre Gênero e Filosofia, da criação de diversos projetos voltados à inserção de mulheres na filosofia profissionalizada, do resgate de filósofas na História da Filosofia, das ações promovidas pela Rede Brasileira de Mulheres Filósofas, a presença feminina na pós-graduação em Filosofia no Brasil permanece com números desproporcionais em relação a presença masculina, aproximando-se de 30% do corpo discente e de apenas 20% do corpo docente, conforme dados da Plataforma Sucupira da CAPES. Nesse sentido, a Filosofia brasileira insere-se em um contexto global no qual permanece a percepção de que se trata de uma área majoritariamente masculina.
Diversos fatores contribuem para a permanência desse cenário. Virginia Valian (2005), por exemplo, discute o impacto dos chamados “esquemas de gênero” na escolha das áreas de formação. Segundo a autora, os papéis sociais de gênero moldam a percepção sobre os campos de atuação profissional e influenciam psicologicamente os interesses e as expectativas de meninas e mulheres. Sua análise oferece uma resposta crítica às tentativas de naturalizar ou justificar, com base em diferenças sexuais, a distribuição desigual de homens e mulheres entre as áreas do conhecimento.
No caso específico da Filosofia, essa situação está relacionada a uma cultura filosófica marcada por vieses implícitos de gênero, tanto na definição das habilidades consideradas filosóficas — frequentemente apresentadas na tradição do campo como neutras ou a-generificadas (Sattler, 2024) — quanto na percepção de que interesses filosóficos “são generificados” meramente quando se trata de “perspectivas femininas no pensamento filosófico” (Trans/Form/Ação, 2024).
Haslanger (2008) e Thompson (2017) mapeiam elementos que contribuem para a manutenção do caráter masculino da Filosofia. Entre eles, destacam-se: i. a falta de representação, ou “role models”, de filósofas que possam inspirar a carreira das estudantes, seja em função da ausência de docentes em cursos superiores, seja pela baixa adesão ao estudo do pensamento de filosófico de filósofas; ii. falta de representação de filósofas e autoras no conteúdo dos cursos: exclusão ou baixa inclusão nas ementas e planos de ensino de disciplinas; iii. vieses discriminatórios implícitos, como tratamento estereotipado e percepção de pior performance; iv. formação de um ambiente “masculino”, excessivamente competitivo, moralista, orientado para sucesso individual e hostil à “feminilidade”, entre outros. Segundo as autoras, os esquemas de gênero na Filosofia produzem barreiras não apenas de gênero, mas também de raça, classe e sexualidade.
Uma das manifestações mais evidentes desse processo é o apagamento histórico das contribuições de mulheres filósofas. Enquanto os filósofos compõem majoritariamente o cânone e ocupam os espaços de legitimação do conhecimento filosófico, as filósofas ainda enfrentam dificuldades para alcançar reconhecimento e visibilidade. Embora debates recentes tenham buscado questionar a constituição historicamente masculina do cânone filosófico, a baixa representatividade de mulheres entre pesquisadoras e docentes continua sendo apontada como um dos fatores que dificultam a inserção e a permanência de estudantes e pesquisadoras no ambiente universitário. Paradoxalmente, essa mesma baixa representação costuma ser utilizada para justificar a ausência de mulheres em bibliografias, disciplinas e projetos de pesquisa.
A promoção da inclusão de gênero na Filosofia exige uma transformação mais ampla na forma como o campo compreende seu próprio objeto e sua história. Isso implica descentralizar a concepção de que o conhecimento filosófico é essencialmente masculino, abstrato e universal. Também exige enfrentar discursos recorrentes que atribuem o apagamento das filósofas à sua suposta baixa participação em eventos, bancas, concursos, orientações ou demais espaços acadêmicos. É necessário abandonar interpretações que tratam essa realidade como reflexo de meras casualidades e compreendê-la como efeito de relações históricas e estruturais de poder, marcadas por formas persistentes de um machismo sistemático presente na Filosofia.
Nesse contexto, a criação de um banco de dados de filósofas constitui uma resposta empírica a tais percepções, ao reunir e divulgar pesquisas desenvolvidas por filósofas brasileiras nas mais diversas áreas da Filosofia, evidenciando sua presença e excelência acadêmica. Desta maneira, entre os principais objetivos do projeto estão:
- Valorizar a pesquisa e produção de conhecimento realizada por Filósofas;
- Demonstrar a presença de mulheres em todas às áreas da Filosofia;
- Servir como um banco de referências de pesquisas realizadas por Filósofas;
- Combater o discurso de justificação da ausência de mulheres em eventos, em publicações, em corpos discentes e docentes, e em referências bibliográficas.
O Mulheres Também Sabem Filosofia aceita o cadastro de pesquisadoras com titulação de mestra, doutoranda ou doutora. Entendendo que as pesquisas filosóficas e suas contribuições ao campo podem possuir natureza interdisciplinar, o cadastro pode ser realizado por pesquisadoras que se dedicam ou se dedicaram ao pensamento filosófico, não restringindo a titulações específicas em Programas de Pós-Graduação em Filosofia. Ainda, importa destacar que o projeto compreende como “mulheres na Filosofia” todas as pessoas que se autoidentificam como filósofas, incluindo mulheres cisgênero, mulheres transfeminas e pessoas não-binárias.
Além do banco de dados, o site disponibiliza uma série de entrevistas com Filósofas, nas quais são abordadas suas trajetórias acadêmicas e seus temas de pesquisa. Dessa forma, pretende-se ampliar a visibilidade das contribuições das mulheres para o saber filosófico, destacando tanto a relevância de suas pesquisas quanto os percursos profissionais que construíram. Os relatos das professoras e pesquisadoras permitem evidenciar não apenas a excelência de suas produções intelectuais, mas também a diversidade de experiências, desafios e perspectivas sobre o fazer filosófico, e a carreira filosófica.
O uso do termo “filósofa”, como evidencia a pergunta final das entrevistas — “Como é ser uma filósofa?” — ainda nos coloca diante de um espaço de tensão e incômodo. Não apenas porque enquanto escrevo essa coluna as palavras “Filósofas” e “pesquisadoras” permanecem marcadas como um erro gramatical, uma heresia na escrita acadêmica, mas também porque nós mesmas nos encontramos nas fronteiras de seus sentidos. Enquanto uma mulher cis, branca, lésbica, brasileira, me pensar como uma filósofa parece romper com aquilo que aprendi ao longo de minha trajetória acadêmica e o que a filosofia profissionalizada apresentou como modelo. O ato de se assumir e autodeclarar ‘Filósofa!’ tensiona os posicionamentos palatáveis de professora, pesquisadora e eterna estudante “de filosofia”. Ainda que essas caracterizações sejam plenamente justas, talvez o desconforto em narrar-se como filósofa seja justamente a demarcação de um lugar de rupturas com algumas fronteiras muito bem estabelecidas, ainda que não sempre transparentes, de uma filosofia masculinizada. Nesse sentido, a pergunta “Como é ser uma filósofa?” aponta para questões incontornáveis do presente, ao mesmo tempo em que denuncia e exige o enfrentamento das múltiplas formas de injustiça epistêmica misógina (Fricker, 2023, Collins, 2019).
Nessa perspectiva, Sara Ahmed chama de “estalo feminista” (2022) a tomada de consciência que é causada pela pressão da vivência de discriminação e violência sistêmica. O “estalo feminista” faz ouvir as pressões das barreiras sistemáticas, e desencadeia na possibilidade fundamental de reclamar de situações de opressão e injustiça. Um estalo, nesse sentido, é um ponto sem volta. A “primavera de 2016” representou um estalo feminista para a Filosofia. Ela chamou atenção para o fato de que há misoginia na comunidade filosófica e que devemos contestar o presente estado das coisas, para poder causar uma “onda feminista” de transformação. Isso se demonstra também nas ações coletivas de filósofas em diferentes regiões e instituições do país, o que tem tornado cada vez mais visível e enunciável o fato de que estamos há muito tempo constituindo o campo da Filosofia e que nossos trabalhos merecem reconhecimento e prestígio acadêmico. O estalo é um ponto sem volta. O “Mulheres também Sabem Filosofia” se integra a esse movimento, dando valor ao pensamento, conhecimento e contribuição de mulheres filósofas. Nós - filósofas.
Conforme Verônica Campos, em resposta à pergunta como é ser uma filósofa, “tem muitos pontos legais em ser uma filósofa [...] um deles é provar o ponto de que mulheres podem ser o que elas quiserem, e poder encorajar jovens, mulheres, adolescentes e meninas a pensarem que elas podem ser o que elas quiserem”. Assim, convidamos a todas as filósofas, que fazem ou fizeram, dedicaram-se ou dedicam-se ao pensamento filosófico neste país, a se cadastrarem e integrarem o banco de dados “Mulheres Também Sabem Filosofia”.
Referências
Ahmed, Sara. Viver uma vida feminista. Ubu Editora, 2022.
Araújo, Carolina. "A primavera de 2016." Revista Ideação 1.42 (2020): 126-140.
Collins, Patrícia Hill. Pensamento feminista negro. Boitempo, 2019.
Fricker, Miranda. Injustiça Epistêmica. Edusp, 2023.
Haslanger, Sally. "Changing the ideology and culture of philosophy: Not by reason (alone)." Hypatia 23.2 (2008): 210-223.
Sattler, Janyne. "A insólita a-generidade da filosofia masculinizante." Trans/Form/Ação 47.2 (2024): e02400234.
Thompson, Morgan. "Explanations of the gender gap in philosophy." Philosophy Compass 12.3 (2017): e12406.
Valian, Virginia. "Beyond gender schemas: Improving the advancement of women in academia." Hypatia 20.3 (2005): 198-213.
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