O caminho do filósofo: uma introdução à Escola de Kyoto

Lucas Murata

Doutorando em Filosofia pela Universidade Estadual de Londrina

17/08/2026 • Coluna ANPOF

Especial | XXI Encontro Anpof | Minicursos


Em Kyoto, ao longo de um canal ladeado de cerejeiras (sakura), existe uma trilha chamada o Caminho do Filósofo (tetsugaku no michi). Em abril, na primavera japonesa, as flores desabrocham e a caminhada de 2 quilômetros pela trilha se torna encantadora. Milhares de turistas a percorrem todos os anos, mas quase sempre sem saber quem foi o filósofo em questão. Ele se chamava Nishida Kitar? (1870 - 1945), caminhava por ali diariamente entre as aulas na Universidade de Kyoto, e fundou, na primeira metade do século XX, o mais influente movimento filosófico do Japão moderno. No Brasil, seu destino ainda não é muito diferente do da trilha japonesa: passa-se ao lado sem saber o que está ali.

A Escola de Kyoto nasce de uma situação cultural ímpar no Japão. Na era Meiji (1868 - 1912), o Japão decidiu absorver o ocidente: sua ciência, suas instituições, seus costumes, e também a sua filosofia; e a ambição japonesa fez cumprir em duas ou três gerações um processo que a Europa levara séculos para processar. Assim, juntamente com as ferrovias recém inauguradas e a filosofia acadêmica, desembarcou também com a qual a própria Europa ainda estava tentando lidar: a crise de fundamento. Quando Nietzsche falou da "morte de Deus", o diagnóstico chegou ao Japão já pronto e encontrou um solo peculiar: tradições budistas para as quais a ausência de fundamento nunca fora absurda, mas uma premissa. Os primeiros professores japoneses de filosofia aprenderam Kant e Hegel como quem aprende uma língua estrangeira, e por algum tempo o trabalho foi, sobretudo, de tradução e assimilação. Nishida foi o primeiro a fazer outra coisa: formado tanto na filosofia europeia quanto nas tradições intelectuais do leste asiático, ele se recusou a escolher entre repetir o ocidente e refugiar-se numa suposta pureza oriental. Sua pergunta era mais ambiciosa: e se a tradição japonesa tivesse recursos para enfrentar problemas que a filosofia ocidental não conseguia resolver?

O problema que ele escolheu é o mais fundamental de todos: por onde a filosofia deve começar? Praticamente a tradição ocidental inteira, de um jeito ou de outro, começou por algum fundamento: Deus, a substância, o sujeito, a matéria. Nishida propõe começar antes disso: pela experiência no instante em que ela ainda não se dividiu entre um "eu" e um "mundo". Ao ouvir uma música absorto, não há primeiro um sujeito que depois ouve um objeto sonoro; há o ouvir, e é dele que "eu" e "música" são destilados depois, pela reflexão. A isso Nishida chamou experiência pura, e passou o resto da vida extraindo as consequências dessa inversão.

A mais radical delas atende por um nome que soa a contra-senso: nada absoluto. O raciocínio é menos esotérico do que parece. Tudo o que existe, está em (oitearu) algum lugar: todo objeto pressupõe um lugar que o contém. Mas e o lugar último, aquele que contém tudo? Ele não pode ser uma coisa, porque toda coisa já estaria contida nele. O que há de último na realidade, portanto, não é um ente supremo: é um lugar que Nishida nomeia nada absoluto: um fundamento sem fundamento que funda precisamente por não ser coisa alguma. Não o nada da destruição ou do desespero, mas algo aparentado ao que o budismo chama de vazio: a ausência de fundo fixo que permite às coisas serem o que são.

Foi um aluno de Nishida quem percebeu que essa ideia tinha um endereço urgente. Nishitani Keiji (1900 - 1990) estudou com Heidegger em Freiburg nos anos 1930 e voltou ao Japão convencido de que o problema central do século era o niilismo: a experiência de que os valores supremos perderam o chão e nada veio ocupar seu lugar. A modernidade japonesa, que absorvera o pacote ocidental em poucas décadas, experimentou o desespero como nunca. Apesar disso, Nishitani é impiedoso com as soluções fáceis: não se sai do niilismo ressuscitando o que morreu, nem inventando novos fundamentos, nem fugindo dele. A redenção, então, não acontece contornando o niilismo; mas atravessando-o, mergulhando até as camadas mais profundas. Pois o nada que nos apavora ainda é um nada relativo, pensado como sombra do ser que perdemos. Quando também esse nada relativo se esvazia, o que sobra não é o abismo: é o mundo, experienciado pela primeira vez sem a exigência de que algo o fundamente. O que se apresentava como uma perda agonizante, revela-se, agora, como uma abertura infinita.

Principal nome da terceira geração da escola de Kyoto, Ueda Shizuteru (1926 - 2019) levou essas questões a uma problematização filosófica: quem é esse "eu" que atravessa tudo isso? Para Ueda, o self não é uma coisa que possuímos, mas o próprio fluxo do movimento: sair de si, perder-se no outro, retornar transformado que só acontece num campo aberto que nenhum eu enrijecido controla. Ueda foi também um dos grandes intérpretes do diálogo entre o budismo zen e a mística de Mestre Eckhart: a Escola de Kyoto nunca foi um assunto "oriental" foi, desde o início, um diálogo frutífero entre tradições.

É justamente esse diálogo que permanece quase inaudível entre nós. Salvo esforços isolados de tradução e pesquisa, a Escola de Kyoto não entrou nos currículos nem no debate filosófico brasileiro. A consequência disso é que perdemos interlocutores de primeira grandeza para questões que não são deles nem nossas, mas de qualquer um que herde a modernidade. O que fazer quando o fundamento falta? Como pensar um eu sem substância? Há, talvez, até uma afinidade a explorar: a filosofia brasileira, feita ela própria longe dos centros que definem o cânone, conhece bem o gesto que a Escola de Kyoto executou com maestria, apropriar-se da tradição ocidental sem se dissolver nela, e devolver-lhe perguntas que ela não sabia fazer.

O minicurso Introdução à Escola de Kyoto: a filosofia do nada absoluto no Japão moderno, no XXI Encontro da Anpof, propõe abrir essa trilha: do contexto Meiji à experiência pura e à lógica do lugar em Nishida, do enfrentamento do niilismo em Nishitani ao self e à linguagem em Ueda, com leitura de trechos traduzidos e bibliografia comentada para quem quiser seguir adiante. Como o Caminho do Filósofo de Kyoto, é uma trilha que muita gente ainda não percorreu, o que é, afinal, um bom motivo para caminhá-la.


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