O corpo voltado ao outro: o caráter significativo dos gestos
Roberto Wu
Professor titular no Departamento de Filosofia da UFSC
02/09/2026 • Coluna ANPOF
Especial | XXI Encontro Anpof | Minicursos
O corpo voltado ao outro: o caráter significativo dos gestos
A despeito de sua ubiquidade no vocabulário filosófico e cotidiano, o gesto parece se encontrar muito distante de uma definição consensual. Tal suposta impossibilidade não precisa ser tomada inicialmente como desvantagem, considerando-se que é fragmentada a própria história de sua conceitualidade. O minicurso se detém sobre alguns dos estágios de seu desenvolvimento semântico e propõe, ao final, uma maneira própria de compreender tal fenômeno.
Embora comporte variabilidade conforme autores, no que respeita à sua circunscrição ao movimento das mãos e braços, ou sua possível abrangência daqueles atos realizados pelo rosto e outras partes do corpo, é certo que o gesto foi primeiramente compreendido como complemento corporal do discurso. Na teoria retórica clássica, autores com Cícero e Quintiliano discutem como tais gestos podem contribuir para tornar mais vívida a exposição de um assunto. Se Cícero se interessa pelo gesto a fim de demarcar um uso mais próprio ao retor, por oposição ao modo vulgar de imitar com gestos o assunto, como de modo geral o faziam os atores de pantomima, é Quintiliano que fornece possivelmente a primeira análise exaustiva dos gestos da antiguidade, chegando mesmo a prover um catálogo de gestos no Livro XI, cap. III da Instituição Oratória, ao situar tal questão no âmbito da diferença entre emissão vocal (pronuntiatio) e ação (actio), correspondente à distinção entre a voz (vox) e o gesto (gestus). Cabe notar que Quintiliano não limita o âmbito gestual ao movimento das mãos e braços, senão que também abrange as ações do olhar, do rosto e da postura corporal em sua reflexão sobre a adequação (decoro) do corpo ao discurso. Inegavelmente instigante e ainda influente, tal abordagem pode ser tomada como representativa da subordinação do gesto ao discurso, ou, em alguns casos mais atenuados, de uma complementaridade.
Por uma via distinta, a discussão sobre os gestos serem uma forma original de linguagem é igualmente digna de consideração. Tal perspectiva é particularmente influente no início da modernidade, quando autores propõem consistirem os gestos, anteriores à pulverização da linguagem verbal em múltiplas línguas, em uma linguagem natural e, portanto, universal. Giovanni Bonifaccio e John Bulwer no séc. XVII, Denis Diderot, Etienne Bonnot de Condillac e Giambattista Vico no séc. XVIII, são alguns dentre tantos que investigaram os gestos com o intuito de compreender a origem da linguagem verbal e do entendimento humano.
Por fim, outras vias de investigação sobre os gestos foram propiciadas pelos diversos domínios relativos ao conhecimento nos últimos séculos. A proposta de uma educação de surdos nos séculos XVIII-XIX pelos abades franceses Charles-Michel de L’Épee e Roch-Ambroise Cucurron de Sicard elaborou, talvez pela primeira vez, um sistema de significação independente da oralidade, o que permitiu compreender a sua dinâmica interna sem que se tomasse a fala como norma. Sob outro registro, pesquisadores como Gregory Bateson e Robert E. Pittinger elaboraram preciosas análises sobre a comunicação não-verbal, chamando a atenção para o caráter significativo de fenômenos até então desconsiderados – visto que ultrapassam a esfera discursiva verbal – como a hesitação, a entonação da voz ou a postura corporal.
As abordagens acima, longe de exaustivas sobre o tema do gesto, ilustram que se trata de um tópico que não se esgota. O minicurso intenta proporcionar uma visão sobre essas e outras propostas relativas ao gesto, para que se compreenda a riqueza de suas contribuições. No entanto, ele também pretende inserir-se nas discussões contemporâneas. Parcialmente devedor da concepção defendida por Maurice Merleau-Ponty de que o corpo expressa a existência, proponho compreender o gesto de maneira distinta das propostas acima. Em meu recente livro, O aceno longínquo (7 letras, 2026) dedico um capítulo à temática do gesto. Nele, ao invés de procurar definir o gesto por oposição à linguagem verbal, entendo a fala como determinado tipo de gesto. A totalidade dos comportamentos humanos é, assim o defendo, gestual. A gestualidade é a conexão intencional primordial que se orienta ao outro, razão pela qual o minicurso se detém sobre o caráter político do corpo, sobretudo nos gestos de que se ocupam os estudos étnico-raciais, de gênero, de deficiência e sobre velhice.
Àqueles que de algum modo se sentiram instigados por tal apresentação, convido a se inscreverem no minicurso (dias 17 e 18/11, das 8:30 às 11:30). Será uma satisfação poder dialogar com vocês sobre temas que me são tão caros.
Bibliografia do minicurso
AGAMBEN, Giorgio. Meios sem fim: notas sobre política. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
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