O que é a filosofia, hoje?

Rafael Leopoldo

Doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP)

17/07/2026 • Coluna ANPOF

No último momento de sua obra, no curso Do governo dos vivos, Michel Foucault elabora um conceito novo, ele o chama de aleturgia (?ληθουργ?α). O termo ?ληθουργ?α tem como prefixo a palavra ?ληθο (?λ?θεια, verdade) e o sufixo ουργ?α (ação, prática), formando algo como um trabalho com o verdadeiro. Logo, Foucault passa a pesquisar a relação entre o sujeito e a verdade. O que Foucault está analisando são as formas com que, na cultura antiga, havia um conjunto de práticas que implicava o dizer-a-verdade sobre si mesmo. É nessa tônica que estão os estudos sobre a parresía, que o filósofo traduz como a “fala franca” e o “dizer verdadeiro”.

Na obra A hermenêutica do sujeito, Foucault faz uma leitura importante da história da filosofia, não se trata de compreendê-la a partir do princípio socrático de “conhece a ti mesmo”, mas de entendê-la relacionada a um princípio mais amplo, que é o cuidado de si. É estudando essa temática que identifica um personagem que seria indispensável ao dizer verdadeiro. Trata-se do interlocutor, aquele que faz um par.

Na Antiguidade, esse outro que torna o dizer-a-verdade de si possível era, muitas das vezes, o filósofo profissional, mas, também, poderia ser qualquer um, um professor, um amigo pessoal ou um amante. Esse outro tão polivalente, mesmo que possa ser qualquer um, não é um qualquer, pois tem uma característica específica, que é a parresía.

Foucault não apresenta somente o sentido positivo da parresía, mas o seu sentido negativo. No sentido negativo, o dizer tudo se transforma em dizer qualquer coisa. Foucault afirma que o parresiasta se torna o tagarela impenitente. No seu sentido positivo, a parresía é o dizer verdadeiro, uma fala que não oculta e que está indexada na verdade. Contudo, não só isso, não somente dizer tudo e dizer a verdade. A fala do parresiasta expressa aquilo que ele pensa, não é uma fala da boca para fora, e essa fala o coloca no risco da violência, já que é uma fala que pode irritar o outro. Nesse horizonte, aparece a coragem.

Porém, a coragem de que nos fala Foucault não é somente do parresiasta que coloca em risco a sua própria vida. É também do interlocutor que, por sua grandeza de alma (o termo aristotélico é μεγαλοψυχ?α), tem a coragem de receber a verdade que o outro lhe mostra. Trata-se de reconhecê-la e fazer dela um princípio de conduta. Essa coragem nos parece ser o oposto da covardia, que se utiliza de uma resposta violenta. Assim, aquele que é interpelado pelo parresiasta, com sua grandeza de alma, mantém o pacto do dizer verdadeiro.

Foucault identifica ainda outras modalidades do dizer verdadeiro para além do parresiasta. Trata-se da modalidade da profecia, da sabedoria e do técnico. O modo profético expressa-se na forma do enigma e não fala em nome próprio. O profeta é um intermediário de outra voz, geralmente a voz de Deus. O modo da sabedoria expressa o discurso em seu próprio nome. Porém, de forma muito geral, o sábio mantém sua sabedoria em um retiro e, muitas vezes, fala por enigmas. O modo professoral ou técnico diz daquele que tem um conhecimento que implica não somente o aprendizado teórico, mas uma ascética. Trata-se de alguém que aprendeu algo e é capaz de ensiná-lo. Acrescenta-se a isso um dever com a palavra, uma obrigação do dizer, posto que o seu saber está vinculado à tradicionalidade. O técnico recebeu um saber e passa a transmiti-lo. Contudo, ao ensinar, o técnico não corre nenhum risco. Ora, Foucault diferencia a parresía desses três modos de dizer o verdadeiro. O parresiasta não é o profeta que é intermediário da fala do outro; não é o sábio que se retira e sofre com o seu silêncio; não é o técnico que diz em nome da tradição, mas não assume o risco.

Ao apresentar essas quatro modalidades do dizer verdadeiro, Foucault faz uma precisão importante. O filósofo afirma que não se trata necessariamente de papéis sociais, mas de modos de veridicção. Acontece que esses modos de veridicção não estão isolados, mas, mesmo em algumas instituições ou personagens, eles se apresentam de forma combinada.

A respeito dessa combinação, Foucault nos dá o exemplo do próprio Sócrates. Sócrates é o parresiasta, mas recebe a sua missão do deus de Delfos e da instância profética que lhe deu esse veredito; Sócrates tem uma relação com a sabedoria, é senhor de uma virtude pessoal, tem o domínio de si e a resistência ao sofrimento, mas, também, às vezes, tem a capacidade da abstração, retira-se do mundo. Por fim, o técnico traz à baila o problema socrático do ensinamento da virtude: ensinar aos jovens as qualidades e os saberes necessários para viver e governar a cidade.   

Postas essas modalidades, Foucault faz uma análise sobretudo do período greco-romano, mas, além disso, enfatiza alguns aspectos da Idade Média e, por último, produz vestígios de como o dizer-a-verdade de si mesmo estaria na época moderna. Esses vestígios são importantes, já que nos põem a pensar como a questão do dizer-a-verdade de si mesmo e suas formas de veridicção estão postas na atualidade. Com esse horizonte, enfatizo essas pequenas indicações, para que seja possível localizar reconfigurações, rupturas e continuações do dizer verdadeiro.

Em alguns momentos, Foucault nos fala do discurso filosófico, da psicanálise e do discurso revolucionário. A respeito da filosofia, Foucault diz que ela mobilizaria tanto a sabedoria quanto a parresía, mas uma parresía vinculada à crítica. Foucault não pensa diretamente a psicanálise dentro dessas modalidades do dizer-a-verdade, mas indica que o seu estudo é uma pré-história da prática psicanalítica. A respeito da dissidência, não temos uma palavra como ela é hoje, mas Foucault fala dos revolucionários, indica que, talvez com eles, haja uma modalidade profética e crítica. De forma muito geral, essas são as indicações que nos temos.     

Portanto, se nos perguntarmos “o que é a filosofia, hoje?” uma possível resposta é que ela seja uma forma do dizer verdadeiro, que existe nela uma relação com os regimes de veridicção. Na filosofia, encontraríamos o saber e a parresía, mas no bojo da crítica. Creio que seja necessário acrescentar que estamos também diante da modalidade professoral, que tem relação com a tradicionalidade. E o risco do filósofo? Parece-nos que na atualidade esse risco é pouco, o risco da crítica não é o mesmo do parresiasta da antiguidade ou o das atuais dissidências. 

Na psicanálise, poderíamos aventar que estamos longe da modalidade profética, mas ela compõe uma modalidade do saber, da técnica e da parresía. Na modalidade do saber, a psicanálise apresenta duas torções. A primeira é a aposta dos lacanianos na douta ignorância, isto é, a aposta num saber que se sabe limitado. O analista não ocupa o lugar do mestre que sabe, mas do semblante de objeto a – a causa de desejo. A segunda é que o saber não está no analista, mas ele circula entre o analista e o analisando. A sabedoria na psicanálise se funda e está estruturalmente num não-saber. A modalidade técnica está presente pela formação institucional das Escolas Psicanalíticas. Por último, a parresía, está tanto do lado do analista quanto do analisando. Da parte do analisando, a única regra é a associação livre, dizer tudo. Porém, algo escapa ao sujeito e produz a verdade, mesmo sem intenção prévia. Da parte do analista, o ato analítico não vem de uma técnica, mas de um atravessamento do sujeito, um ato que o compromete, mas, diante do interlocutor, ele faz operar algo no analisando. 

Na dissidência, quando Foucault pensou os revolucionários, o filósofo os relacionou ao discurso profético. Todavia, nas atuais dissidências parece que o discurso profético teria um vigor muito menor. A modalidade do saber, ao menos em parte, evoca os saberes do vivido, da natureza, da ancestralidade e do cosmo. Um saber situado e encarnado. Ora, se existe uma técnica, ela remonta não à cadeia institucional, mas, especialmente, às hierarquias de grupo. A parresía, de forma muito patente, recai sobre dizer-a-verdade de si mesmo, mas não necessariamente de um lugar de virtude, mas de um espaço de precariedade e de segregação. Essa posição era estruturalmente excluída da parresía antiga, posto que a coragem discursiva já era daquele que pertencia à cidade. O risco da dissidência não é perder um lugar social, ele está no corpo, que interpela antes mesmo da fala franca.

A Filosofia, porém, é interpelada por outras modalidades do dizer verdadeiro. Pensando o campo da ética, o modo de dizer-a-verdade, tanto da psicanálise quanto da dissidência, chama a Filosofia a ter uma grandeza de alma. Primeiro, pela hipótese do inconsciente, que fura os sonhos metafísicos de completude. Segundo, pelo corpo que se coloca diante de nós, que nos faz rever não somente a nossa crítica, mas a nossa conduta, a nossa existência enquanto sujeito. No plano da ética, a filosofia é ainda, em grande parte, a coragem da verdade.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.

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