O racismo epistêmico no Brasil: uma análise sobre atrasos na ciência e na academia

Adeir Ferreira Alves

Doutor em Metafísica (UnB)

12/02/2026 • Coluna ANPOF

O modelo acadêmico de universidades ocidentais que conhecemos teve suas bases ancoradas nas concepções científicas do geógrafo alemão Friedrich Wilhelm Heinrich Alexander von Humboldt, conhecido também como Barão de Humboldt (1769-1859). Neste período da história, devido a atuação das forças do pensamento Iluminista, a Europa recrudescia cada vez mais uma conduta anticlerical em todos os setores da sociedade, portanto, os novos ventos do grande movimento filosófico mais conhecido como Fides et ratio (fé e razão) se enfraquecia e o positivismo dinamizado por Auguste Comte chancelava a ruptura da ciência com a fé cristã. Porém essa cisão não se deu apenas por motivos epistêmicos – como reverberam os cânones das ciências –, porque ela é caudatária de fatores tenazmente políticos derivados das Revoluções Burguesas.

Com a guinada do iluminismo, incontestavelmente houve um grande número de inaugurações científicas em praticamente todos os ramos da ciência, que naquele momento, descendo da abóbada metafísica, equilibrava o aspecto teórico e empírico nas suas novas epistemes. Neste contexto as ciências particulares também se emancipavam da filosofia, ciência matricial, e seguiam o seu próprio curso científico e acadêmico.

Para fins de conhecer a natureza para dominá-la – ou seja, “desencantar” o mundo, o projeto universalista humboldtiano de academia pressupunha um conhecimento holístico de fato, no entanto, destas premissas chegavam a reboque dispositivos hegemonistas de dominação do mundo. Com efeito, o caráter científico com seus paradigmas de suposta neutralidade, técnica, objetividade, universalidade e racionalidade (Kilomba, 2019; Oyewumi, 2021; Kuhn, 1998) delegaram o poder de decisão, de conhecimento e de ensino, até então centrados nas epistemologias da Filosofia Cristã, à comunidade científica tutelada pela burguesia anticlerical, positivista, racionalista, empirista.

Não faço aqui uma avaliação qualitativa desta substituição de poder no âmbito do saber, e sim anuncio em que medida as instâncias destes poderes (igreja e burguesia) estatuem paradigmas e epistemes como se “ciência pura” fossem, como se razão pura fossem. Ou seja, informo que nos porões da ciência e da academia existem sedimentados elementos políticos, econômicos, racistas, patriarcalistas, colonialistas e imperialistas (Alves, 2024).

Os fatores políticos burgueses estão presentes nas decisões científicas, nos percursos acadêmicos, assim como estão presentes nos debates sobre a ética das pesquisas científicas, especialmente em países cultural e socialmente subalternizados como o Brasil.

Em resumo, o que orienta o saber no pensamento ocidental não é uma teia epistêmica puramente racional, objetivista, neutra, universalista, porque essa teia  consiste, antes de tudo, numa lógica de poder colonialista e/ou imperialista, porque essa lógica está eivada de ideologias econômicas, culturais, raciais, políticas, patriarcais, religiosas dos “donos do poder” (Kilomba, 2019; Aguiar, 2017; Chomsky, 2020), que, por seus turnos são “burgueses”, homens, brancos, ricos (Alves, 2024).

A própria razão “deificada” no Ocidente auto inscreveu-se na cultura como uma “cosmovisão” suprema, soberana e, quiçá, única. Obviamente que ela se tornou a baliza entre a falta e o excesso, o rigor e o descuido, mas me refiro à razão como algo que deveria ser uma variante ou um paradigma em meio a outros fatores, porém o cogito figura como um signo absoluto no curso do conhecimento. Algumas pessoas devem estar se perguntando: – mas a “cogitocracia” não deveria ser algo bom? Não, não é, porque existem outras formas de conhecer o mundo para além da razão apenas.

É neste sentido que falo sobre a “cosmopercepção africana”. Ela consiste em conhecer e lidar com o mundo de diversas formas, bem como expressa o conhecimento acerca do mundo através de múltiplos elementos para além da razão, tais como, ancestralidade, oralidade, comunidade, espiritualidade, cooperativismo, senioridade, vivência, encantamento, dentre outros (Alves, 2024).

A cosmopercepção africana foi muito falada pelo Nego Bispo (Santos, 2019) como saberes quilombolas e afro-indígenas ancestrais insubmissos à colonialidade do poder. A forma de uso e ocupação do solo e dos demais recursos naturais pelos povos e comunidades tradicionais preconizam um pensar, ser e fazer orientados para a vida e não para o mero consumo e/ou exploração ao modo ocidentalista. A forma de conhecimento tradicional destes segmentos fortalecidos pela tradição ancestral compreendem o tempo, a vida, a morte, a política, a sociedade, a identidade, os aspectos ontológicos e os demais fatores do existir com base num ethos vivo, em que o ser humano – ao invés de figurar como um ser superior – é mais um dentre os demais seres vivos (Wanderson Nascimento, apud Alves, 2024).

Por estas razões, uma das pautas da luta antirracista no âmbito do saber acadêmico em fazer estes conhecimentos ancestrais estarem para além das aldeias, terreiros e quilombos, por exemplo, consiste em promover “cotas epistêmicas” (José Jorge de Carvalho apud Alves, 2024), porque não basta cotas raciais para pessoas negras, quilombolas, indígenas e demais povos e comunidades tradicionais para ingressarem na academia e submeterem os seus saberes ao saber eurocentrado; porque opera nesta malha de inclusão o “racismo epistêmico” (Alves, 2024).

O racismo epistêmico não se trata de ausência de conhecimento, mas sim de um tipo de conhecimento paradigmaticamente imposto, cujo estatuto é assimétrico, imperialista, hegemonista, racista, político, patriarcalista, capitalista (Kilomba, 2019). Na perspectiva aristotélica, o Ser se expressa de diversas formas, mas o racismo epistêmico e institucional ocidentocêntricos balizam o mundo exclusivamente pela razão, e assim subalternizam as demais epistemes que não se orientam apenas pela razão.

A psicologia, a pedagogia, o direito, a geografia, a biologia, a medicina, a filosofia, e outras ciências particulares, mas, sobretudo, a antropologia e a sociologia,  por exemplo, instituíram-se como cânones do saber ocidentalista ao objetificar os ancestrais saberes tradicionais africanos, afrodiaspóricos, afro-indígenas e indígenas do Brasil, dos países africanos e de outros países periféricos em um caráter primitivista, involuído, objetificado, embrionário, considerado pouco maduro (Guerreiro Ramos, 2023; Mudimbe, 2019; Alves, 2024; Aguiar, 2017). É desta posição assimétrica de poder que a academia e a ciência nos países periféricos como o Brasil procuram se desvencilhar deste caráter hegemonista, mas estando sempre tutelados por paradigmas ocidentocêntricos (Oyewumi, 2021), hesitam.

A academia já começa a compreender outros pontos de partida do conhecimento, sendo a cosmopercepção africana uma delas (Oliveira apud Alves, 2024) e assim já começam a romper paradigmas eurocentralistas, mas ainda assim os desdobramentos de fato se limitam – quase sempre – ao que determina o racismo institucional de setores governamentais que avaliam o desempenho de Programas de Pós-graduação e do Ensino Superior do Brasil, de órgãos governamentais que orientam e financiam pesquisas científicas e tecnológicas no país, bem como certames de concursos públicos para professores/as universitários. Nestas instâncias em que direitos de fato podem se efetivar para além da inclusão – instâncias estas em que a ciência e a academia podem se ampliar e enriquecer – os donos e/ou controladores do poder hesitam.

Como resultado direto do racismo epistêmico, há boicote às cotas raciais em desfavor de algumas pessoas negras aprovadas em concursos públicos, especialmente no magistério do Ensino Superior; existem muitas fraudes praticadas por pessoas brancas em políticas de cotas raciais em concursos públicos e processos seletivos para o ingresso no Ensino Superior; há também destituição de pessoas negras de cargos públicos por causa de perseguições racistas em seus ambientes de trabalho. A tática da branquitude compõe uma malha não apenas de privilégios para pessoas brancas na ocupação de cargos de chefia, cargos de poder e de tomada de decisão, mas impedem muitas pessoas negras de ocuparem cargos básicos (Bento, 2022), e, por estas razões, também é que ao mesmo tempo a branquitude externaliza a fobia a outras formas de saber nestes espaços (Alves, 2024).

A luta antirracista da Inteligência Negra, portanto, não se resume em buscar a “inclusão” no âmbito dos direitos, dos direitos humanos e das políticas públicas em geral, porque a natureza do saber e do fazer nestas instituições eurocentradas é racista. O racismo epistêmico e o institucional são indissociáveis. Se numa comunidade científica os paradigmas são orientados pelo impulso econômico, social e político (Kuhn, 1998), na teia das assimetrias raciais observadas nas instituições acadêmicas e científicas brasileiras, atua também o racismo epistêmico.

Na academia, ou mesmo na ciência e tecnologia, quando se apresenta uma secular ou mesmo milenar episteme não ocidental, tal qual como a cosmopercepção africana, “que poderia servir para ampliar o conhecimento e a ciência” – como disse um filósofo amigo meu (Josias de Gusmão, SEEDF) –, os órgãos governamentais, a exemplo da CAPES e CNPq, não possuem ainda parâmetros para apreciar, avaliar, reconhecer e “outorgar” estes conhecimentos. A mundialização da educação também tutela no hegemonismo do saber suas cotas de controle para “validação” e financiamento do conhecimento catalogando como suficientemente acadêmico ou não (Ferreira Alves & Moreira, no prelo).

Portanto, o racismo epistêmico figura no Brasil não apenas como  sequestro de vidas negras desde a escravidão, mas também como “epistemicídio” contínuo (Carneiro, 2005) e como flagrantes violações de direitos desde a colonização do Brasil. As epistemes que ecoam dos quilombos, terreiros de “religiões” de matriz africana, aldeias, e demais organizações sociais tradicionais primeiramente lutam por mudança de posições de poder nesta relação assimétrica do conhecimento, para depois pensarem como suas metodologias e ética de pesquisa – que também são próprias – podem ampliar os procedimentos de produção do saber na ciência e na academia ocidentais.

Por todas estas razões, o racismo epistêmico no Brasil figura não apenas como um protocolo paradigmático do conhecimento, mas, antes de tudo, como um grande atraso científico e acadêmico no Brasil por questões da política do racismo ainda vigorante nos cânones ocidentrocêntricos do saber e do poder.  


Referências

AGUIAR, Roberto Armando Ramos de. Alteridade e rede no direito. In COSTA, Alexandre Bernardino (org.; et. al.). O direito achado na rua: nossa conquista é do tamanho da nossa luta. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2017.

ALVES, Adeir Ferreira. Vidante: um filosofar de candomblé. (Tese de doutorado), Programa de Pós-graduação em Metafísica. Universidade de Brasília, 2024.

BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

CARNEIRO, Sueli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. (Tese de doutorado) Faculdade de Educação. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2005.

CHOMSKY, Noam. Internacionalismo ou extinção: reflexões sobre as grandes ameaças à existência humana. Tradução de Renato Marques. São Paulo: Crítica, 2020.

FERREIRA ALVES, Adeir & MOREIRA, Raquel Oliveira. Educação como direito em perspectiva descolonial: conquistas e desafios no cenário brasileiro. Revista Com Censo. No prelo.

GUERREIRO RAMOS, Alberto. Negro sou: a questão étnico-racial e o Brasil: ensaios, artigos e outros textos (1949-1973). Organizador Muryatan S. Barbosa. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.

KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Tradução de Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.

KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. Tradução de Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. São Paulo: Perspectiva, 1998.

MUDIMBE, Valentin-Yves. A invenção da África: gnose, filosofia e a ordem do conhecimento. Tradução de Fábio Ribeiro. Petrópolis: Vozes, 2019.

OYEWUMI, Oyeronke. A invenção das mulheres: construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero. Tradução de Wanderson Flor do Nascimento. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.

SANTOS, Antônio Bispo dos. Colonização, quilombos: modos e significações. Brasília: Ayô, 2019.


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