Por um ensino de lógica filosoficamente informado
Evelyn Erickson
Pesquisadora em estágio pós-doutoral no Programa de Pós-Graduação em Filosofia na UFSC
Mahan Vaz
Doutorando na UNICAMP/Ruhr-Universität Bochum
08/09/2026 • Coluna ANPOF
Especial | XXI Encontro Anpof | Minicursos
Filosofias para o Ensino de Lógica
Ensinar e aprender lógica são tarefas difíceis. A dificuldade no aprendizado é evidente quando nos atentamos às experiências dos estudantes, que relatam ser esta a disciplina obrigatória mais difícil dos cursos de filosofia. Do outro lado, docentes expressam também a dificuldade em ensiná-la (dos Santos, Erickson, Mendes, Nascimento, 2026). Adicionando-se a isso mais dois fatos, essa dificuldade se aprofunda do ponto de vista pedagógico. O primeiro é que Lógica possui pouca variabilidade na ementa (tanto via o milenar ensino da teoria do silogismo, quanto via os contemporâneos manuais de lógica matemática); o segundo é que Lógica é uma disciplina cognitivamente exigente, pois requer conectar os raciocínios abstratos exercitados em cursos de Lógica com os raciocínios cotidianos que, por vezes, não possuem estrutura lógica manifesta. Dado o primeiro problema, há pouca experimentação didática nos cursos de lógica; e dado o segundo, há pouca esperança de que o abismo entre as abstrações lógicas e os raciocínios cotidianos possa ser superado enquanto nós, os especialistas em Lógica, tivermos tão pouco interesse pelos mecanismos psicológicos do raciocínio e do aprendizado quanto temos tido desde a vitória do antipsicologismo de Frege. Enquanto a epistemologia da lógica tem tido ricos desenvolvimentos desde a proposta de naturalização da lógica (Quine, 1951), o seu ensino não tem acompanhado esses novos avanços filosóficos. Propomos neste ensaio motivar um ensino de lógica filosoficamente informado, que coloca aspectos filosóficos no centro do aprendizado da disciplina.
Há muito sabemos que a Lógica Clássica não é a teoria mais adequada para muito dos nossos propósitos filosóficos: expressar sentenças modais, contrafactuais, noções doxásticas, raciocinar sobre predicados vagos, em situações com falta ou excesso de informação, e outros mais. Apesar disso, em cursos de graduação em Filosofia esta é basicamente a única teoria lógica ensinada. Há vários motivos para tal: ela é bi-valorada (expressável semanticamente com apenas dois valores de verdade), é verofuncional finita (o comportamento dos operadores lógicos que a constituem pode ser descrito com tabelas de verdade), possui semânticas e sistemas dedutivos bem conhecidos e algoritmicamente simples, e, talvez mais importante, possui extenso material disponível para o seu ensino. As alternativas proposicionais mais próximas (por exemplo LP, K3, FDE ou lógica intuicionista) apresentam sistemas de prova e semânticas mais complexas que a da lógica clássica e são apenas estudadas em nichos de especialistas, o que significa que muitos docentes não possuem experiência suficiente com elas a ponto de se sentirem confortáveis para lecioná-las.
Além desse perfil técnico, é importante ressaltar o aspecto histórico-político-social em que se insere a Lógica: não é por acaso que há uma Lógica Clássica tida como uma instância da Verdade Universal, o padrão ouro de raciocínio, ou o reflexo dos aspectos mais fundamentais da realidade. A classicidade do Verdadeiro ou Falso reflete uma estrutura social que se pauta em estruturas de poder daquele que é dominante (Plumwood, 1993), em detrimento de outras formas de perceber o mundo e ordenar relações (Silva, 2026). Nesse sentido, o ensino apenas da Lógica Clássica e a imposição implícita desse modo de fazer inferências como sinônimo de racionalidade é um instrumento de coerção epistêmica. Ensinar o rigor dos raciocínios lógicos não precisa ser isento de considerações político-filosóficas sobre a própria Lógica; e o que propomos é que essa perspectiva nos permite questionar o status da lógica como única, imutável e normativa. Uma primeira aproximação da mudança de paradigma no ensino de lógica tem sido feita dentro da recente área de “Lógica Feminista”.
Sara Uckelman (2025) ressalta que há muitos estudantes que possuem um medo frente a conteúdos de matemática que é carregado durante os anos escolares e trazido para as aulas de Lógica na graduação em Filosofia. Esse medo impede, por receio de errarem, que os estudantes engajem com o conteúdo, principalmente frente ao risco de falharem diante da turma inteira. Uckelman propõe integrar a falha como pressuposto do processo ensino/aprendizagem, transformando a sala de aula em um local de formação coletivo e colaborativo. O erro é então visto como um passo no processo de aprendizado, abandonando avaliações tradicionais que apenas atestam quem aprendeu o conteúdo tal como apresentado.
Mais recentemente, Puja Raj (2026) traz o diagnóstico de que o ensino tradicional de lógica, que foca na Lógica Clássica, é excludente em diversos aspectos. Para além do “medo” da matemática, a Lógica por vezes serve como um teste de qualidade para pessoas que estudam Filosofia. A Lógica funciona como um filtro que seleciona aquelas pessoas que dominam as formas dedutivas de inferência (e as caracteriza como “bons estudantes”) em detrimento daquelas pessoas que possuem alguma dificuldade em lidar com o conteúdo (sendo essas classificadas como “estudantes ruins”, “pouco esforçadas” ou “preguiçosas”).
Ao considerarmos os aspectos acima descritos, parece-nos urgente repensar o método tradicional de ensino de lógica. Nossa proposta não é promover o ensino de outros sistemas lógicos para além do clássico (o que acarretaria ainda mais “medo” da lógica e mais distanciamento entre os estudantes e o conteúdo), mas sim repensar o modo como a Lógica tem sido ensinada, e junto disso o próprio conceito de Lógica. Queremos propor aqui o ensino de Lógica como uma prática situada, em que o aprender é um processo colaborativo entre estudante e docente, visando tanto o exercício cognitivo de raciocínio sob hipóteses, necessário e perspicuous (Dutilh Novaes 2021) como também reflexão filosófica sobre os aspectos meta-filosóficos envolvidos na seleção do conteúdo que se apresenta durante os encontros. Isso significa que, ainda que se ensinem os conteúdos incluídos no cânone contemporâneo, docentes possam se atentar para os aspectos frequentemente invisibilizados pelo próprio processo de canonização. Nisso incluem-se chamar a atenção para o apagamento epistêmico da legitimidade de outras formas de realizar inferências não-dedutivas, para a imposição do padrão da dualidade Verdadeiro/Falso, para os limites dos esquemas de tradução entre a linguagem natural e linguagens formais (Diniz, 2025); e abandonar métodos avaliativos punitivistas que reprovam estudantes que falham em reproduzir o resultado esperado.
Aqui entra uma importante consequência filosófica da contestação dos aspectos metateóricos ligados à Lógica Clássica. Podemos contestar que a lógica é Universal, que seus conteúdos são justificados a priori, que ela é única e verdadeira, que ela é normativa ou ainda que ela é aplicável a todos os ramos do conhecimento. Façamos um breve exercício. A lógica é justificada a priori, ou não o é. Se a lógica é justificada a priori, este conhecimento já está em cada um de nós, e, portanto, ele não precisa ser aprendido, precisa ser apenas, como as Formas Platônicas, rememorado. Se a lógica não é justificada a priori, devemos admitir que a aquisição desse conhecimento é possível apenas via experiência coletiva histórica, política e socialmente situada em que foi desenvolvida e ensinada, e, portanto, o aprendizado de lógica toma uma dimensão imensa para a epistemologia da lógica. O atual ensino de lógica parece partir de uma teoria da rememoração das formas, enquanto tudo o mais que sabemos sobre Lógica, seu ensino e sua epistemologia aponta para o contrário: é difícil aprender e ensinar lógica, mas não precisa ser tão difícil assim. Ao rejeitar o apriorismo da lógica, o papel dos professores de lógica torna-se imediatamente mais imbricado com a filosofia da lógica, e uma mudança no modo de ensino se torna filosoficamente motivada.
As posições elencadas acima trazem em comum a necessidade de se pensar o ensino de lógica dentro de cursos de Filosofia (e demais Humanidades) como distinto do tradicional método de ensino das Ciências Exatas, em que se foca sobre produção eficiente de resultados corretos. Para o sucesso desse projeto, a filosofia e o ensino de lógica devem se tornar dois lados da mesma moeda. Em nenhuma outra área da filosofia ensinamos dogmas aos estudantes; ensinamos diversas posições, argumentos a favor e contra, e damos aos estudantes as ferramentas para cada um avaliar os méritos e deméritos dos “ismos” que permeiam a filosofia. Por que em Lógica haveria de ser diferente? Lógica é antes de tudo o órganon filosófico que permite o exercício ativo da crítica; e o ensino dogmático de Lógica nos soa quase auto-refutador.
Eis onde o ensino de lógica filosoficamente informado encontra seu lugar: podemos e devemos mostrar que se os estudantes não entendem os raciocínios clássicos como “intuitivos”, é porque eles de fato não o são. Não há falta de racionalidade em não entender ou não conseguir articular o padrão clássico de inferências; o que sobra do ensino e aprendizado de lógica é algo a ser pensado por todos aqueles que se dispõem a pesquisar e ensinar lógica, e por isso fazermos o convite à comunidade filosófica do Brasil a elaborar conosco os aspectos plurais do ensino de lógica.
Referências
Diniz, Daniel A. da S. L. (2025). Comprometimentos filosóficos implícitos na tradução-cálculo de argumentos informais. Perspectiva Filosófica, v. 52, n. 2.
dos Santos, C. F.; Erickson, E.; Mendes, J; Nascimento, T. (2026). Consulta: Ensino de Lógica em cursos de Graduação em Filosofia - 2024. SBL. Disponível em: https://sbl.org.br/uploads/Main/Relatorio-Consulta-Ensino.pdf. Acesso em 11 de ago. 2026.
Dutilh Novaes, C. (2021). The Dialogical Roots of Deduction: Historical, Cognitive, and Philosophical Perspectives on Reasoning. Cambridge, UK: Cambridge UP.
Quine, W. V. O. (1951). "Two Dogmas of Empiricism". The Philosophical Review, v. 60, n. 1: 20–43. https://doi.org/10.2307/2181906.
Raj, P. (2026). The logic curriculum as a gatekeeping tool: Feminist interventions in teaching formal reasoning. Synthese, 207(4), 182. https://doi.org/10.1007/s11229-026-05566-1
Silva, M. (2026) A "Espiral Normativa: Neopragmatismo na Revisão da Lógica". CLE/Unicamp.
Uckelman, S. L. (2025). Failing in Front of Your Peers: A New Pedagogy of Logic. In B. F. Welch (Ed.), Innovations in Teaching Philosophy: A Toolkit for the 21st-Century Classroom. Bloomsbury.
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