Radar Filosófico - Contrariar os fantasmas coloniais: incorporação como método filosófico

Luís Thiago Freire Dantas

Professor de Filosofia da Educação da UERJ; professor do Programa de Pós-Graduação em Educação (PROPed) da UERJ

16/12/2025 • Coluna ANPOF

Neste ensaio, minha intenção foi tensionar a produção filosófica em suas possibilidades de escrita, tomando como referência o evento da escravidão transatlântica para contrariar os fantasmas coloniais modernos. Como pano de fundo teórico, adotei a questão central formulada por Saidiya Hartman no artigo “No Tempo da Escravidão”: “para que fim o fantasma da escravidão é invocado?”.

Assumir essa pergunta implica problematizar, como responsabilidade ética, pensamentos filosóficos que, na busca por princípios últimos, sistematicamente negligencia as recorrências históricas de seu próprio tempo. Dessa forma, o tempo da escravidão permanece como desafio teórico a ser plenamente elaborado em suas múltiplas camadas, tal como uma tarefa que necessariamente se articula com a crítica ao arquivo histórico. Seguindo a demonstração de Hartman em “Vênus em Dois Atos”, onde a autora analisa o caso de duas jovens africanas mortas a bordo de um navio negreiro e registradas apenas como “Vênus”, é preciso perseguir a encarnação do fantasma (haint) que assombra o pensamento moderno, pois “assombra o presente, como vida descartável” (p. 112).

Essa descartabilidade resulta da imposição de valores humanistas que regulam grupos humanos a partir de uma ideia restrita de humanidade, em que não “quer perceber” a humanidade como um termo indefinível por estar sempre em construção. É precisamente nesse ponto que problematizo o ato de escrever filosoficamente, atentando para “uma história cultural do cativeiro”. Nessa história, o porão do navio negreiro é o fundamento da “impossibilidade de representar as vidas dos cativos e cativas precisamente por meio do processo de narração” (Hartman, 2021, p. 121).  Para articular um projeto de descolonização filosófica, na percepção de ouvir vozes de outros tempos e espaços, é preciso começar a escrita por uma pergunta radical: quantos filósofos e filósofas desapareceram nos porões dos navios negreiros? 

Essa interrogação revela com precisão a urgência de um enfoque metodológico que compreenda o fazer filosófico como gesto de responsabilidade histórica – entendendo que os argumentos transcendem seu contexto original e podem fundamentar leituras contemporâneas. A esse respeito, Christina Sharpe, em No Vestígio, demonstra como intelectuais negros dedicados aos estudos da escravização e do pós-abolição enfrentam permanentemente lacunas: os arquivos apresentam silêncios históricos e éticos, repletos de apagamentos, nominativas equivocadas e estratégias de (des)aparecimento.

Com isso, minha proposição foi pensar um método filosófico que leve em conta a antinegritude. A escolha do termo “incorporação” teve esse propósito: fazer com que a construção argumentativa atente para outras vidas que podem ser inseridas na reflexão, principalmente para questionar a atuação de um racismo epistêmico pelo qual epistemologias e políticas são invalidadas por serem oriundas de corpos descartáveis. A passagem kantiana em que “dentre os milhões de pretos que foram deportados de seus países, não obstante muitos deles terem sido postos em liberdade, não se encontrou um único sequer que apresentasse algo grandioso na arte ou na ciência, ou em qualquer outra aptidão” exemplifica o racismo epistêmico ao invalidar, por princípio, a capacidade intelectual de povos africanos, desqualificando assim qualquer conhecimento ou produção política originária desses corpos racializados. Por isso, urge colocar a filosofia contra sua história oficial para revelar outras vozes ocultadas.

Por conseguinte, ir além do textual e enfatizar as variadas maneiras pelas quais uma pessoa expõe suas concepções filosóficas torna a corporeidade a referência central dessa produção. Isso se manifesta também nas expressões culturais que, na diáspora, remodelam e reconfiguram a linguagem oficial para afirmar a potencialidade daqueles sujeitos esquecidos pela história. No Brasil, a relação entre música e resistência atravessa os séculos. Mesmo após a chamada “abolição”, as expressões culturais negras enfrentaram tentativas sistemáticas de controle, dominação e apagamento. No entanto, como demonstra a história, sempre houve brechas para a re-existência; com reinvenção criativa da vida contra as estruturas de morte. No século XX, essa re-existência ecoou nas letras de sambistas como Candeia, Cartola, Dona Ivone Lara, Martinho da Vila, Clementina de Jesus e Bezerra da Silva. Um exemplo dessa potência filosófica está na canção “Coisa de Pele”, de Jorge Aragão, cuja construção lírica revela a incorporação como método filosófico que reconhece a antinegritude como elemento atuante em diversos fenômenos sociais. Consequentemente, a filosofia se volta para o que está em “nosso chão”, compreendendo a potência epistemológica e política de nossos pagodes e de tantas outras expressões culturais: capoeira, jongo, maracatus e congadas. Essa força mobiliza o entendimento e introduz a alacridade como dinâmica existencial fundamental, ao ouvirmos que “Podemos sorrir, nada mais nos impede/ Não dá pra fugir dessa coisa de pele/ Sentida por nós, desatando os nós/ Sabemos agora, nem tudo que é bom vem de fora” (Aragão, 1986).

 Por fim, no ensaio convido a pensar o ato de escrita como um exercício de imaginação política da diáspora africana. Para tanto, recorro a uma frase de Frank Wilderson III em entrevista ao podcast Quarta Capa, por ocasião do lançamento do livro Afro-pessimismo no Brasil, na qual o autor afirma: “apesar do mundo ocidental construir a antinegritude por meio do pessimismo da razão, nós temos o otimismo da vontade. Nós acreditamos no poder da revolta dos escravos”. É precisamente a incorporação desse “poder da revolta dos escravos” que a filosofia não pode mais se furtar.

Ensaio publicado na Revista Transformação, v. 48 (2025) | Acesse aqui

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