Radar Filosófico - Uma introdução ao pensamento filosófico de Manfredo Oliveira
Jozivan Guedes
Professor do Depto e do PPG Filosofia UFPI e membro do GT Teorias da Justiça da Anpof
08/04/2026 • Coluna ANPOF
Como introito, posso afirmar com tranquilidade que o conjunto da obra filosófica e o modo enfático mediante o qual o filósofo cearense Manfredo Oliveira tencionou enfrentar as questões concretas concernentes às exclusões, são credenciais que o colocam no rol de maiores filósofos brasileiros, adicionando-se o fato de sua filosofia emergir de uma região do Brasil na qual por décadas a filosofia ficou obliterada em termos de visibilidade ou representatividade político-acadêmica e de fomento institucional para as pesquisas.
Neste artigo publicado na Veritas (PUCRS), pretendi realizar uma introdução ao pensamento filosófico do Manfredo Oliveira, filósofo nordestino-brasileiro nascido em Limoeiro do Norte, Ceará, em 1941, e atualmente professor emérito da Universidade Federal do Ceará (UFC). Ele está estruturado em duas partes: (i) o primeiro apresenta alguns componentes biográficos e contextuais mediante os quais foram construídas as bases iniciais de seu pensamento filosófico; (ii) o segundo apresenta um mapeamento de suas teses filosóficas centrais, expressas em seus livros. A hipótese é a de que a filosofia manfrediana tem dois caminhos fundamentais e dialeticamente articulados: em termos ontológicos e metafísicos, a busca incessante pelo Ser como horizonte de sentido da vida; em termos éticos, o compromisso com a práxis solidária e libertadora dos pobres e oprimidos. Esses caminhos são inseparáveis porque o Ser se presentifica na historicidade das relações, e o ser social, por sua vez, encontra o sentido de sua existência no Ser primordial.
O pensamento filosófico manfrediano é plasmado a partir da tentativa de superação dos limites do subjetivismo da filosofia transcendental de Kant e da fenomenologia de Husserl. Desde a sua tese de Doutorado na Alemanha em 1971, há uma busca incessante pela intersubjetividade e pelo Ser, de modo que a reviravolta linguística, a ética do discurso e a metafísica do Ser, são fundamentais para a sua filosofia. As questões da linguagem e da metafísica ocupam, por assim dizer, a primeira prateleira de suas problematizações filosóficas, fazendo disso a sua própria identificação intelectual.
No epicentro da filosofia manfrediana estão os seres humanos e as suas relações com o outro, com a natureza e com Deus. Não são em vão as suas preocupações com a ética, a ecologia e a metafísica. Isso é enfrentado por meio de uma filosofia pavimentada nas tradições inicialmente continental e posteriormente analítica, de modo que Manfredo retira de ambas os instrumentos e os conceitos fundamentais que alicerçam a sua filosofia sem se filiar inteiramente a uma ou a outra corrente.
A pergunta fundamental manfrediana subjacente à sua filosofia é sobre o horizonte de sentido da vida humana. A partir disso põe em discussão ao longo de sua vasta obra a racionalidade moderna, as suas exigências e os seus limites, sempre considerando a filosofia imprescindível, mesmo quando está em discussão a questão teológica sobre Deus, à medida que a filosofia é posta enquanto dimensão precípua da compreensão da fé (intellectus fidei) a fim de evitar quaisquer fanatismos.
Um outro ponto que se pode depreender acerca de filosofia de Manfredo Oliveira é que o ser humano está imerso e circundado pela sua própria contingência, pela contingência de outrem, mas é também um ser espiritual aberto à transcendência. Aqui se revela o posicionamento da filosofia cristã de Manfredo de o humano voltado para o absoluto, mas também historicizado nas relações intersubjetivas. Assim, é necessário cuidar bem de si, dos outros, da natureza e da sua relação com Deus. Ser filósofo requer cuidar não apenas da dimensão reflexiva, mas da ação em virtude de uma práxis em que o lugar do outro é posto como centro da relação entre ética e sociabilidade.
O estar-com-os-outros implica a responsabilização ética de construir relações solidárias voltadas para a libertação dos mais pobres e dos excluídos. Esse é o traço fundamental da filosofia da libertação presente na obra de Manfredo, sobretudo, quando se tem em vista a sua permanente preocupação com o sofrimento do povo brasileiro e latino-americano.