Saí da casa dos eruditos...
Wolfgang Theis
Doutorando em Filosofia pela Universidade de Brasília
08/09/2026 • Coluna ANPOF
Escolher a citação de Assim falou Zaratustra de Nietzsche (eKGWB, ZA II, Gelehrte) como título parece um tanto panfletário e provocativo. Trata-se, contudo, de uma escolha bem ponderada, visto que Nietzsche, após tais palavras, inicia sua polêmica contra os eruditos — ou seja, contra os professores universitários e contra a própria universidade. O filósofo concebe os professores como executores subservientes de um mandato estatal destinado a converter os estudantes em futuros cumpridores de ordens, destituídos de vida própria e vocacionados a servir sem contestação ao Estado e às suas instituições. Algumas décadas mais tarde, Robert Musil retoma a reflexão de Nietzsche acerca da administração pública em O homem sem qualidades, delineando o retrato de uma burocracia estatal servil na Cacânia, a qual executa irrestritamente as normas prescritas de maneira rígida e sem qualquer margem de manobra (Musil, 2020).
Todavia, de acordo com a autocompreensão contemporânea, cabe às universidades formar estudantes como cidadãos autônomos e críticos, capazes de agir e pensar de forma independente e, sobretudo, de desenvolver perspectivas críticas sobre processos científicos e sociais. Para tanto, fazem-se necessários docentes adequadamente capacitados, dispostos a fomentar tal postura e a compreender a crítica como motor do avanço científico. Torna-se, portanto, imperativo o fomento, a formação e a capacitação direcionada desses profissionais. Investir nas universidades configura um investimento no futuro, assegurando o polo acadêmico, a relevância internacional e a atividade científica do país.
Existem, porém, forças que discordam dessa perspectiva. Elas concebem a educação sobretudo como uma mercadoria a ser comercializada no mercado global, uma vez que a formação possui tanto valor de troca quanto valor de uso. O valor de troca é frequentemente expresso em capital cultural institucionalizado (Bourdieu, 1982), dado que essa modalidade de capital eleva o valor de mercado de seu portador, o qual se adorna com diplomas e distinções acadêmicas. O valor de uso, contudo, revela-se de difícil mensuração, pois seu retorno só se projeta no futuro, sendo predominantemente individual e complexo de capturar no âmbito macroeconômico. As chamadas disciplinas "orquídea" (Orchideenfächer), como a Filosofia, geram mais-valia ao mercado de trabalho apenas por vias indiretas, ao passo que projetos concretos das ciências exatas tendem ao caráter aplicado e, portanto, traduzem-se diretamente em capital econômico. A Filosofia consiste precipuamente na elaboração do pensamento para o que há de vir — e essa construção custa mais do que retorna de imediato. Qualquer ganho ocorre por meio de uma rentabilidade indireta (Umwegrentabilität), a qual pode demorar consideravelmente para se concretizar.
Cumpre salientar, ademais, que educação (Bildung) não deve ser confundida com capacitação profissional (Ausbildung). A capacitação habilita ao exercício de uma profissão, acompanhada também de capital cultural institucionalizado; já a educação constitui um processo permanente de desenvolvimento da personalidade, cultivo da razão e engajamento ativo no mundo. Trata-se de um processo independente de títulos acadêmicos, posto que a formação pode ser adquirida, em tese, mesmo sem o acesso a instituições de ensino. Com acesso adequado, esse percurso é evidentemente facilitado, e uma abordagem holística nos currículos proporciona oportunidades amplificadas para a aquisição do saber sobre bases amplas. Wilhelm von Humboldt já havia reconhecido tal premissa no século XIX, descrevendo-a nos seguintes termos:
Há indiscutivelmente certos conhecimentos que devem ser gerais e, mais ainda, uma certa formação das disposições de espírito e do caráter que não pode faltar a ninguém. É evidente que cada indivíduo só é um bom artesão, comerciante, soldado e homem de negócios se for, em si e independentemente de sua profissão específica, um homem e cidadão bom, decente e esclarecido conforme a sua condição. Se a instrução escolar lhe proporcionar o que para isso é necessário, ele adquirirá a aptidão específica de sua profissão posteriormente com facilidade, conservando sempre a liberdade, como tão frequentemente ocorre na vida, de passar de uma ocupação a outra (Humboldt apud Berglar, 1970, p. 87).
Humboldt remete aqui à abordagem holística da formação, a qual não visa produzir meros especialistas alienados, mas sim membros plenos e funcionais da sociedade, capazes de intervir e impulsionar o desenvolvimento social em suas múltiplas dimensões.
Retomando Nietzsche, contudo, fica evidente que essa concepção de formação tampouco se mostra perfeita, uma vez que o autor equipara as pessoas instruídas aos eruditos. Em tese, isso não é algo negativo, pois, por meio da formação, adquirem-se aptidões intelectuais que podem ser transmitidas, aprimoradas ou aplicadas. Pode-se, portanto, ensiná-las, expandi-las e empregá-las — atributos essenciais que um erudito deveria possuir. Nietzsche, todavia, critica os eruditos precisamente por se recusarem a empregar suas competências, preferindo permanecer na estagnação. Seu ataque mais incisivo é o seguinte:
Mas eles se assentam frios à sombra fria: em tudo querem ser apenas espectadores e guardam-se de sentar onde o sol queima os degraus. Como aqueles que param na rua e pasmam diante das pessoas que passam: assim também eles esperam e pasmam diante dos pensamentos que outros pensaram (eKGWB, ZA II, Gelehrte).
Com isso, o filósofo equipara os professores das universidades e de outras instituições de ensino àqueles que preferem o imobilismo, que se limitam a comentar em vez de produzir autonomamente e que se escondem em nichos para se esquivar das dificuldades do fazer científico e da própria vida.
Cabe indagar, contudo: por que, no Brasil, as universidades — que deveriam ser precipuamente instituições de ciência — estão subordinadas ao Ministério da Educação e não ao Ministério da Ciência e Tecnologia? Como demonstrado anteriormente, a formação constitui um elemento essencial tanto para o indivíduo quanto para a coletividade. Apenas uma população devidamente formada e capacitada pode atender às demandas do mercado de trabalho. Caso contrário, o mercado é forçado a importar mão de obra qualificada ou os postos de trabalho migram para o exterior. A competência sobre a formação profissional caberia, estritamente, ao Ministério da Educação. No entanto, as universidades têm por missão não apenas formar e capacitar, mas também realizar pesquisa — atribuição que se inseriria, teoricamente, no âmbito do Ministério da Ciência e Tecnologia.
Contudo, a ciência não é tão facilmente direcionável quanto a educação. Nenhum campo é ideologicamente mais disputado do que o da educação; em nenhuma área a influência do Estado sobre o futuro de longo prazo da população é tão direta quanto nas instituições subordinadas ao Ministério da Educação — diferentemente do que ocorre, por exemplo, na Russia, Alemanha ou na Áustria, onde as instituições fazem parte da influência do Ministério da Ciência e Tecnologia. Por que assim o é? Desconheço a resposta; talvez algum dos leitores deste texto possa oferecer uma explicação adequada. Para mim, as universidades são instituições de conhecimento e assim da ciência. Nietzsche, de todo modo, enxerga nas universidades instituições de adestramento para a obediência. Ele escreve:
Como o Estado não pode ter outro interesse na universidade além de educar por meio dela cidadãos devotados e úteis, deveria ter receio de colocar em risco essa devoção e essa utilidade ao exigir dos jovens um exame de filosofia (eKGWB, SE 8).
Pouco adiante, discorre sobre a inter-relação entre a filosofia e o Estado:
O Estado já não necessita da sanção da filosofia; por conseguinte, ela se tornou supérflua para ele. Se ele deixa de manter suas cátedras ou, como presumo para o futuro próximo, mantém-nas apenas de modo aparente e negligente, extrai daí seu proveito — porém mais importante me parece que também a universidade veja nisso sua vantagem. Ao menos me parece que um recinto de ciências autênticas deveria sentir-se favorecido ao ver-se liberto do convívio com uma semiciência ou uma subciência (eKGWB, SE 8).
Nietzsche toma a filosofia como exemplo de uma disciplina que o Estado considera irrelevante, perigosa e desprovida de estatuto científico, haja vista não apresentar utilidade direta imediata e poder engendrar elementos subversivos. Por essa razão, tais sujeitos precisam ser compulsoriamente enquadrados.
Felizmente, existem contramovimentos que não enxergam na formação e no pensamento crítico uma mercadoria ou uma ameaça iminente ao sistema, mas sim a oportunidade de promover transformações sociais. Isso se verifica tanto no corpo docente quanto na gestão administrativa e no meio estudantil. Não se faz necessária uma debandada da "casa dos eruditos", nos moldes caricaturados por Nietzsche; contudo, o redirecionamento rumo ao pensamento crítico, a contratação de docentes-pesquisadores vocacionados para a investigação e o afastamento dos mecanismos puramente mercadológicos revelam-se imperativos.
Bibliografia
Berglar, P. Wilhelm von Humboldt. Mit Selbstzeugnissen und Bilddokumenten, Hamburg, Rowohlt Verlag, 1970
Bourdieu, P. Die feinen Unterschiede. Kritik der gesellschaftlichen Urteilskraft, Frankfurt am Main, Suhrkamp Verlag, 1982
Musil, R. Der Mann ohne Eigenschaften, München, Saga Egmont Verlag, 2020
Nietzsche F. Unzeitgemäße Betrachtungen. Drittes Stück: Schopenhauer als Erzieher (1874), in: Nietzsche, F. Digitale Kritische Gesamtausgabe (eKGWB), herausgegeben von Giorgio Colli und Mazzino Montinari, Berlin, De Gruyter Verlag, 1967-1988, URL: http://www.nietzschesource.org/eKGWB/SE (acc. 25.08.2026)
_____. Also sprach Zarathustra. Ein Buch für Alle und Keinen, Erster Band (1883), em: Nietzsche, F. Digitale Kritische Gesamtausgabe (eKGWB), herausgegeben von Giorgio Colli und Mazzino Montinari, Berlin, De Gruyter Verlag, 1967-1988, URL: http://www.nietzschesource.org/eKGWB/Za-I (acc. 25.08.2026)
_____. Also sprach Zarathustra. Ein Buch für Alle und Keinen, Zweiter Band (1883), em: Nietzsche, F. Digitale Kritische Gesamtausgabe (eKGWB), herausgegeben von Giorgio Colli und Mazzino Montinari, Berlin, De Gruyter Verlag, 1967-1988, URL: http://www.nietzschesource.org/eKGWB/Za-II (acc. 18.08.2026)
Theis, W. Ohne Sicherheit ist keine Freiheit. Zur Zukunft der Arbeit an Österreichs Universitäten, Research Gate, 2015, DOI: 10.13140/RG.2.1.1357.0001, URL: https://www.researchgate.net/publication/283496331_Ohne_Sicherheit_ist_keine_Freiheit_-_Zur_Zukunft_der_Arbeit_an_Osterreichs_Universitaten (acc. 25.08.2026)
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