Sobre o conceito de inconsciente: Lacan leitor de Lévi-Strauss, Lévi-Strauss leitor de Kant

Luiz Fernando de O. Proença

Doutor em Filosofia da Ciência pela USP

08/09/2026 • Coluna ANPOF

O que significa dizer que “o inconsciente é estruturado como linguagem” (LACAN 2008: 199)? Como acontece com muitas fórmulas que se tornam célebres na história da filosofia e da psicanálise, a afirmação acima é tão familiar quanto difícil de determinar com precisão. Sua recepção frequentemente enfatiza o segundo termo da fórmula - a linguagem -, deixando relativamente em segundo plano o primeiro termo: o fato de o inconsciente ser pensado como uma estrutura. Levando esse primeiro termo a sério, uma questão se impõe: o que significa conceber o inconsciente não simplesmente como um conjunto de representações que escapam à consciência, como geralmente é visualizado, mas como uma estrutura de linguagem?

No seu décimo primeiro seminário Lacan formula a conhecida proposição acerca do inconsciente. A noção lacaniana de estrutura possui diversas proveniências de diferentes campos de aplicação: um âmbito matemático topológico, cuja importância se tornará progressivamente maior no ensino de Lacan; um âmbito antropológico, diretamente relacionado a Lévi-Strauss; um âmbito linguístico, associado sobretudo a Ferdinand de Saussure; e um âmbito clínico, no qual se fala em estruturas clínicas. Aqui, nos limitarmos à vertente antropológica do conceito de estrutura, isto é, à relação entre Lacan e Lévi-Strauss, a qual nos encaminhará para uma discussão kantiana.

Essa delimitação permite colocar a questão nos seguintes termos: o que Lacan encontra em Lévi-Strauss que lhe permite pensar o inconsciente como estrutura? Uma primeira resposta está no modo como o antropólogo concebe a ordem simbólica. Como mostra Markos Zafiropoulos, o ponto decisivo não é apenas a existência de símbolos, mas as regras de funcionamento da ordem simbólica (ZAFIROPOULOS 2003: 68). A linguagem aparece, nesse contexto, como um conjunto de condições dotado de realidade própria e relativamente independente de todo o sujeito particular. Não se trata, portanto, prioritariamente de perguntar o que determinado símbolo significa para determinada consciência, mas de compreender o sistema de relações que torna possível sua significação.

 

Do esquematismo kantiano à estrutura do inconsciente

É nesse ponto que aparece aquilo que o próprio Lévi-Strauss reconhece como uma problemática kantiana (LÉVI-STRAUSS 1964: 18). Para compreendê-la, é útil retornar ao problema do esquematismo na Crítica da Razão Pura. Kant precisa explicar como duas ordens heterogêneas podem se relacionar: de um lado, as categorias puras do entendimento; de outro, os fenômenos dados à sensibilidade. Sua resposta consiste na introdução de um terceiro termo, o esquema transcendental, que deve ser, por um lado, homogêneo à categoria e, por outro, homogêneo ao fenômeno, tornando possível a aplicação da primeira ao segundo (KANT 2001: A 178). O esquema não é simplesmente uma imagem determinada, mas uma regra ou procedimento de produção e organização das imagens.

Essa distinção entre imagem, esquema e conceito oferece uma chave importante para compreender Lévi-Strauss. Em seu pensamento, o signo e a linguagem ocupam uma posição intermediária entre a imagem o conceito. Podemos representar provisoriamente essa relação como uma pesagem da imagem aos signos linguísticos - significante e significado - e destes ao conceito. O que importa, entretanto, não são apenas os termos que ocupam essas posições, mas sobretudo as regras de transformação que permitem passar de uma ordem a outra. É precisamente nesse sentido que a estrutura pode ser aproximada ao esquema kantiano: menos como uma representação do que como um sistema de operações que determina as transformações possíveis.

O exemplo da aldeia bororó é particularmente esclarecedor. Lévi-Strauss observa que “o plano da aldeia bororó não exprime a verdadeira estrutura social, e sim um modelo presente na consciência indígena” (LÉVI-STRAUSS 2021: 289). A estrutura, portanto, não se confunde com a representação consciente que uma sociedade produz de si mesma. É necessário distinguir o modelo consciente da organização estrutural que torna possíveis tanto as práticas sociais quanto suas representações. O estruturalismo desloca, assim, a investigação do conteúdo imediatamente representado para o sistema de relações e regras que organiza esse conteúdo.

Esse deslocamento é decisivo para a aproximação com o conceito psicanalítico de inconsciente. A determinação do inconsciente não deve ser procurada neste ou naquele símbolo isolado, cristalizado no interior de uma formação do inconsciente, mas na potência das regras de formação simbólica. Há, nesse sentido, uma comunidade de estruturas simbólicas que organizam aquilo que aparece à consciência sem que essas próprias estruturas precisem tornar-se conscientes. O inconsciente deixa de ser concebido primordialmente como um depósito de representações ocultas e passa a poder ser pensado como um sistema de relações e operações.

É nesse sentido bastante preciso que Paul Ricoeur pôde falar, a propósito de Lévi-Strauss, em um “inconsciente kantiano”, isto é, um “inconsciente categorial, combinatório” (RICOEUR 1988: 34). A expressão não significa que Lévi-Strauss simplesmente reproduza a filosofia transcendental de Kant. Como esclarece Ricoeur, trata-se de um inconsciente kantiano apenas quanto à sua organização, pois estamos diante de um “sistema categorial sem referência a um sujeito pensante” (RICOEUR 1988: 37). A diferença é fundamental: conserva-se de Kant a ideia de um sistema de condições e regras que antecede e organiza a experiência, mas esse sistema já não precisa ser referido à unidade de uma consciência transcendental (LÉVI-STRAUSS 1964: 19).

 

Considerações finais

Podemos, portanto, reformular a hipótese central deste artigo da seguinte maneira: Kant formula o problema de uma mediação regulada entre ordens heterogêneas, que Lévi-Strauss desloca para o campo das estruturas simbólicas inconscientes e que Lacan, por sua vez, retoma como modelo para conceber o funcionamento inconsciente. O que passa de Kant a Lévi-Strauss e deste a Lacan não é simplesmente um conceito idêntico de “estrutura”, mas determinada maneira de compreender a existência de regras de organização que operam aquém da consciência e tornam possíveis as representações que aparecem ao sujeito.

Um exemplo freudiano permite visualizar concretamente a hipótese apresentada. O encadeamento dos significantes no episódio do esquecimento do nome Signorelli (FREUD 2020: 17), relatado em sua Psicopatologia da vida cotidiana, pode ser tomado como modelo elementar desse funcionamento estrutural do inconsciente. Para que Freud reencontre a representação “Signorelli”, não basta supor que ela permaneça simplesmente escondida em algum lugar da mente. Entre Signorelli, Botticelli, Boltraffio, Herzegovina, Bósnia, Herr e os demais elementos mobilizados na análise, encontramos deslocamentos, substituições, decomposições e recombinações de elementos significantes. Há, portanto, um modo de operação que determina as conexões possíveis entre essas representações.

É precisamente aqui que a aproximação com o esquematismo kantiano adquire seu sentido mais forte: assim como o esquema não é uma imagem particular, mas a regra de produção e organização das imagens, o inconsciente estrutural não deve ser identificado com uma representação inconsciente particular, mas com as regras segundo as quais os significantes se articulam, substituem-se e combinam-se. Nessa perspectiva, poderíamos formular que o esquema é para Kant uma regra de operação entre representações, assim como a estrutura inconsciente, em Lévi-Strauss e Lacan, designa um sistema de regras que tornam possíveis determinadas articulações simbólicas.

É essa passagem - da representação inconsciente para as regras inconscientes de formação; do conteúdo para a estrutura; do símbolo isolado para o sistema de relações - que permitirá compreender em que sentido a afirmação lacaniana de que “o inconsciente é estruturado como linguagem” pode ser situada em uma linguagem que, passando por Lévi-Strauss, remonta a uma problemática originalmente kantiana.


REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. Psicopatologia da vida cotidiana. Obras completas. Volume 5. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Trad.: Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Lisboa: Calouste & Gulbenkian, 2001.

LACAN, Jacques. Jacques Lacan - O seminário. Livro XI. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Tradução: M.D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. Tradução: Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: MEDIAfashion, 2021.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Mitologiques: le cru et le cuit. Paris: Plon, 1964.

RICOEUR, Paul. O conflito das interpretações: ensaios de hermenêutica. Trad. M.F. Sá Correia. Portugal: Rés-Editora. 1988.

ZAFIROPOULOS, Markos. Lacan et Lévi-Strauss ou le retour a Freud (1951 - 1957). Paris: PUF, 2003.


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