'O pioneirismo filosófico na academia requer reserva da energia para o debate sobre o objeto de estudos e os desdobramentos de propostas que se delinearem sob a nova concepção', entrevista com Sônia Teresinha Felipe

Maria Alice da Silva

Doutora em Filosofia pelo PPGFIL/UFSC

27/05/2026 • Entrevistas

O ecofeminismo será um dos principais temas a ocupar os debates do XXI Encontro Anpof, que acontecerá em novembro em Florianópolis. Ivone Gebara, uma das maiores referências nesse tema na América Latina e autora de “Teologia Ecofeminista”, será a conferencista que vai abrir o evento em Santa Catarina. Não por acaso, a UFSC, universidade que acolherá esse que é o maior evento de Filosofia do Brasil, é o terreno por onde vêm sendo trilhados e gestados trabalhos densos e comprometidos com o tema, pelo menos desde a década de 1980. Sônia Teresinha Felipe, professora do departamento de Filosofia da UFSC por quase 30 anos, é pioneira na reflexão sobre ecofeminismo no Brasil, e também sobre a ética dos direitos dos animais. Ali, ela abriu caminho para que outras pesquisadoras também pudessem conhecer e desenvolver seus trabalhos sobre ética animal e ecofeminismo.

É o caso de Maria Alice da Silva, doutora e mestra pelo PPGFIL/UFSC, autora do livro “Direitos animais: fundamentos éticos, jurídicos e políticos”, publicado em 2020 pela Ape’ku editora. Quando conheceu a professora Sônia, em 2008, na UFSC, ela já se preparava para a aposentadoria, mas os caminhos já estavam trilhados e abertos para que ela e outras pesquisadoras desenvolvessem trabalhos nesses temas. Abaixo, Maria Alice entrevista a professora Sônia, que revisita sua trajetória intelectual e política, marcada pelo enfrentamento crítico de um cânone tradicionalmente masculinizado e pela abertura de novos campos de investigação, como a ética animal, o ecofeminismo e as teorias abolicionistas.

Partindo de uma leitura crítica das bases da filosofia ocidental, Sônia Felipe questiona os padrões masculinos que moldaram o pensamento filosófico e excluíram não apenas mulheres, mas também povos originários, sujeitos não brancos, animais e ecossistemas inteiros do horizonte da justiça. Sua reflexão propõe uma reconfiguração radical da ética, ampliando-a para além dos limites antropocêntricos que ainda predominam. Na UFSC, introduziu os autores Peter Singer, Tom Regan, Gary Francione, Steven Wise, Richard Ryder, Andrew Linzey, cujos livros em língua inglesa impediam o acesso à ética animal para quem não dominasse a língua.

Ao longo da conversa, a filósofa também aborda os desafios do pioneirismo acadêmico — especialmente enquanto mulher — e reflete sobre sua decisão de construir caminhos próprios fora das estruturas institucionais tradicionais. Sua produção, que se intensificou após a aposentadoria, reafirma a filosofia como modo de vida, comprometida com a transformação das estruturas de violência que atravessam tanto as relações humanas quanto as interespécies. Mais do que um relato biográfico, a entrevista revela um projeto filosófico que insiste em deslocar o centro da reflexão ética e política para incluir aqueles historicamente silenciados — humanos e não humanos — e, com isso, desafia os próprios fundamentos do que se entende por justiça.

Sônia é autora dos livros: Estupro e atentado violento ao pudor (coautoria com Jeanine N. Philippi, Edufsc, 1998); A violência das mortes por decreto (coautoria com Jeanine N. Philippi, Edufsc, 1998); organizadora da coletânea Justiça como Equidade (Insular, 1997, edição dos autores); Por uma questão de princípios: alcance e limites da ética de Peter Singer em defesa dos animais (Boiteux, 2003); Ética e experimentação animal: fundamentos abolicionistas (Edufsc, 2007); Galactolatria: mau deleite (Ecoânima, 2012, edição da autora); Passaporte para o mundo dos leites veganos (Ecoânima, 2012); Acertos abolicionistas: a vez dos animais (Ecoânima, 2014); Carnelatria: escolha omnis vorax mortal (Ecoânima, 2018); Animais na trama abolicionista: nós supremacistas (Ecoânima, 2024). É autora de dezenas de artigos publicados em coletâneas de Ética Animal, Ética Ambiental, Direitos Humanos, e defensora da abolição de todos os usos, criação e matança de animais, e da dieta sem uso de derivados de animais, sejam extraídos desses ainda vivos, ou recortados deles já mortos.


Sua carreira acadêmica foi um exemplo para mim e para diversas pessoas que te conhecem, pois foi construída com muita dedicação e valores. Conte-nos um pouco sobre sua trajetória e quais as dificuldades de um contexto acadêmico na filosofia que sempre favoreceu os homens.

Sônia T. Felipe: vamos tomar as palavras da pergunta como matriz crítica. A filosofia que sempre favorece os homens está desenhada nos padrões másculos do pensar – na lógica e na modelagem universal das mentes individuais, por exemplo, mas não apenas nelas. Esses padrões excluem alavancas como as delineadas pelas emoções vivenciadas por todos os seres sencientes, humanos e não humanos, que a filosofia tradicional escolástica considerou não dignos de apreço e sem qualquer relevância. Desse modo, por séculos, o filosofar deixou de atender a diferentes aspectos do pensamento e cristalizou-se no padrão mental teo-lógico, excluindo todo pensamento crítico, impondo o modo de escolas do pensar. Segundo tal tradição, mulheres, povos originários e contemporâneos de outras tradições mentais, animais e homens sem letramento não representam modelos de pensar filosóficos, por não se enquadrarem no design padronizador, pois “sequer filosofam”.

Minha trajetória filosófica nasce do desassossego que esses padrões causam ao pensamento que examina não para reafirmar, mas para abandonar certos modelos do pensar. Quando alguém se dedica a abordar formatos da ética e da justiça para além daqueles padrões favoráveis ao modo filosófico másculo do pensar a serviço do poder, e repensa a justa distribuição dos bens para todos os que são afetados negativamente por tal padrão, naturalmente está excluída da “roda da fortuna”, no sentido da roda de favorecimentos, facilitamentos e benefícios calculados somente para quem reforça o padrão moral masculista (no sentido de reafirmação do padrão másculo) que a filosofia, a ciência, a religião, a economia, o direito e até mesmo as artes tradicionais fomentam. Ao reconhecer que a justiça do modelo liberal tocou seus limites e ao mesmo tempo vivencia seu estertor com a obra de John Rawls, foi preciso atravessar os portais de todos os que estavam excluídos de tal modelo: as mulheres, os não brancos, os povos de outros ecossistemas naturais (que denominamos animais, omitindo que somos uma entre milhões de outras espécies), os próprios ecossistemas naturais e os sujeitos que os constituem como espécies de naturezas distintas da humana, filosoficamente branqueada por milênios.

Nessa trajetória, a cada puxada de tapete, ao invés de gastar calorias – física, emocional e moralmente – com disputas que previamente designavam vencedores aqueles que tinham a caneta na mão – não importa se eram homens ou mulheres, o padrão dos vitoriosos sempre era o de derrotar quem lutasse por outras formulações –, escolhi criar novos espaços filosófico-críticos de expressão: direitos humanos, direitos animais e direitos ecossistêmicos naturais, que englobei nos estudos sobre a violência, iniciados nos primeiros anos da década de 1990, pioneiro na filosofia brasileira. Esta escolha foi fundamental para não ser derrotada: não disputar espaços estabelecidos de poder no mundo machista e misógino que a filosofia de matriz teocêntrica sempre fez questão de manter, e aceitar o apoio e o carinho de colegas homens não misóginos e dos estudantes ávidos por conhecer autores e dominar conceitos para além dos escolásticos. Criei novos espaços: disciplinas optativas abertas a estudantes de quaisquer áreas, para que os estudantes pudessem ter acesso às temáticas éticas candentes e não apenas às decadentes; grupos de pesquisa que resultavam em publicação de artigos inaugurais, fundamentais para os estudantes que pretendiam seguir para a pós-graduação; cursos de extensão em ética animal, ética feminista e ética ambiental, abertos à comunidade acadêmica e não acadêmica. Foi desse modo que a filosofia como teoria crítica interdisciplinar da sociedade, tema da minha tese de doutorado na Alemanha sobre Max Horkheimer, tornou-se de fato um modo de viver, como dizem ter sido a filosofia de Sócrates, cuja mestra foi Aspásia de Mileto. Toda filosofia moral crítica descende deste ponto fora da curva: do questionamento do que “não está nada bem” na sociedade e no planeta Terra.

 

Suas pesquisas foram pioneiras em muitos temas, como os estudos sobre John Rawls, os estudos críticos feministas e animalistas, os ecofeminismos e suas próprias teorias abolicionistas são exemplos. Como foi "furar a bolha" dos estudos clássicos da filosofia antiga e moderna? Além disso, você acredita que o pioneirismo no contexto de "uma mulher acadêmica" é recebido de uma forma diferente do pioneirismo dos homens? 

Há dois tipos de pioneirismo: um, que mergulha profundamente em uma escola do pensamento e em suas questões, no oceano de tantas, e desse mergulho extrai riquezas antes nunca visibilizadas. Esse tipo de pioneirismo escolástico, no sentido de mergulhar em uma escola do pensar, de modo geral, é o que engalana o fazer masculino na filosofia. Mas tais mergulhos ao fundo dos oceanos em suas águas paradas nunca foram meu forte, antes me teriam sufocado. Escolhi, em acordância com minha alma insatisfeita com injustiças e violências, olhar criticamente a superfície, o plano ou projeto moral no qual nos encontramos, essa superfície borbulhando em desigualdades e brutalidades que me doutrinavam para polir e enfeitar. Muito mais próprio seria desenhar esse segundo tipo de pioneirismo como uma espécie de “furo na grande muralha” para deixar que os raios do Sol penetrassem as profundezas não iluminadas abaixo da superfície. Para tanto, nenhuma filosofia em particular, no sentido de qualquer escola do pensar, pôde oferecer os meios para que novos conceitos fossem elaborados, antigas concepções morais fossem criticadas, e propostas éticas inovadoras fossem postas na pauta filosófica.

Mas de toda filosofia, carrego no meu modo de pensar o legado de Sócrates, entre eles, especialmente, o de sempre manter a consciência de que ainda nada sei de tudo o que preciso dizer, portanto, sempre tenho que seguir na investigação para poder, como pensa Wittgenstein, ter algo a “dizer”, enquanto mantenho viva a memória do que é fazer filosofia crítica: não ter medo de tirar os véus que disfarçam a brutalidade e a desfaçatez do pensar hierárquico colonizador, opressor, padronizador, dos valores que excluem e aniquilam quem não se conforma ao padrão exigido, e a ciência de que o processo de libertação, do qual tratei na dissertação de Mestrado, quando analisei o que é utopia na pedagogia do oprimido de Paulo Freire, é um processo que requer desfazer a trama de nós – valores e conceitos – em nós, antes de partirmos para a quebra do sistema fora de nós, que apenas vira do avesso a mesmíssima forma de seguir impondo o poder masculista a todas as existências, portanto, o poder da opressão.

Para furar essa bolha, é preciso jamais parar de ler, e ter coragem de ler em diversas frentes, não se autoconfinar a um método, a uma doutrina, a um autor, a uma temática, o que considero insistir em mergulhar em águas paradas. Isso apenas oxigena o fundo morto do pensar, mas ao preço de congelar e asfixiar quem pensa manietado por uma camisa-de-força. Na inquietude filosófica, sou grata à Nietzsche, Husserl, Marx, Freud, Sartre, Fanon, Horkheimer, Arendt, Chauí, sem descaso de Aristóteles, Hobbes, Rousseau, Locke, Rawls, Singer, Regan, Ryder, para citar autores fundamentais na construção da teoria ético-política animalista abolicionista.

O pioneirismo filosófico na academia requer, em primeiro lugar, resiliência moral, política e firmeza de propósitos; em segundo lugar, reserva da energia para o debate sobre o objeto de estudos e os desdobramentos de propostas que se delinearem sob a nova concepção. Por isso, quem escolhe propor a abertura de novas janelas para a compreensão do mundo, escolhe, de certa forma, a solidão, embora essa não deva ser confundida com isolamento. Quando expomos o novo pensar, encontramos os muitos outros que também buscam forças para fazer suas mudanças.

 

Depois da aposentadoria sua produção filosófica continua numa crescente inspiradora, e suas pesquisas são publicadas por editora própria. Fale um pouco sobre "ser filósofa fora da academia". Essa situação te trouxe mais liberdade?

Pedi aposentadoria para poder escrever alguns livros cujos esqueletos, por anos, aguardavam em estado embrionário. Na ativa, não sobrava tempo para sua gestação. Antes da aposentadoria, que até hoje não sei do que se trata, pois não parei de trabalhar uma semana sequer, estive vinculada como pesquisadora à bolsa do CNPQ.

Quando terminei o projeto de investigação do alcance e limites da teoria da justiça de John Rawls, no final da década de 1990, decidi que deveria mergulhar no que faltava àquela teoria: o aporte à justiça para as mulheres e para os animais das outras espécies, temas dos quais Rawls não se ocupou, por considerar que se o seu modelo de justiça fosse viável para os sujeitos representativos homens, então mulheres, crianças, pessoas diversas, animais e ecossistemas naturais estariam amparadas sob aquele guarda-chuva másculo. Naquele momento, em conversa com um dos professores com muito poder de decisão sobre concessão de bolsas do CNPq, ao revelar que entraria no estudo da ética e da justiça animal, fui avisada que se saísse de Rawls, daquela escola teórica da justiça política, voltada para os propósitos antropocêntricos, dificilmente obteria bolsa para a temática dos animais.

De fato, fiz outras inscrições para receber bolsa, mas as três foram negadas por meus próprios colegas da área da Ética que faziam parte do Conselho do CNPq. Sempre a consideração era de que o projeto era relevante, mas não haveria grana para subsidiar nada nessa direção. Desisti? Não. Escolhi subsidiar, desde o final dos anos 1990, todos os projetos eu mesma. Por isso, ao pedir a aposentadoria da função da docência e orientação na UFSC, em 2008, com 39 anos de magistério, do ensino fundamental ao universitário, eu já estava bem escolada em como pesquisar, pagando por conta própria os custos da pesquisa. Sem a carga horária do ensino e da orientação, pude, finalmente, dedicar-me a escrever o que precisava ser escrito no Brasil, para facilitar o acesso às teorias ainda não traduzidas para o português, a quem se dedicasse à questão dos animais, à questão ecoanimalista feminista e à questão dos ecossistemas naturais.

Ao me liberar das atividades acadêmicas, pude aceitar dezenas de convites para palestras sobre a temática animalista apresentada nos livros: Por uma questão de princípios: alcance e limites da ética de Peter Singer em defesa dos animais (2003); Ética e experimentação animal: fundamentos abolicionistas (2007); Galactolatria: mau deleite (2012); Acertos abolicionistas: a vez dos animais (2014); Carnelatria: escolha omnis vorax mortal (2018) e, o mais recente, Animais na trama abolicionista: nós supremacistas (2024). Nesta obra mais recente desenvolvo duas questões relevantes para a ética e a filosofia política animalistas: a primeira diz respeito ao modo como filosofo, o que chamo de crítica da trama de nós em nós, e a segunda diz respeito à investigação da matriz cognitiva e moral violenta que conduz os seres humanos ao gozo fascista, ao gozo do extermínio de tudo que não espelha a modelagem considerada digna de existência e respeito, a começar pela aparência, pelo aspecto, pelo que chamo de design, o que configura o desígnio, tanto da existência dos humanos quanto da existência de animais com outros formatos e propósitos para muito além daquilo que consideramos ser seu destino ou instinto, úteis aos humanos. Essas duas questões, diretamente umbilicadas à violência, foram muito fortes nos quase 40 anos, desde que iniciei a pesquisa sobre a dor, o sofrimento e o aniquilamento da vida dos animais mortos para experimentos, diversão, moda, cosmética e comilança, na esteira dos estudos sobre a violência contra humanos, nos anos 1990, dos quais resultaram a publicação, em coautoria com Jeanine N. Philippi, de O corpo violentado: estupro e atentado violento ao pudor; e A violência das mortes por decreto, ambos editados pela Edufsc, em 1998.

Do desprezo ativo (zoofobia neologismo criado para designar tal desprezo), por isso, violento, à singularidade e ao valor inerente à vida dos outros animais, nasce a matriz cognitiva especular especista (no sentido do que espelha). Desumanizamos os outros animais, por serem de outras espécies biológicas, como recurso para termos um molde para desumanizar humanos que abandonamos a condições que vulnerabilizam sua constituição animal. Essa modelagem violenta se replica nos regimes fascistas como projeto necrófilo de Estado, na mesma linguagem que primeiro desumaniza para em seguida exterminar. A violência especista enraizou-se em todas as demais formas de discriminação praticadas por sociedades que não se conformam em conviver com quem tem aparência e propósitos próprios, distintos e não servilientes à padronagem do viver, do pensar e da expressão dos dominadores. Temos aí a força da correnteza moral violenta que nos arrasta para a naturalização do escravismo, do racismo, do machismo, da misoginia, da xenofobia: a discriminação violenta que derrota e degola os animais indefesos e a dizimação dos ecossistemas naturais que os animais criam para poder viver sua vida em contentamento.

 

Uma das suas características que admiro profundamente é o evidente compromisso da "Filosofia como práxis". Como sua identidade foi construída junto da sua formação filosófica? E qual o papel da filosofia na construção de um mundo mais justo?

Para mim, filosofar é dar sentido ou propósito à existência, reconhecendo nela um valor que está muito além da utilidade, da propriedade, da serviliência. Isso indica um traço forte de autonomia e liberdade de expressar-se, entendendo por expressão não meramente o ato da fala, mas, principalmente, a trama de atos que tornam uma existência irrepetível, singular, e desenham seu perfil biográfico. Na rota por mudanças, o que dá sentido à existência não são os limites nos quais fomos moldados, e, sim, o propósito de traçar um novo desígnio para o que parece moralmente petrificado em nós. Em vez de apontar o dedo culpando os outros, seja a tradição ou a sociedade, pelas próprias frustrações (narcisismo individual maligno, na teoria de Eric Fromm), talvez a grande batalha da existência seja a luta sem fim por colocar nosso ego nos limites nos quais ele tem papel central, e fazer as mudanças que ajudam os demais seres vivos a respirarem em paz e seguirem, com autonomia e liberdade, os propósitos da vida para a qual nasceram.