Nota de pesar pelo falecimento de Edgar Morin
31/05/2026 • Notas e Comunicados
Na última sexta-feira, 29/05, faleceu David-Salomon Nahoum, aos 104 anos, nome de registro do sociólogo e filósofo Edgar Morin. Nascido poucos anos depois do fim da primeira guerra mundial, vivenciou ao longo de sua longa e fecunda vida os acontecimentos mais marcantes da França e do mundo em vários campos: na política, nas ciências, na tecnologia, na vida pública. O nome pelo qual ficou conhecido, seu sobrenome adotivo, Morin, era de fato seu codinome como maquis, membro da resistência francesa, de que participou desde 1941 até o fim da segunda guerra.
Intelectual com ativa participação na vida acadêmica, entre outras importantes atividades, foi professor da Universidade de Paris VIII e Diretor de Pesquisa do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique) de 1970 a 1993. No Brasil, Edgar Morin exerceu profunda influência nos meios acadêmicos, tendo sido várias vezes convidado para ministrar conferências, inclusive para o lançamento e divulgação de suas obras traduzidas para o português. Na política institucional, foi adido do governo francês na Alemanha em 1946 e, entre muitas outras atividades, foi convidado pela UNESCO a elaborar uma proposta para renovar as instituições educacionais, a qual foi publicada posteriormente sob o título Sete saberes necessários para a educação do futuro. Como ativista político, além de fazer parte da resistência francesa, foi em sua adolescência membro da organização Solidariedade Internacional Antifascista e, já na maturidade, posicionou-se como defensor da criação do Estado Palestino e crítico da política segregacionista promovida contra palestinos pelo Estado de Israel. A respeito da questão, publicou no Le Monde, em co-autoria com Sami Nair e Daniele Sallenave, o artigo intitulado Israel-Palestina: o câncer. Nesse artigo, apontam: “Esse câncer israelo-palestino se formou, por um lado, alimentando-se da angústia histórica de um povo perseguido no passado e de sua insegurança geográfica; por outro lado, pela desgraça de um povo perseguido no presente e privado de direitos políticos”, diagnóstico cuja pertinência e precisão tristemente permanecem até hoje.
Não menos importante foi a prolífica produção intelectual de Edgard Morin. Merece especial destaque uma de suas principais obras, O Método, a qual constitui um estudo exaustivo sobre noções como ordem e desordem, informação, sistema, vida, conhecimento, as quais passaram a ser tratadas a partir de uma epistemologia da complexidade. Tal epistemologia procura destacar as relações de interdependência entre as várias áreas do conhecimento, a superação, portanto, de fragmentações artificiais dos objetos da investigação científica e a busca por um vocabulário comum que permita a comunicação entre as várias áreas do saber. Na obra, Morin procura, com afinco, conciliar as duas culturas, no sentido proposto por Charles P. Snow, mostrando a importância do diálogo inter e transdisciplinar de modo que cientistas humanos e sociais se deem conta da possível relevância da Segunda Lei da Termodinâmica para seus estudos e os físicos e engenheiros não menosprezem a importância da literatura e da ética para o bom exercício em seus campos de atuação.
Com seu falecimento, a comunidade humana perde uma pessoa cuja conduta e ensinamentos são exemplos de benevolência e sabedoria. Edgar Morin não será esquecido.
Diretoria Anpof