Nota de reconhecimento - Susan Haack, Senhora das Distinções
17/03/2026 • Notas e Comunicados
por Gisele D. Secco e Evelyn Erickson
Coletivo Lógicas Brasileiras
Susan Haack (1945-2026) foi uma filósofa britânica reconhecida mundialmente por seus trabalhos em filosofia da lógica, epistemologia, tradição pragmatista e filosofia do direito. Educada em Oxford e Cambridge, onde estudou com G. Ryle, M. Dummett e D. Pears, atuou como professora no New Hall (hoje Murray Edwards College) e na Universidade de Warwick, e em 1990 radicou-se nos Estados Unidos, onde passou a ensinar no Departamento de Filosofia da Universidade de Miami. Quando de seu falecimento, há alguns dias, ela conservava a posição de professora na Faculdade de Direito (desde 2000) e Professora Distinta de Humanidades (desde 2006). A Professora Haack visitou a América Latina e o Brasil em diversas ocasiões ao longo de sua carreira, tendo conquistado a admiração de inúmeros membros de nossa comunidade, pelo rigor e pela graciosidade de seu temperamento intelectual e pessoal.
Seus primeiros livros foram sobre lógica e sua filosofia. Em Deviant logic, Fuzzy Logic, ela abordou, de um modo mais diligente do que Quine, as consequências filosóficas de algumas lógicas alternativas à clássica. Já em Filosofia das lógicas, escrito em fins dos 1970 e publicado no Brasil em 2002, ela oferece um panorama mais amplos e ainda relevante para estudantes – embora estudos contemporâneos em filosofia da lógica devam ser atualizados para contemplar a crescente diversificação do campo. Em 1993, publicou Evidence and Inquiry: A Pragmatist Reconstruction of Epistemology, onde apresenta sua robusta contribuição à epistemologia, o funderentismo – que critica o fundacionalismo e o coerentismo, e na qual populariza a metáfora da investigação científica como um jogo de palavras-cruzadas. (Para aprender sobre o funderentismo em português, ver Jurkoviski 2025)
Nos anos 2000, publica uma coletânea, traduzida ao português em 2011, o Manifesto de uma moderada apaixonada: ensaios sobre a moda irracionalista. Nestes textos, Haack dá continuidade à sua minuciosa crítica ao neopragmatismo chefiado por Richard Rorty – sobre a qual temos em português o artigo “À espera de uma resposta: o processo desordenado de tatear a verdade” – e apresenta sua crítica às epistemologias feministas. Em 2011, publica Defending Science – Within Reason: Between Scientism and Cynicism [traduzido ao português como Defendendo a Ciência – dentro do razoável: Entre o Cientismo e o Cinismo] e em 2013 outra coletânea de ensaios, Putting Philosophy to Work: Inquiry and Its Place in Culture – Essays on Science, Religion, Law, Luterature, and Life – [Colocando a Filosofia para Trabalhar: A Investigação e seu Lugar na Cultura: Ensaios sobre Ciência, Religião, Direito, Literatura e Vida] sem tradução ao português. De 2014, Evidence Matters: Science, Proof, and Truth in the Law foi traduzido em 2025 como Justiça, Verdade e Prova: ensaios de epistemologia jurídica. Uma lista mais completa de suas publicações pode ser encontrada em sua página na rede PhilPeople.
A obra filosófica de Haack é bem reconhecida no Brasil – talvez mais do que em outros países do chamado centro anglófono analítico. No que diz respeito à filosofia das lógicas, a razão é simples: em nosso território as lógicas não-clássicas florescem com uma intensidade ímpar, sendo-lhe um terreno fértil. Sua epistemologia é amplamente estudada entre nós – sempre com interesse, nem sempre com concordância. Esse último ponto, longe de ser uma ressalva, é um sinal de que seu pensamento nos interpela.
Em um texto autobiográfico publicado na revista Cosmos + Taxis num volume que reúne memórias de seus interlocutores, Haack não esconde os dissabores de sua trajetória acadêmica: não foi bem recebida pelos epistemólogos analíticos, nem pelas epistemólogas feministas, nem pelos neopragmatistas. Ela, afinal, se recusava a afiliar-se a qualquer campo. Esta independência intelectual teve seu preço, especialmente para alguém que se dizia desinteressada em jogar pelas regras tácitas dos espaços acadêmicos. Esse isolamento relativo, porém, não foi passividade: foi a condição de uma filosofia que preferiu a intempérie à acomodação.
É amplamente conhecida a tensão entre Haack e as epistemologias feministas. Mas vale precisar que Haack engajou, publicamente, em severa discordância. Ela leu, citou e respondeu às filósofas feministas – algo que os analíticos mainstream raramente se deram ao trabalho de fazer. Mesmo em desacordo, Haack foi uma interlocutora de boa-fé: sua crítica forçou outras filósofas a refinarem seus argumentos e lhes deu oportunidade de fortalecer suas posições. Esse tipo de engajamento sério, ainda que polêmico, tem um valor que não deve ser subestimado – e que muitas vezes se perde quando o debate filosófico não frui ou se alinha em mera concordância. (Para um panorama das críticas de Haack e as respostas que recebeu ver Missagia Vaccari 2022)
Gostaríamos de reconhecer, também, a resistência de Haack num ambiente machocentrado como o da lógica e da epistemologia analítica. Ela se fez conhecida e reconhecida a despeito de tudo que sabemos – e sentimos – sobre o que significa ocupar esse espaço. O fato de que muitos discordam dela – tanto feministas quanto lógicos e analíticos – a valoriza mais do que a detrai: ela resistiu contra gregos e troianos, e seguiu produzindo e publicando por décadas. Sua longa carreira é inspiradora. Reconhecemos Haack por sua integridade, seriedade e resiliência no espaço filosófico analítico – qualidades que ela demonstrou tanto na teoria quanto na prática.
Ao final de sua carreira, Haack denunciou práticas predatórias de publicação acadêmica e reconheceu a crise de qualidade, de direitos autorais e de critérios de avaliação de artigos. Nisso vemos também sua força metafilosófica: as condições do filosofar também constituem um problema filosófico. E nisso ela nos deixa mais um exemplo, pois integridade intelectual não se exerce apenas na transmissão de ideias, mas na discussão sobre as condições sob as quais circulam.
Com sua passagem, para que sua filosofia seja não esquecida, mas valorizada, começa um trabalho que nos cabe: o historiográfico. Desejamos que suas ideias continuem sendo lidas, comentadas, contestadas, e reconhecidas como suas. Que Haack siga como referência, e que ocupe também um novo espaço, na história da filosofia analítica em chave de gênero. Que a fineza de suas distinções e a originalidade de sua filosofia talvez levem tempo para receber o devido reconhecimento seria uma ironia à sua altura.