A ANPOF, o ensino de filosofia e o mestrado profissional

Filipe Ceppas

05/05/2020 • A ANPOF e o Ensino Médio

Instituio PPGF-UFRJ Como professor e pesquisador de filosofia que participa da organizao da segunda edio da reunio da ANPOF-Ensino Mdio, apresento algumas consideraes sobre a importncia deste evento e a proposta de criao de um PROF da Filosofia. Em primeiro lugar, entendo que a iniciativa da criao de um evento dedicado filosofia no Ensino Mdio, ocorrendo junto com o Encontro bianual da ANPOF e organizado por esta associao, foi extremamente salutar e necessria, para alm do sucesso junto aos seus participantes e pblico alvo principal, os professores de filosofia do Ensino Mdio. Salutar, por possibilitar que o tema do ensino de filosofia ganhe uma maior projeo na comunidade acadmica, convidando-a para um amplo debate acerca das diversas questes a envolvidas. Necessria, porque estamos experimentando mudanas na estrutura e no funcionamento dos departamentos de filosofia que tm direta relao com o ensino de filosofia na Educao Bsica. Com a reforma das licenciaturas (regulamentada pelos pareceres CNE/CP 009/2001 e 27/2001, e pelas Resolues CNE/CP 1 e 2, de 18 e 19 de fevereiro de 2002), as universidades e seus departamentos vm, desde meados da dcada passada, adaptando-se a uma srie de exigncias legais, sendo a mais importante delas a ?dupla entrada?. Hoje os estudantes tm que optar por bacharelado ou licenciatura na entrada. Mudou tambm o ?desenho? do curso de licenciatura: acaba o famigerado esquema ?3 + 1? (trs anos de formao na rea, praticamente igual do bacharel, complementados com um ano final de formao pedaggica), de modo que os licenciandos podem e devem, desde o incio de seus estudos universitrios, ter uma formao filosfica indissocivel de sua formao pedaggica. Isso permite a construo de uma identidade profissional em que haja o dilogo contnuo e profcuo entre a pesquisa filosfica e as questes do ensino de filosofia. Sobre este ltimo ponto, vale destacar a virtude propriamente filosfica da indissociabilidade entre pesquisa e ensino. A ?transmisso da filosofia? uma questo ?clssica? da tradio filosfica. Desde Herclito, Pitgoras ou Scrates, passando por Plato, Aristteles, Montaigne, Rousseau, Kant, Hegel e tantos outros, as questes da relao mestre-discpulo e do sentido do discurso filosfico na plis so fundamentais, e no meramente marginais, prpria estrutura do pensar filosfico. Para justificar esta afirmativa, parece suficiente mencionar o fato de que Kant encerra sua obra maior, a Crtica da Razo Pura, com longas e importantes consideraes acerca da transmisso e do aprendizado da filosofia. Assim, seja por exigncia legal, seja pelo reconhecimento terico de sua importncia, o fato que todos ns, que fazemos parte de departamentos e programas de ps-graduao de filosofia em nosso pas, somos convidados a pensar e nos posicionar acerca de uma questo que, para muitos, pode parecer de certo modo ?marginal? pesquisa ?propriamente filosfica?: a formao do estudante de filosofia voltada tambm para a docncia. Enfatizo o ?tambm?, porque todo e qualquer posicionamento responsvel frente ao tema em questo parte do princpio de que a formao do licenciando no pode ser menos ?rigorosa?, menos ?acadmica?, do que a formao do bacharel. Essa questo no diz respeito ps-graduao apenas porque se trata do mesmo corpo docente que o da graduao, mas, antes, porque grande parte dos egressos da licenciatura sero os ps-graduandos de amanh. Atualmente, muitos ps-graduandos so tambm professores no Ensino Mdio. Cresce a demanda por pesquisas de ps-graduao sobre questes relacionadas ao ensino de filosofia, enquanto pesquisas acadmicas, tericas, tal como se estuda um aspecto da filosofia de Spinoza ou qualquer tema filosfico. Foi-se o tempo em que se podia dizer, sem constrangimento, que ?os melhores vo para a pesquisa e os piores para a licenciatura?. O que no significa negar a necessidade de mestrados profissionais que acolham pesquisas de tipo mais ?aplicado?, ou prtico, nem minimizar a importncia da existncia de bacharelandos com maior aptido e/ou estmulo para a pesquisa acadmica. Mas mesmo estes tambm tm, em sua maioria, a perspectiva profissional da docncia na graduao e devero se confrontar com as diversas questes trazidas pelo fortalecimento da licenciatura e pelas recentes polticas do MEC. Com relao a estas polticas, programas como PIBID, PIBID-Ensino Mdio, PARFOR, Mestrados profissionais, entre outros, embaralham a percepo confortvel de uma ntida diviso entre um ?universo da pesquisa em ps-graduao? e um ?universo do ensino?. Sabemos o quanto essa j uma questo sensvel para a prpria graduao. As questes relativas transmisso/ensino/aprendizado da filosofia na graduao (bacharelado e licenciatura) tm direta relao com as condies para a realizao de pesquisas de qualidade em nvel de ps-graduao. Por tudo isso, as questes relativas formao de professor no so questes menores para os professores-pesquisadores da ps-graduao. Comprova-o o fato de que diversos projetos voltados para a formao de professores sejam atualmente promovidos pela prpria Capes, e que as avaliaes do MEC venham valorizando o compromisso dos departamentos com a licenciatura. Essa uma orientao que comeou, tmida, na dcada de 1990, com o Estgio Docncia, e que programas atuais ajudam a consolidar. Pode-se discordar dessa ?orientao?, mas, enquanto ela a estiver, no podemos fugir ao debate quanto aos mais diversos impactos que esses projetos tm na organizao do trabalho acadmico. Vale dizer, a questo fundamental das relaes entre ps-graduao e Educao Bsica reside na ateno que todos devemos ter para com a complexa rede de ensino e pesquisa na qual a universidade se inclui, dado que as prprias existncia e finalidade de uma rede consolidada de programas de ps-graduao so parte desta rede maior. preciso levar em conta o debate sobre o investimento na Educao Bsica como condio necessria para a construo de uma sociedade mais justa e solidria. Ao interesse propriamente filosfico que uma tal questo desperta alia-se a sua dimenso instituicional. A pesquisa filosfica na ps-graduao depende diretamente de um sistema complexo, repleto de regras, polticas de financiamento, investimentos e expectativas, em disputa com outras prioridades, investimentos e expectativas. J Plato reconhecia a base desse problema na Repblica: qual o lugar da contemplao em meio aos afazeres da plis? Nada disso nos foraria a concluir que a ANPOF ?tenha que? continuar a promover uma ANPOF-EM nos moldes atuais. Se comecei o texto afirmando que a existncia da ANPOF-EM foi uma iniciativa salutar e necessria porque acredito que em algum lugar o debate deveria comear a tomar maior destaque e amplitude. Mas suspeito que, se esta iniciativa gera desconfiana, esta no uma desconfiana relativa a um ?desvio de funo? da ANPOF, por ser uma associao de programas de ps-graduao, que sequer acolhe graduandos com suas monografias e pesquisas de PIBIC. Sem dvida, assim como estes, os professores da Educao Bsica tm seus prprios fruns e eventos. Mas no seria por isso que a ANPOF deixaria de dar uma ateno especial questo do ensino de filosofia. Suspeito que as eventuais resistncias ANPOF-EM, que acredito serem residuais, se devem, antes, a que alguns colegas consideram inapropriado o prprio ensino de filosofia na Educao Bsica. Para alguns, a Educao Bsica (mesmo o Ensino Mdio) deve priorizar o portugus e a matemtica. Acrescente-se a essa tese a hiptese de que o jovem no teria maturidade suficiente para aprender filosofia. Discordo dessas teses, com base na experincia e nas pesquisas realizadas pela comunidade acadmica, ressaltando a importncia que outras reas, sobretudo o ensino de lngua portuguesa, reconhecem no ensino de filosofia na escola. Todos ns, envolvidos com o ensino de filosofia na escola, temos debatido essas questes exausto e continuaremos a debat-las. Reputo extremamente saudvel que a discusso sobre esses temas ganhe consistncia, para alm da mera opinio avulsa e, por vezes, de carter meramente ideolgico. Defendo que a filosofia um componente curricular saudvel e necessrio na Educao Bsica em diversos sentidos (incluindo o auxlio no desenvolvimento da leitura, da escrita e do clculo). 0 false 18 pt 18 pt 0 0 false false false /* Style Definitions */ table.MsoNormalTable {mso-style-name:"Table Normal"; mso-tstyle-rowband-size:0; mso-tstyle-colband-size:0; mso-style-noshow:yes; mso-style-parent:""; mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; mso-para-margin-top:0cm; mso-para-margin-right:0cm; mso-para-margin-bottom:10.0pt; mso-para-margin-left:0cm; mso-pagination:widow-orphan; font-size:12.0pt; font-family:"Times New Roman"; mso-ascii-font-family:Cambria; mso-ascii-theme-font:minor-latin; mso-fareast-font-family:"Times New Roman"; mso-fareast-theme-font:minor-fareast; mso-hansi-font-family:Cambria; mso-hansi-theme-font:minor-latin;} Por tudo isso, entendo que a criao de um PROF da Filosofia nada tem a ver com a continuidade ou no da ANPOF-EM. Considero perfeitamente pertinente a existncia de uma rede nacional de mestrados profissionais de filosofia, voltada para atender demanda de pesquisas centradas em questes pedaggicas, metodolgicas, didticas. Mas a ANPOF-EM um espao em que a ANPOF ajuda a promover e ampliar o necessrio debate em torno do ensino de filosofia na Educao Bsica, possibilitando um contato qualificado da comunidade da ps-graduao de filosofia com os trabalhos de professores de filosofia da Educao Bsica, independente de vnculo institucional destes com a ps. Um debate que no se restringe aos aspectos prticos do ensino de filosofia na Educao Bsica, mas que tem ainda, como tentei argumentar acima, conexo direta com o trabalho e as polticas dos departamentos e programas de ps de filosofia. Enfim, quando a ps-graduao de filosofia, atravs de sua associao, assume o compromisso com o aperfeioamento do sistema de ensino desde a sua base, no vejo como no felicit-la e apoi-la por isso, torcendo para que a ANPOF-EM permanea como parte integrante e regular da programao de suas reunies bianuais.