PROF EM FILOSOFIA

Antonio Edmilson Paschoal

05/05/2020 • A ANPOF e o Ensino Médio

Instituio Universidade Federal do Paran Tomo a liberdade de apresentar algumas consideraes sobre o ensino de filosofia no Ensino Mdio, tendo em vista as reaes da ANPOF frente aos desafios surgidos naquele nvel de ensino e os atuais desafios que ele apresenta e, em especial, aqueles relativos formao continuada dos professores de filosofia que atuam nele. Particularmente, mesmo considerando os problemas enfrentados pelas instituies de ensino superior em especial aqueles relativos rea de humanas e outros prprios dos cursos de filosofia, eu acredito que, no geral, estamos vivendo um momento privilegiado para a filosofia no pas. No apenas o nmero de programas de ps-graduao em filosofia aumentou consideravelmente, como tambm vem aumentando o nmero de programas considerados consolidados pela CAPES. De fato, mais do que um quadro geral da ps-graduao, conforme entendo, esseindicador designa aquilo que costumamos chamar de rea da filosofia no pas, pois, conforme sabemos, um programa de ps-graduao, no geral, odesdobramento de um bom trabalho de graduao. O prprio conceito de rea, contudo, tem se mostrado cada vez mais abrangente, em especial a partir do momento em que o ensino de filosofia no Ensino Mdio se tornou um fator a ser considerado, obrigatoriamente, diga-se de passagem, na confeco das propostas curriculares da maioria dos cursos de filosofia no pas. Mas a ampliao da noo de rea no se faz apenas pelo fato de que muitos de nossos cursos so de licenciatura e, portanto, devem considerar o ensino de filosofia no Ensino Mdio, mas em especial porque esse novo espao para a filosofia nos traz leitores, interlocutores e desafios. Desafios didticos, ao certo, acadmicos, em grande parte, mas, especialmente, o desafio de repensar a prpria rea e suas formas de representao. At o momento, os documentos de rea, assim como as OCEM (Orientaes Curriculares para o Ensino Mdio) e as deliberaes relativas ao ENADE, para citar alguns exemplos, se mantiveram um discurso unssono no que se refere ideia de uma rea de filosofia que preserve qualidade, enfatizando, para isso, por exemplo, a emblemtica exigncia de uma ?slida formao em histria da filosofia? em todas os seus domnios. O que significa, na prtica, no separar, a partir do fator identidade, a licenciatura do bacharelado, como se a licenciatura fosse um curso de segunda linha e a preocupao com o ensino desvinculada do debate filosfico em geral. No que se refere representao da rea, lembrando que no temos sociedades cientficas amplas e abrangentes no pas, assim como no temos uma associao de filosofia em geral de alcance nacional, a nica instituio que cumpre um papel de agremiar interesses da rea a ANPOF, conquanto, por sua origem e estatuto, diga respeito ps-graduao em filosofia e no rea em geral. Para alm, contudo, dessa designao de origem, o fato que a ANPOF tem assumido, historicamente, um papel importante naquela lacuna relativa a uma representao de rea e a um espao de discusso da rea no pas. Foi o que ocorreu, por exemplo, quando a Diretoria de Ensino Mdio do MEC reconheceu na ANPOF uma abrangncia para alm de seu estatuto e solicitou a ela representantes para o debate sobre os Parmetros Curriculares Nacionais (PCN), nos anos de 2004 a 2006. Um debate que resultou tanto na redao de uma avaliao crtica tanto dos PNC quanto das OCEM. Vale dizer, ainda, que foi um representante indicado pela ANPOF que redigiu a minuta do documento que foi aprovado pelo CNE concretizando, pela primeira vez, em 2006, o retorno da filosofia no Ensino Mdio com disciplina obrigatria. Uma proposta que, posteriormente, culmina com a alterao do artigo 36 da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educao nacional, para incluir a filosofia e a sociologia como disciplinas obrigatrias nos currculos do Ensino Mdio. O mesmo envolvimento de nossa associao se verificou, entre outros exemplos, no acompanhamento dos PNLD (Programa Nacional do Livro Didtico) e, de forma especial, na criao de um espao que j se convencionou chamar de ANPOF-EM, no Encontro da ANPOF, destinado especialmente ao debate sobre o ensino de filosofia, suas peculiaridades, desafios e dificuldades especialmente no Ensino Mdio. O mesmo que se tem hoje, quando a formao continuada dos professores de filosofia no Ensino Mdio se torna um desafio para a rea especialmente quando associado a uma proposta de abrangncia nacional como o caso de um PROF de filosofia. Neste ponto, creio que j perceptvel o propsito que move minhas consideraes e o que pretendo acrescentar ao debate: primeiro, que a ideia de que o debate sobre um PROF em filosofia, que diz respeito ao conjunto da rea de filosofia, deve ocorrer precisamente como um tema relativo rea e no a alguma iniciativa isolada, como seria a proposta de qualquer outro programa de ps-graduao; segundo, que esse debate deve ter lugar no mbito da ANPOF, enquanto uma instituio que representa, na sua forma mais abrangente, os interesses da rea. Nesse sentido, retomo as ponderaes de Filipe Ceppas, apresentadas nesta pgina no dia 27 de julho, concordando com sua afirmao de que ?a questo fundamental das relaes entre ps-graduao e Educao Bsica reside na ateno que todos devemos ter para com a complexa rede de ensino e pesquisa na qual a universidade se inclui?. Do mesmo modo, concordo com sua afirmao de que ?a criao de um PROF da filosofia nada tem a ver com a continuidade ou no da ANPOF-EM? sendo ?perfeitamente pertinente a existncia de uma rede nacional de mestrados profissionais de filosofia?. Nesse sentido, contudo, saliento que, em especial neste momento, no se tem em vista uma ?rede nacional de mestrados profissionais?, mas um mestrado profissional em rede nacional , o que uma ideia que pode se desvincular da ANPOF-EM, mas no da ANPOF, enquanto uma representao consolidada dos interesses da rea quando eles ganham contornos nacionais. A nfase que dou em manter a ANPOF como frum de debate corrobora ainda outro aspecto pontuado pelo professor Filipe Ceppas, que no se mostra favorvel divisoentre ?pesquisa e ensino?, lembrando, como faz o colega, que a ?transmisso da filosofia? uma questo ?clssica? da tradio filosfica. Retomo tambm as proposies do professor Eduardo Barra, postadas em 24 de julho, que favorvel ao envolvimento da ANPOF na criao de um PROF de filosofia, reivindicando para isso, o carter nacionalmente abrangente da ANPOF como condio de sucesso desse tipo de iniciativa e tendo em vista que, neste momento, a coordenao do PROF dever ficar a cargo de uma instituio, tornando-se o espao da ANPOF um frum para o debate que deve culminar inclusive nessa coordenao, conferindo a ela a credibilidade desejada. Por fim, retomo algumas proposies do professor Nythamar de Oliveira que acentua em suas ponderaes, de 12 de agosto, a indissociabilidade entre ensino e pesquisa e entre o Ensino Mdio e o Ensino Superior no apenas no sentido de ?ampliar a comunidade filosfica de maneira numrica, mas sobretudo para qualificar definitivamente o ensino pblico em seu potencial lgico-argumentativo, crtico-analtico?. Acentuando ainda a importncia do fomento estratgico de programas de mestrado profissional em ensino de filosofia e lembrando que trata-se de algo proposto pelo professor Danilo Marcondes, quando coordenador da rea na CAPES. Estas consideraes, recorrendo ao itinerrio percorrido pela ANPOF e tendo em vista os passos do debate que ganha forma na postagens de outros colegas, realam, portanto, a importncia da ANPOF como o frum privilegiado para o debate acerca do PFOF de filosofia. Uma tema que, no momento, apresenta mais dvidas do que respostas, como fica claro pela postagem do professor Eder Soares, da UEL, e que, justamente por isso, pelas respostas que exige, nem sempre tcnicas, mas polticas, necessita da legitimidade que nossa representao como uma associao pode conferir. Curitiba, 05 de setembro de 2014 Antonio Edmilson Paschoal - UFPR