"FEMINISMOS NA SALA DE AULA: TEORIA E PRÁTICA"

Tessa Moura Lacerda

10/03/2021 • Feminismos na sala de aula

“Quando nossa experiência vivida da teorização está fundamentalmente ligada a processos de autorrecuperação, de libertação coletiva, não existe brecha entre teoria e prática.” bell hooks, “A teoria como prática libertadora”. IN: Ensinando a transgredir. A educação como prática da liberdade. (São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017, p.85-86)

Muitas vezes ouvi Marilena Chaui, minha professora, falar sobre o verdadeiro ato de ensinar (1). Marilena afirma, retomando uma passagem de Merleau-Ponty que faz referência à metáfora empregada por Hegel segundo a qual não se ensina a nadar pela leitura de manuais, que o verdadeiro professor não diz ao aluno “faça como eu”, mas “faça comigo”. O diálogo que se estabelece no convite, “faça comigo”, não é entre o professor e o aluno, mas, com a mediação do professor, entre o aluno e o saber, as águas que precisam ser enfrentadas e que acolhem e ameaçam o estudante. Só ao final do percurso o estudante pode dialogar com o antigo professor, agora seu par.

O que é o espaço, o cenário, e a temporalidade que se estabelece dentro de uma sala de aula? Ensinar, afirma bell hooks, “é um ato teatral”. E completa: “é esse aspecto do nosso trabalho que proporciona espaço para as mudanças, a invenção e as alterações espontâneas que podem atuar como catalisadoras parta evidenciar aspectos únicos de cada turma.”(2) Gostaríamos de refletir um pouco sobre a maneira como as filosofias e as práticas feministas podem ser aliadas poderosas na docência em Filosofia, e não apenas de um ponto de vista teórico – permitindo, por exemplo, uma reflexão sobre o cânone filosófico, sobre a reescritura do cânone, sobre a história que narramos quando ensinamos História da Filosofia – , mas também, e talvez sobretudo, de um ponto de vista essencialmente prático – é o espaço da sala de aula que se cria e se recria como uma comunidade única produtora de um conhecimento coletivo.

Não queremos com isso dizer que os Feminismos são necessariamente filosofias libertárias e revolucionárias – bell hooks já nos alertou para essa ilusão quando questiona o feminismo acadêmico feito principalmente por mulheres brancas que reproduzem modelos de dominação, em lugar de questioná-los e se legitimam “aos olhos do patriarcado dominante”(3) , mas solapam os movimentos feministas: “Muitas vezes, as pessoas que empregam livremente certos termos – como ‘teoria’ ou ‘feminismo’ – não são necessariamente praticantes cujos hábitos de ser e de viver incorporam a ação, a prática de teorizar ou se engajar na luta feminista.” (4) bell hooks mostra a mudança profunda que as mulheres negras produziram na teoria feminista que estava tão distante das experiências vividas por tantas pessoas:

“os esforços das mulheres negras e de cor para desafiar e desconstruir a categoria ‘mulher’ – a insistência em reconhecer que o sexo não é o único fator que determina as construções de feminilidade – foram uma intervenção crítica que produziu uma revolução profunda no pensamento feministas realmente questionou e perturbou a teoria feminista hegemônica produzida principalmente por acadêmicas, brancas em sua maioria.”(5)

Se, como sugere Marilena Chaui, a filosofia é um modo de vida6 , as filosofias feministas também são um modo de vida: suas críticas ao patriarcado, ao sexismo e às hierarquias podem implicar uma mudança profunda e um novo modo de ver e estar no mundo e nas relações sociais, e inclusive na sala de aula. Porque quando questionam a suposta naturalidade da diferença entre homens e mulheres, questionam também a naturalidade das opressões. Monique Wittig, como bell hooks, propõe uma crítica feminista ao feminismo, quando sugere que não podemos naturalizar a história – e explicar a diferença entre homens e mulheres pela biologia – sob o risco de naturalizar “os fenômenos sociais que expressam nossa opressão, tornando impossível a mudança.”(7)

As teorias feministas – ou, pelo menos, boa parte delas – questionam a naturalidade do termo “mulher” (de Simone de Beauvoir a Marilena Chaui, de Sojourner Truth a Monique Wittig). E fazem isso de maneiras variadas: podem questionar a construção das imagens de “mulher” ao longo da história (como Beauvoir e Chaui); podem questionar o próprio feminismo e a produção de hierarquia de classes intelectuais dentro da academia (como bell hooks, Monique Wittig, Teresa de Lauretis, por exemplo); podem questionar a centralidade ou, até mesmo, a universalidade que atribuímos a certas epistemologias (como Gayatry Spivak, María Lugones, Yuderkys Miñoso entre outras); podem questionar que o sexismo seja a única forma de opressão das mulheres e afirmar que é preciso considerar também dominação de classe (como Angela Davis, bell hooks Marilena Chaui, Silvia Federici entre outras) e o racismo (como Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Patrícia Hill Collin, Grada Kilomba, bell hooks, Denise Ferreira da Silva e muitas mais); podem questionar a “normalidade” ou a naturalidade do gênero e mostrar o quanto essa normatização das formas de subjetividade pode implicar sofrimentos psíquicos e custar a vida de pessoas ditas “anormais” (como fazem Judith Butler, Paul Preciado, Virgínia Woolf, entre outros). Em ouras palavras, os feminismos – e uso o plural porque não se trata de um discurso único, mas da soma de muitas vozes, que apresentam perspectivas variadas, que nem sempre se harmonizam, o que longe de ser um problema pode ser visto como a riqueza da pluralidade e até mesmo do conflito de perspectivas diferentes – questionam!

Os feminismos questionam e perturbam! E esse questionamento, quando vivido como um afeto – no sentido de Espinosa, que afirma que toda ideia é também um afeto – implica uma transformação profunda daquela e daquele que se aproxima desses questionamentos. Torna-se inevitável questionar as formas variadas de dominação e nossa reprodução automática de formas de opressão. Torna-se imperioso questionar autoritaritarismos e hierarquias. Torna-se vital fazer algo, fazer com que a mudança causada por essas teorias se transformem em ação: não talvez, uma ação revolucionária da História, mas certamente ações cotidianas, revolucionárias em sua escala, e transformadoras de muitas histórias individuais. Foi assim que, depois de mais de uma década de docência, não pude mais entrar na sala de aula, subir no púlpito, pegar o microfone e narrar, para todos aqueles mais de 50 rostos voltados para mim, o que aprendi e estudei por anos, para seduzi-los, como fui seduzida pelos textos. E não pude voltar a fazer isso, não porque essas aulas não produzissem bons resultados, belos textos, orientandos interessados ou, no mínimo, alunos e alunas sabedores de um pouco da filosofia seiscentista a partir do que eu lhes ensinava. Mas porque os textos feministas me mostraram a possibilidade de construção coletiva do saber dentro da sala de aula: desci do púlpito, passamos a nos sentar em roda (mesmo que as vezes uma roda meio torta pela quantidade de carteiras que precisavam ser tiradas de seu lugar), passamos a nos olhar todos e a saber, todos, o nome de cada um. Todos se preparam para a aula com a leitura de um texto que será discutido coletivamente. Meu papel é ouvir, organizar, sintetizar, sugerir caminhos, retomar o que discutimos antes, apontar o que poderemos discutir depois, mas a construção da compreensão de cada texto e das possíveis relações entre os textos é feita por cada turma, em comunidade. Longe de significar um relativismo – porque temos o chão firme do texto nos guiando sempre –, essa nova forma de aula levou e leva alunas e alunos a tomarem a palavra e se apropriarem do saber que construímos juntos. Sim, levo ao pé da letra o que minha professora Marilena Chaui me ensinou, embora eu subverta um pouco o formato da aula que aprendi com meus mestres: convido alunas e alunos não a fazer como eu, mas a fazer comigo!

Os feminismos nos permitem não apenas questionar o cânone filosófico, questionamento que assenta da ideia de que nenhuma narrativa é neutra e tampouco a História, como narrativa, pode ser neutra (como mostrou Gayatri Spivak), mas questionar a maneira como o cânone pode ser apresentado. Por que não convidar filósofas esquecidas pela História da Filosofia canônica para nossa sala de aula, para nossa bibliografia de curso, para o tema que queremos discutir? E por que não convidar, através dos textos feministas contemporâneos, alunas e alunos a construírem o saber coletivamente, dentro do espaço da sala de aula?

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1 Por exemplo, no discurso que fez quando recebeu o título de Professora Emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, em 2017.

2 “Introdução”. IN: Ensinando a transgredir. A educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017, p.21.

3 hooks, b. - A teoria como prática libertadora”. IN: Ensinando a transgredir. A educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017, p.91.

4 hooks, b. - A teoria como prática libertadora”. IN: Ensinando a transgredir. A educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017, p.86.

5 hooks, b. - A teoria como prática libertadora”. IN: Ensinando a transgredir. A educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017, p.88.

6 Chaui, Marilena, Discurso por ocasião do recebimento de título de Professora Emérita da FFLCH-USP, 13 de dezembro de 2017.

7 Wittig, M. – “Não se nasce mulher”. IN: Hollanda, Heloisa B. de, Pensamento feminista. Conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do tempo, 2019 – p.84