A CRÍTICA DE HUME AO ARGUMENTO DO DESÍGNIO

Vol. 1, N. 2 (2004) • DoisPontos

Autor: José Oscar de Almeida Marques

Resumo:

É comum considerar que o chamado argumento do desígnio (o argumento a
posteriori para provar a existência de Deus a partir da ordem e funcionalidade do mundo)
teria sido refutado ou seriamente abalado por Hume. Mas a natureza e o alcance dessa
alegada refutação são problemáticos, pois Hume muitas vezes expressou suas críticas por
meio de seus personagens e evitou assumi-las diretamente enquanto autor. Em vez de
supor que Hume procedeu dessa forma apenas para disfarçar suas verdadeiras convicções e
evitar um conflito com as autoridades eclesiásticas, proponho que sua posição nesse
assunto não é tão categórica como às vezes se supõe, e que os famosos argumentos de Filo
nos Diálogos mostram apenas que é possível que a ordem e funcionalidade do mundo
tenham surgido sem a intervenção de um desígnio consciente, mas não podem por si sós
dar a essa hipótese o mínimo grau de plausibilidade necessário para torná-la digna de uma
séria consideração. De fato, antes da revolução explicativa operada por Darwin um século
depois, ninguém estava realmente em condições de vislumbrar uma alternativa plausível à
atuação de algum tipo de inteligência na geração da ordem e funcionalidade do mundo.

Abstract:

The so-called argument from design (the a posteriori argument to
prove the existence of God from the order and functionality of the world) is
commonly considered to have been refuted or seriously impaired by Hume. But
the nature and scope of this alleged refutation is problematic because Hume often
expressed his criticisms through other characters mouth and avoided to assume
them directly as author. Contrarily to the supposition that Hume proceeded in this
way only to disguise his true convictions and to avoid a confrontation with ecclesiastical
authorities, I propose that his stance on the matter is not, in fact, as
clear-cut as it is sometimes supposed, and that Philos famous arguments in the
Dialogues show only that it is possible for the order and functionality of the world
to have arisen without the intervention of an intelligent design, but cannot by
themselves lend to this hypothesis the least degree of plausibility needed to make
it worthy of serious consideration. In fact, before the explanatory revolution inaugurated
by Darwin a century later, nobody was in position to envisage a plausible
alternative to the operation of some sort or other of intelligence in the generation
of the order and functionality of the world.

 

DOI: http://dx.doi.org/10.5380/dp.v1i2.1934

Texto Completo: https://revistas.ufpr.br/doispontos/article/view/1934/1615

Palavras-Chave: Hume,argumento do desígnio,religião natural,D

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