TRADIÇÃO E MODERNIDADE: VERTENTES INTERPRETATIVAS DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
Edição: Julho-Dezembro: v. 1 n. 52 (2025) • Revista Ideação
Autor: Paulo Cesar de Araújo
Resumo:
Algumas obras possuem a excepcional capacidade de redefinir a compreensão do valor sócio-histórico e crítico de determinadas manifestações culturais e artísticas. É o caso de Eu não sou cachorro, não: música popular cafona e ditadura militar, de Paulo Cesar de Araújo, publicada em 2002 com enorme sucesso junto ao público, chegando à nona edição em 2015. Recorrendo a uma primorosa fonte de pesquisa que inclui extensa bibliografia sobre a história e crítica da música brasileira, depoimentos inéditos de músicos, além da produção discográfica e de textos da imprensa do período do AI-5 (1968 a 1978), o livro de Araújo apresenta duas teses transformadoras. A primeira, desmistifica a ideia de que a chamada “música cafona”, depreciativamente identificada com um público de classe baixa e iletrado, teria sido neutra, alienada ou adesista ao regime militar, em contraste ao notório engajamento oposicionista da MPB, associada a um público universitário e de classe média. A segunda, defende que o desconhecimento dessa relação não é acidental, mas decorre de uma lacuna historiográfica: pesquisadores e formadores de opinião, sob motivações assépticas, autoritárias e excludentes, silenciaram a presença de compositores e intérpretes com os quais parte expressiva da população brasileira se identifica. “Tradição e Modernidade: vertentes interpretativas da música popular brasileira” é o capítulo teoricamente mais emblemático da obra, ao demonstrar que o apagamento da chamada música cafona pela crítica e pela pesquisa histórica se fundamenta em um reducionismo que limita o reconhecimento da música brasileira a duas vertentes interpretativas: a da “tradição”, representada por José Ramos Tinhorão, e a da “modernidade”, por Augusto de Campos. A seguir, disponibilizamos ao público uma versão adaptada em artigo do referido capítulo do livro de Araújo, e cujo tema e alcance para o debate estético ainda são bastante atuais.
Abstract:
Some works have the exceptional capacity to redefine the understanding of the socio-historical and critical value of particular cultural and artistic phenomena. This is the case with Paulo Cesar de Araújo’s Eu Não Sou Cachorro, Não: MúsicaPopular Cafona e Ditadura Militar(2002), a widely acclaimed and popular book that reached its ninth edition in 2015. Drawing on an exemplary research corpus –including an extensive bibliography on the history and criticism of Brazilian music, previouslyunpublished testimonies from musicians, recordings, and contemporary press coverage from the AI-5 period (1968–1978) –Araújo advances two transformative arguments. The first dispels the notion that the so-called “música cafona” (often disparagingly associated with working-class, less educated audiences and glossed as low-brow or kitsch popular music), was neutral, politically disengaged, or broadly supportive of the military regime, in contrast to the well-known oppositional stance attributed to BrazilianPopular Music (MPB), typically linked to middle-class and university audiences. The second contends that this oversight is not accidental but stems from a historiographical lacuna: critics and scholars, motivated by ostensibly objective, authoritarian, and exclusionary impulses, marginalized and silenced composers and performers with whom a sizable portion of the Brazilian public identified. The chapter “Tradição e Modernidade: Vertentes Interpretativas da Música Popular Brasileira” is the book’s most theoretically significant, demonstrating that the erasure of “música cafona” from criticism and historiography rests on a reductionism that confines recognition of Brazilian music to two interpretive perspectives –“tradition” represented by José Ramos Tinhorão, and “modernity” represented by Augusto de Campos.
ISSN: 2359-6384
DOI: https://doi.org/10.13102/ideac.v1i52.12386
Texto Completo: https://periodicos.uefs.br/index.php/revistaideacao/article/view/12386/9979
Palavras-Chave: Música brasileira; História; Vertentes interpretativas; Tradição; Modernidade.
Revista Ideação
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