"Uma História Heroica da Modernidade": comentários sobre o eu impertinente de Josef Früchtl - Parte III "O Eu Híbrido, Nietzsche, Foucault e o Filme de Ficção Científica

Inquietude, v. 4, n. 1 (2013) • Revista Inquietude - Revista dos Estudantes de Filosofia da UFG

Autor: Carla Milani Damião; Edson Lenine G. Prado; Fernando Ferreira da Silva; Peterson Pessoa; Talita Trizoli

Resumo:

Na série de artigos sobre o livro de Josef Früchtl - O Eu impertinente. Uma história heroica da modernidade - apresentados nesta sessão especial da Revista Inquietude pelo Grupo de Estudos Kinosophia, desenvolvemos a exposição das divisões internas da obra relativa a três camadas da modernidade. O propósito geral do autor se apresenta como uma observação crítica das teorias de Habermas, Lyotard e Derrida no tocante ao tema da subjetividade moderna e busca como base de sua justificação a ideia hegeliana de subjetividade ambivalente, uma ideia recomposta por Adorno como o “Eu declinante”, marcada pelo caráter paradoxal daimpossibilidade da subjetividade ser reconstituída como unidade. impossibilidade da subjetividade ser reconstituída como unidade. Não exatamente indiferente à discussão que polariza o conceito de modernidade ao de pós-modernidade, Früchtl pretende mostrar em sua argumentação que as três camadas da modernidade - apresentadas por ele sob uma perspectiva estético-filosófica, histórico e cultural, ao utilizar o filme como objeto de análise e justificação filosófica -, possuem um caráter de prospecção investigativa capaz de mostrar o solo denso e fértil do que ele considera ser o termo correlato da modernidade: a subjetividade.

É neste sentido que ele compõe a figura do herói moderno marcada pela ambiguidade e expressa em três modalidades e associações: 1. A dimensão auto-justificada do Eu na filosofia de Hegel relacionada ao gênero do filme de western, dimensão que compõe a ideia do Eu que se sabe dividido, mas que busca sua reconciliação com o mundo no entrelaçamento do subjetivo e do objetivo, criando uma relação também de intersubjetividade, ao buscar estabelecer leis, normas e padrões; 2. A dimensão da auto-contradição do Eu no Romantismo Alemão, associada aos filmes de gângsteres, dimensão que confere ao Eu um princípio de divisão agonística, caracterizada pela não conciliação dos elementos de sua divisão interna. Esta dimensão se caracteriza pela recuperação do trágico no contexto da modernidade, ao qual se acrescenta o elemento cool da ironia; 3. A dimensão de hibridização do Eu em Nietzsche e nas teorias pós-modernas, das quais se desprende um elemento lúdico, capaz de mostrar nas figuras que se compõem no gênero de filme de ficção científica, um caráter ambíguo, marcadas ao mesmo tempo pelo orgulho e pela deficiência.

Este artigo tem por objetivo a última dimensão caracterizada pelo hibridismo do Eu. Nosso comentário seguirá a ordem de apresentação do texto que compreende uma interpretação do conceito de Übermensch em Nietzsche como base de entendimento para a constituição do herói do gênero da ficção científica. A revisão deste conceito revelará um entendimento original deste, que tem por mérito sugerir acréscimos na forma como costumamos traduzir e conceituar o termo alemão para o português.

O projeto de superação da humanidade associado à criação ou criatividade artística será o elemento de ligação entre a filosofia de Nietzsche e os filósofos da pós-modernidade. As teorias de Foucault, Derrida e Deleuze serão consideradas, sobretudo, com uma ênfase particular: o corpo. Por meio da afirmação do corpo como “última fronteira” do Eu, recuperaremos a ideia de fronteira, de limiar, presente desde a primeira associação entre Hegel e o (far)oeste. Por fim, a ideia do hibridismo do Eu associada ao filme de ficção científica será caracterizada menos como “utopia” (o Eu substituto da conquista da Terra Prometida) e mais como “heterotopia”, ao considerarmos um campo teórico que lida com certas acepções, tais como: “discurso da diferença”, “identidade-patchwork” e “cultura da hibridização” (Cf. FRÜCHTL, 2004, p. 382 / 2009, p. 208).

Os filmes Matrix, Exterminador do Futuro 2, Blade Runner e 2001 – Uma odisseia no espaço, objetos de análise de Früchtl na associação das teorias, serão expostos ao final de maneira a revelar um entendimento menos “encantado” e mais crítico e associativo, em relação ao que acostumamos ouvir sobre esses filmes que se constituíram como material de reflexão nos cursos de filosofia desde que foram lançados no mercado há algumas décadas.

ISSN: 2177-4838

Texto Completo: https://drive.google.com/file/d/0B4AeuuKw4oJnbWVZd2ZBbnY3UkU/view

Revista Inquietude - Revista dos Estudantes de Filosofia da UFG

Indexada na QUALIS como B4, a Inquietude é a revista científica (ISSN 2177-4838) dos estudantes de graduação e pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal de Goiás. Trata-se de um periódico acadêmico semestral que publica textos filosóficos inéditos: artigos, traduções, resenhas e entrevistas.