A loteria na filosofia: probabilidade, risco e incerteza
Pedro Bravo
Professor Adjunto de Epistemologia e Filosofia da Ciência na Universidade Federal do ABC (UFABC); membro do GT de Epistemologia Analítica da Anpof
11/07/2025
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de Renato Kinouchi
Associação Filosófica Scientiae Studia, 2025
280 páginas | Acesse aqui
Ainda alimentados pela divisão “Exatas x Humanas”, estudantes de Filosofia se espantam logo que enfrentam a disciplina de Lógica em seus cursos. Como assim teremos algo parecido com Matemática em um curso de Humanas? Na verdade, a Lógica é indispensável para várias tarefas da Filosofia, como a análise e formalização de argumentos. Não à toa, há vários manuais sobre ela para filósofos. No entanto, muito da Filosofia da segunda metade do século XX para cá depende de outro ferramental próximo à Matemática, a Teoria de Probabilidades. Até este ano, não havia um livro em língua portuguesa que introduzisse a área para um público-alvo ligado à Filosofia. O lançamento de “A loteria na filosofia: probabilidade, risco e incerteza” de Renato Rodrigues Kinouchi (UFABC) preenche justamente essa lacuna, promovendo um maior acesso do público à diversidade de abordagens que caracterizam o fazer filosófico.
Publicado pela Associação Filosófica Scientiae Studia, o livro é dividido em quatro partes: Fundamentos, Decisões, Interpretações e Controvérsias. Na primeira parte, Fundamentos, Kinouchi apresenta a origem histórica e os conceitos básicos da Teoria de Probabilidades, explorando desde jogos de azar e problemas clássicos até a regra de Bayes e o teorema do limite central. A segunda parte, Decisões, aplica esse ferramental a situações de escolha sob incerteza, como apostas, seguros, veículos autônomos e dilemas éticos. Já em Interpretações, ele percorre as principais interpretações filosóficas da probabilidade (clássica, frequencista, propensista, lógica e subjetiva). Por fim, Controvérsias trata de debates filosóficos contemporâneos sobre indução, valores na ciência e riscos civilizacionais com base no referencial exposto.
Há, pelo menos, três grandes méritos no livro que merecem destaque. Primeiro, o ferramental matemático necessário para a discussão é apresentado de maneira gradual e contextualizada. Isso tanto facilita o entendimento de leitores com dificuldades em Matemática, como evita visões comuns em manuais de que determinada teoria simplesmente caiu do céu em determinado período da história. Segundo, o livro cumpre um duplo objetivo para a formação dos filósofos: ele tanto fornece ferramentas probabilísticas que podem ser utilizadas em discussões filosóficas além daquelas presentes no livro (e.g., probabilidade condicional para auxiliar na definição do que conta como explicação científica), como enfatiza as questões filosóficas que a própria Teoria de Probabilidade levanta (e.g., as diferentes interpretações – subjetiva, frequencista, propensista etc. – sobre probabilidade). Terceiro, diferentemente de outros livros internacionais sobre Probabilidade e Filosofia, Kinouchi não centra suas discussões apenas em temáticas próximas às áreas de Teoria do Conhecimento e da Filosofia da Ciência. De fato, no livro nota-se como a temática da Probabilidade tem implicações para praticamente todas as áreas da filosofia: da Metafísica à Etica e Filosofia Política, passando, claro, também por aquelas áreas.
Em relação ao último ponto acima, também é digno de nota como Kinouchi dialoga generosamente com autores das mais variadas correntes. Não há como deixar de notar aí uma ressonância do trabalho de Pablo Mariconda, editor da Scientiae Studia, colaborador de longa data de Kinouchi, e que, infelizmente, nos deixou recentemente. Sua postura aberta à pluralidade de perspectivas filosóficas e de outras áreas atravessa o livro, que também se apresenta como uma homenagem firme à sua influência e legado.