Correspondência: Exercícios de pensar juntos a escola (e outras questões educacionais)

Alice Pessanha Souza de Oliveira

Doutoranda em Filosofia na UFRJ

Raphael Ferreira Capaz

Doutorando em Filosofia e Ensino no Cefet/RJ

08/09/2026

Especial Lançamentos de livros - XXI Encontro Anpof

de Jan Masschelein e Walter Kohan
Nefi Edições, 2026 | Acesse aqui

Correspondência: exercícios de pensar juntos a escola (e outras questões educacionais) integra a coleção Ensaios da NEFI Edições. Seguindo as características da coleção, trata-se de um livro que apresenta reflexões a partir das relações entre a infância, a filosofia e a educação.

Entre cartas, Jan Masschelein, da Universidade de Leuven, Bélgica, e Walter Kohan, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, iniciam, em 2013, uma escrita compartilhando suas interrogações a respeito da escola e da filosofia. O título do livro, nesse sentido, parece fazer jus à obra. Já no primeiro bloco de cartas “O pedagogo e/ou o filósofo? Um exercício de pensar juntos (2013–2014)” Sócrates, Platão e Isócrates se integram a escrita para ajudar a pensar a escola em sua origem grega, skholé.

O tema da escola perpassa todo o livro, é retomado a cada carta, como um conceito comum. Para nos aproximarmos do vocabulário utilizado pelos autores, cuidadosamente pensado por eles, poderíamos dizer que a escola é o conceito que está entre eles, partilhando um mundo comum. Todavia, a diferença de “mundos” também é explicitada, sobretudo na medida em que a amizade vai se intensificando. Cada um desde seu “mundo”, com suas referências filosóficas e pedagógicas, mas sempre compartilhando a escuta, a escrita e a vontade de estarem juntos.

Já com os laços mais estreitos, em “Escolas, caverna e escrever no exterior (2017-2018)”, após três anos desde a última correspondência os autores nos convidam a pensar onde estamos escrevendo? Qual a força do lugar onde escrevemos? Agora no Canadá, onde Walter residirá por um ano, Paulo Freire integra-se aos tantos filósofos que já se apresentaram até aqui, além dos já citados: Arendt, Foucault, Rancière, Derrida, Simón Rodríguez, Heráclito, Kant, Lyotard, Stiegler. E que irá se ampliar ainda mais.

Ainda que a escola siga como uma questão transversal, outras vão ganhando espaço: a relação entre escola e a caverna, a relação entre tempo e espaço, a força do lugar que habitamos em nossa escrita, o torna-se escola/caverna dos lugares que habitamos, a colonialidade, a nomeação/denominação, o capitalismo, a tecnologia, as guerras.

As perguntas parecem dar o tom das correspondências, mas como o próprio Jan sinaliza, e como podemos perceber ao longo da leitura, os autores não resolvem as questões propostas, tampouco chegam a um fim. O que não impede de trilharem um caminho maravilhoso, como afirma Jan. E a cada carta, novas perguntas se integram às reflexões colocadas. As perguntas não respondidas, mas sempre bem cuidadas, exploradas a cada correspondência, convidam-nos a pensar sobre os temas da filosofia, da educação e da infância que vão pouco a pouco se desdobrando.

O fio segue, na virada para o terceiro capítulo, “Sobre o estudar e o escolarizar; o pedagógico e o político (2020-2021)”. Os autores, atravessados pelo isolamento pandêmico, perguntam-se pelo pedagógico e pelo político, e encontram, na experiência de Paulo Freire em Angicos, uma escola que se reinventa a si mesma. Vale a pena pensar, sobretudo para quem também é professor, quem também erra ao se educar, entre erros e errâncias, que Angicos não é uma origem. Mas sim o que os autores, já na introdução do livro, com Michel Serres, chamam de constelação: muitos começos que brilham em tempos diferentes e alcançam quem lê de repente, como estrela cuja luz demorou a chegar. Talvez toda escola que valha a pena pensar, sonhar e construir seja assim: não raiz, mas constelação de recomeços.

No quarto capítulo, “Sobre viajar, errar, jornadear e outras formas de amizade (2021-2024)”, encontra-se um vocabulário desenvolvido por outras mãos. Walter viaja pelo nordeste brasileiro, de agosto a dezembro de 2021, para celebrar o centenário de Freire. Grava mensagens de voz enquanto dirige, porque dirigir também é uma forma de pensar sem perder o fio da amizade. Erra como jornadear, como sair do lugar combinado. Talvez seja este um dos gestos generosos do livro: transformar o erro, de rota, de tempo, em forma de habitar o mundo.

E chega o quinto e último bloco de correspondência, “Uma correspondência sobre correspondências anteriores (2025)”, aquele que se debruça sobre as quatro anteriores. Diferente das cartas anteriores, agora escreve-se com a intenção de publicar, nesse momento as correspondências são retomadas como um projeto para tornar-se livro. Porém, apesar da tentativa de retomar os principais tópicos abordados ao longo dos últimos 12 anos, o que acontece é um novo (re)começo. É aqui que a escola, tantas vezes pensado como skholé, é posta à prova por Nego Bispo, pensador contracolonialista que Walter foi ouvir em sua própria terra. Nomear, diz Bispo, é dominar. E os dois amigos, em vez de defenderem sua terminologia, param, hesitam, perguntam-se se ainda vale a pena sustentar a distinção entre filosofia e educação como fizeram nas cartas anteriores. Há aqui uma honestidade rara: quem escreve há décadas sobre um conceito aceitar, em praça pública, suas tensões e contradições presentes.

A carta ensaia modos de se fechar, bem como o livro, em setembro de 2025, com Gaza doendo em toda parte, e com a pergunta pela escola ainda de pé, ainda aberta, porque nenhuma correspondência que vale a pena se fecha de verdade; apenas se suspende até o próximo recomeço.

Correspondência: Exercícios de pensar juntos a escola (e outras questões educacionais) (2026) interessará sobretudo a quem pesquisa educação filosófica, as filosofias e os estudos sobre as infâncias; mas também a quem tenta pensar os erros e os recomeços como modo de habitar o mundo, e não como o que precisa ser corrigido antes de se seguir em frente. Fica, ao fim, um retrato raro: dois amigos, duas pessoas pensando juntas, Jan Masschelein e Walter Kohan, por doze anos, sem pressa de concluir. E esta resenha, também ela feita a mais de uma mão, também ela sem prazo exatamente, mas com alguns fôlegos de vida, tenta, à sua modesta escala, honrar o mesmo gesto.

Ao final, o que parece fazer o livro é questionar como temos feito filosofia.  A escrita dos dois amigos perpassa questões recorrentes do ensino de filosofia, pergunta-se sobre o filosofar, a possibilidade e impossibilidade de ensinar a filosofia e o filosofar, resgata os clássicos da filosofia antiga, moderna e contemporânea ao mesmo tempo que convida filósofos e filósofas para além do cânone acadêmico para ajudar a pensar suas próprias questões. Mas também revela o percurso conceitual de dois amigos amantes da escola e da filosofia. Mais do que isso, o livro parece trazer à tona a própria filosofia enquanto amigo do saber, ao que Walter escreve, ao lembrar de outro amigo, Giuseppe Ferraro (2018), quando afirma: “não é que nos tornamos amigos porque fazemos filosofia, mas é porque somos amigos que fazemos filosofia.” Talvez essa tenha sido a condição que gerou esse livro.


Referências

FERRARO, Giuseppe. A escola dos sentimentos. Rio de Janeiro: NEFI Edições, 2018.

MASSCHELEIN, Jan; KOHAN, Walter Omar. Exercícios de pensar juntos a escola (e outras questões educacionais). Rio de Janeiro: NEFI Edições, 2026.