Depois da força de trabalho, veio a força da vida

Leticia Mariconda

Mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP)

30/07/2026

de Céline Lafontaine 
Associação Filosófica Scientiæ Studia, 2025274 páginas Acesse aqui

Como o capitalismo transformou o próprio vivente em fonte de valor, e por que essa mudança nos obriga a repensar ciência, justiça e democracia.

Há livros que respondem a perguntas já conhecidas. Outros obrigam o leitor a formular perguntas inteiramente novas. Corpo-mercado. A mercantilização da vida humana na era da bioeconomia, da socióloga canadense Céline Lafontaine, pertence a essa segunda categoria. Seu mérito não está apenas em denunciar a expansão dos mercados biomédicos ou em discutir os dilemas éticos das biotecnologias. Seu alcance é maior. O livro propõe uma interpretação original de uma das transformações mais profundas do capitalismo contemporâneo: o momento em que a própria vida deixa de ser apenas condição da atividade econômica para converter-se em uma de suas principais fontes de valor.

Durante a Revolução Industrial, a riqueza organizava-se em torno da exploração da força de trabalho. O corpo interessava ao capital porque trabalhava. Era sua capacidade produtiva que gerava valor. Hoje, argumenta Lafontaine, essa lógica não desapareceu, mas foi ampliada. O capitalismo continua dependendo do trabalho humano, porém passa a descobrir outra fonte de acumulação: os próprios processos biológicos.

Sangue, tecidos, células, óvulos, embriões, DNA e informações genéticas deixam de ser apenas elementos do organismo. Tornam-se recursos científicos, plataformas tecnológicas, objetos de propriedade intelectual e ativos econômicos. O corpo já não participa da economia apenas por meio do trabalho, participa também por meio de sua própria materialidade biológica.

Essa mudança é o verdadeiro objeto de Corpo-mercado.

Seria um equívoco, contudo, ler o livro apenas como uma crítica à mercantilização do corpo humano. Essa formulação, embora correta, reduz o alcance de uma investigação muito mais ambiciosa. Lafontaine não pergunta simplesmente se é legítimo comercializar óvulos, patentear genes ou explorar economicamente tecidos humanos. Seu interesse está em compreender como chegamos a um momento histórico em que essas práticas passaram a parecer naturais. Em outras palavras, procura reconstruir as causas e condições (intelectuais, científicas, econômicas e políticas) que tornaram possível transformar a própria vida em categoria econômica.

Essa perspectiva desloca o debate. Em vez de discutir tecnologias isoladas, a autora reconstrói uma genealogia. Mostra como a biologia molecular, a medicina regenerativa, os regimes de propriedade intelectual, as políticas de inovação e os mercados globais de pesquisa convergiram para produzir uma nova racionalidade econômica. A bioeconomia deixa de aparecer como um setor especializado da indústria biomédica e revela-se como uma forma inédita de organizar as relações entre ciência, natureza e capital.

Uma das contribuições mais elegantes do livro está justamente na história desse conceito. Hoje, "bioeconomia" costuma ser associada à inovação, à competitividade e ao desenvolvimento tecnológico. Lafontaine recorda, porém, que o termo nasce com um significado quase oposto. Ao recuperar a obra do economista Nicholas Georgescu-Roegen, mostra que a bioeconomia surgiu como uma crítica aos limites ecológicos do crescimento econômico. Décadas mais tarde, a mesma palavra passaria a designar um novo ciclo de expansão baseado precisamente na exploração tecnológica do mundo vivo. Poucas inversões conceituais ilustram de maneira tão clara as transformações do capitalismo recente.

No centro desse processo encontra-se aquilo que Lafontaine identifica como a fragmentação do corpo. A revolução biotecnológica não apenas aperfeiçoou técnicas médicas como alterou profundamente o estatuto do organismo. Células podem ser cultivadas indefinidamente em laboratório. Tecidos sobrevivem fora do corpo que lhes deu origem. Embriões permanecem congelados durante anos, talvez décadas. Sequências genéticas circulam em bancos de dados internacionais. Partes do corpo passam a adquirir uma existência relativamente autônoma, integrando redes científicas, jurídicas e econômicas que ultrapassam em muito a experiência individual de seus doadores.

É nesse ponto que Corpo-mercado alcança sua maior densidade filosófica. O organismo deixa de ser pensado como uma unidade indivisível e passa a existir como um conjunto de componentes biologicamente ativos, tecnicamente manipuláveis e com alto valor econômico. Não se trata apenas da circulação de materiais biológicos. Trata-se do surgimento de novos objetos, os bio-objetos, cuja existência depende simultaneamente da ciência, da tecnologia, do direito e do mercado.

Mas Lafontaine nunca perde de vista que essa reorganização da vida possui uma geografia e uma sociologia muito concretas. Os mercados biomédicos não operam sobre uma humanidade abstrata. Eles se desenvolvem em um mundo profundamente desigual, no qual recursos, riscos e benefícios são distribuídos de maneira assimétrica. Ao acompanhar a circulação global de tecidos, células, sangue, óvulos e embriões, a autora revela como as cadeias da bioeconomia frequentemente se apoiam em desigualdades econômicas, de gênero e geopolíticas. O turismo médico, a terceirização de ensaios clínicos, os mercados internacionais de reprodução assistida e a busca crescente por material biológico mostram que a inovação raramente se separa das relações de poder que estruturam a economia global.

Nesse sentido, Corpo-mercado não é apenas um livro sobre ciência. É também um livro sobre justiça. Seu argumento mais contundente talvez seja o de que a bioeconomia não elimina antigas formas de exploração, ela as reconfigura. Já não se trata apenas da apropriação da força de trabalho, mas da incorporação da própria vida aos circuitos de valorização econômica. E essa incorporação recai, de maneira desproporcional, sobre os corpos mais vulneráveis: mulheres submetidas aos mercados reprodutivos, populações periféricas recrutadas para ensaios clínicos, pacientes transformados em fornecedores de material biológico, comunidades cujos patrimônios genéticos passam a integrar cadeias globais de pesquisa e inovação.

Essa dimensão crítica explica por que o livro dialoga tão profundamente com o percurso intelectual de sua tradutora brasileira, Débora Aymoré (1980–2026). Filósofa da ciência, professora e pesquisadora das relações entre biotecnologia, valores sociais, biopolítica e epistemologias feministas, Débora dedicou sua trajetória a compreender como o conhecimento científico nunca é produzido em um vazio político ou moral. Em seus estudos, insistia que as tecnologias carregam valores, pressupostos e formas de organização social que precisam ser examinados filosoficamente. Não por acaso, encontrou na obra de Lafontaine um terreno de afinidade intelectual.

Sua tradução, concluída pouco antes de seu falecimento, preserva a precisão conceitual e a sofisticação argumentativa de um texto que exige do tradutor muito mais do que domínio técnico da língua francesa. Exige familiaridade com a história e a filosofia da ciência, com a sociologia das tecnociências e com os debates contemporâneos sobre biopolítica e bioética. Corpo-mercado. A mercantilização da vida humana na era da bioeconomia torna-se, assim, também uma homenagem a uma pesquisadora cuja breve vida foi dedicada a construir pontes entre ciência, filosofia e sociedade.

Ao trazer a obra de Céline Lafontaine para o público brasileiro, a Scientiae Studia não apenas amplia o acesso a uma das mais importantes intérpretes da bioeconomia contemporânea como reafirma seu compromisso em contribuir para o debate público sobre temas e problemas filosóficos e científicos que não só ainda são prementes em nossos dias, como em muitos casos se mostram urgentes de serem revisitados.

Ao terminar Corpo-mercado, o leitor dificilmente voltará a olhar da mesma maneira para um banco de sangue, uma clínica de reprodução assistida, um teste genético ou uma notícia sobre inteligência artificial aplicada à saúde. Não porque o livro ofereça respostas definitivas, mas porque modifica a própria pergunta. A questão já não é apenas o que as biotecnologias tornam possível, mas quem se beneficia dessas possibilidades, quem suporta seus custos e quais vidas permanecem mais expostas aos mecanismos de extração de valor.

Talvez seja essa a maior contribuição de Céline Lafontaine. Ela nos obriga a reconhecer que a grande transformação do capitalismo contemporâneo não consiste apenas em descobrir novas tecnologias, mas em redefinir o lugar da vida na economia. E nos lembra que toda reflexão sobre o futuro da ciência permanece incompleta enquanto não enfrentar a pergunta que atravessa silenciosamente cada página de seu livro: a serviço de quem se produz conhecimento e quais formas de vida escolhemos negociar quando transformamos o vivente em recurso econômico?