Desmistificando Berkeley: A Metafísica da Percepção contra a extravagância Subjetivista
Warley Kelber Gusmão de Andrade
Doutor em Filosofia pela UFSCAR
08/09/2026
Especial Lançamentos de livros - XXI Encontro Anpof

de Pablo Enrique Abraham Zunino
Editora Appris, 2025 | Acesse aqui
A publicação do livro Berkeley: A Metafísica da Percepção, de autoria de Pablo Enrique Abraham Zunino, pela Appris Editora, representa um acontecimento editorial de primeira grandeza para os estudos de filosofia moderna e teoria do conhecimento no Brasil. Com efeito, a investigação propõe uma análise rigorosa e altamente documentada do sistema imaterialista berkeleyano, elegendo a percepção visual da distância e a relatividade do movimento como os eixos centrais a partir dos quais se redefine a relação entre mente, corpo e mundo. Ao abrirmos as páginas deste livro, somos imediatamente confrontados com uma questão teórica incontornável: como é possível sustentar a objetividade e a certeza da experiência humana ordinária sem recorrer à postulação de uma substância material invisível e independente do espírito? Evitando as leituras simplistas que historicamente rotularam George Berkeley como um idealista subjetivo extravagante, o pesquisador realiza uma reconstrução interna do pensamento do filósofo irlandês, demonstrando como a negação da matéria constitui, na verdade, uma defesa radical do senso comum e um resgate da própria integridade da experiência sensorial.
Para dar conta da complexidade deste problema metafísico, o autor reconstrói com precisão o cenário epistêmico do século XVII, marcado pelo avanço do dualismo cartesiano, do empirismo de John Locke e do modelo corpuscuslar de Robert Boyle. A obra esclarece como a doutrina clássica da representação acabou por criar um abismo instransponível entre o sujeito cognoscente e a realidade física, uma vez que as ideias eram tratadas como meras cópias mentais de qualidades inerentes a objetos reais imperceptíveis. A análise detida do livro concentra-se na distinção de Locke entre qualidades primárias e secundárias, mostrando que a suposição de que a extensão, a figura e o movimento possuem um suporte objetivo externo enquanto as cores e os sons são meramente subjetivos, conduz inevitavelmente ao ceticismo. Se a mente humana apenas acessa as suas próprias ideias, torna-se impossível demonstrar qualquer conformidade entre estas e uma substância oculta. Berkeley responde a esse impasse colapsando a própria distinção representativa: ideias e objetos sensíveis são ontologicamente identificados sob a célebre formulação de que ser é perceber e ser percebido (esse est percipi). As coisas que nos cercam não são representadas por nossas sensações, mas são apresentadas diretamente à consciência como coleções de ideias ativamente coordenadas.
Essa identificação imediata ganha a sua primeira e mais sólida fundamentação psicológica e epistemológica na análise da percepção visual, exposta em An Essay towards a New Theory of Vision, de 1709. E Zunino dedica uma atenção minuciosa à demonstração de que a distância espacial, a magnitude e a posição tridimensional dos corpos não são dados imediatamente percebidos pela visão. O argumento berkeleyano de partida, de caráter estritamente geométrico e óptico, estabelece que a distância, sendo uma linha reta que termina perpendicularmente no fundo do olho, projeta apenas um ponto na retina, o qual permanece invariavelmente idêntico, seja o objeto próximo ou distante. Disso decorre que a estimativa da distância não é uma apreensão sensorial direta, mas um ato de julgamento baseado inteiramente na associação habitual de ideias propiciada pela experiência. O livro descreve com rigor os mecanismos que funcionam como guias de distância: o movimento muscular de rotação dos globos oculares, a aparência nítida ou confusa das imagens na retina e a consequente tensão ocular realizada para manter o foco. Essas sensações cinestésicas, assimiladas ao tato e ao movimento do próprio corpo, são associadas habitualmente aos dados visuais primários (luzes e cores). Pela repetição e pelo hábito, as aparências visuais passam a atuar como signos que sugerem à mente as sensações táteis que o sujeito experimentará caso realize determinados movimentos corporais.
Zunino salienta que essa tese repousa sobre o princípio da heterogeneidade radical dos sentidos. Não há uma ideia comum de extensão ou distância compartilhada pela visão e pelo tato; os objetos visíveis e os objetos tangíveis são numericamente distintos. Para ilustrar esta desconexão estrutural, o livro examina detidamente o clássico Problema de Molyneux, o qual questionava se um cego de nascença, subitamente curado, seria capaz de distinguir visualmente um cubo de uma esfera de metal que ele antes conhecia apenas pelo tato. Berkeley e o pesquisador sustentam a resposta negativa: sem a experiência prévia que conecta as sensações visuais e táteis, o cubo e a esfera pareceriam inicialmente ao recém-curado apenas sensações de cores e luzes situadas na sua própria mente. O autor reforça a precisão empírica dessa análise ao referir-se ao caso cirúrgico documentado pelo Dr. Cheselden, no qual um jovem de catorze anos submetido a uma cirurgia de catarata relatou que, ao ver pela primeira vez, sentia que todos os objetos tocavam os seus olhos. A percepção visual tridimensional é, portanto, um aprendizado prático: a visão opera como um sistema de signos visuais ordenados de modo regular, permitindo-nos prever as consequências táteis e cinestésicas de nossas ações.
O percurso argumentativo do livro atinge a sua máxima relevância epistemológica ao direcionar essa teoria da percepção para a crítica aos fundamentos da física newtoniana, formulada principalmente no tratado De Motu, de 1721. Berkeley recusa categoricamente os conceitos de espaço absoluto, tempo absoluto e movimento absoluto, denunciando-os como ficções intelectuais decorrentes do abuso da abstração linguística. O espaço absoluto, concebido como um receptáculo vazio e independente da presença de corpos físicos, é desmascarado como uma noção vazia que não afeta de modo algum os nossos sentidos, equivalendo ao próprio nada. Do mesmo modo, o tempo não possui uma duração universal e uniforme independente da mente, sendo definido unicamente pela sucessão de ideias na consciência. Por conseguinte, reconstrói-se o argumento de que todo movimento concebível é essencialmente relativo, exigindo sempre um corpo físico como referencial para a determinação da variação de distância. Ao analisar os experimentos mecânicos de Isaac Newton, como o do balde de água em rotação ou o das duas esferas unidas por uma corda em um espaço vazio, o livro demonstra como Berkeley antecipou com impressionante originalidade as críticas da mecânica científica de Ernst Mach e as bases epistemológicas da teoria da relatividade de Albert Einstein.
A originalidade da interpretação proposta por Zunino consiste em evidenciar o caráter instrumentalista da ciência berkeleyana. Conceitos fundamentais da física matemática, como força ou atração, não possuem qualquer realidade ontológica ou eficácia causal em si mesmos; são hipóteses matemáticas, ferramentas simbólicas extremamente úteis para organizar a nossa experiência e realizar previsões precisas acerca do comportamento dos corpos. A verdadeira causalidade física não reside na matéria inerte, mas na vontade de substâncias ativas e espirituais. A física opera legitimamente no plano das relações instrumentais de significação, enquanto a metafísica investiga as causas eficientes e reais do movimento. O fluxo coordenado da natureza é a constante ação reguladora de Deus, que imprime em nossas mentes as ideias visíveis e tangíveis de acordo com leis constantes que podemos compreender e utilizar para a nossa sobrevivência física.
A estrutura formal de distância e movimento em Berkeley destaca-se pela sua clareza exemplar e pelo rigor filológico com que o autor transita pelas fontes primárias e pela tradição crítica anglo-saxã, dialogando com nomes proeminentes como A. A. Luce, I. C. Tipton e George Pitcher. A escrita do autor, embora mantenha a densidade exigida para uma obra de filosofia, adota uma postura expositiva elegante e direta que desmistifica os estudos tradicionais sobre o idealismo setecentista. O livro não é meramente um estudo exegético restrito a especialistas; trata-se de um convite intelectual estimulante para repensar os limites do realismo ingênuo e as fundações da ciência contemporânea.
Adquirir e ler esta obra é indispensável para qualquer pesquisador, professor ou estudante sério que deseje compreender a fundo as conexões profundas entre a epistemologia da mente e as bases metodológicas da física. A obra oferece-nos uma chave de leitura que renova o nosso olhar sobre George Berkeley, mostrando como a sua filosofia se mantém extraordinariamente viva e dialogante com os dilemas contemporâneos da filosofia da ciência. É um volume essencial, de altíssima qualidade acadêmica, que merece um lugar de destaque em qualquer biblioteca filosófica de referência no Brasil.