Nada mais e tudo menos que a verdade: resenha de O Fake: o que é isso? E por que vivemos nele?

José Marcelo Siviero

Doutor em Filosofia pela USP

08/09/2026

Especial Lançamentos de livros - XXI Encontro Anpof

de Benito Maeso
Editora Platô, 2024 | Acesse aqui

*** REPASSEM É IMPORTANTE, ELES NÃO QUEREM QUE VOCÊ SAIBA!!!***

O novo livro de Benito Maeso, pesquisador que tem se debruçado sobre vários aspectos relacionados à nossa relação com as mídias sociais e as diferentes maneiras pelas quais a cultura de massa têm afetado o ethos contemporâneo de uma população com um acesso cada vez maior à informação e, em contrapartida, com um pensamento crítico cada vez mais coagido pela exaustão desse fluxo incessante, bem poderia começar com essa pequena peça de propaganda. Pequena, porém bombástica, com impacto planejado e calculado, a mesma precisão que se espera de uma campanha publicitária de sucesso.

Maeso se propõe a analisar como o fake, conceito que começa pela difusão de notícias falsas e informações fraudulentas, escapa ao âmbito comunicacional e se torna um modo de vida, pautando toda a vida individual e coletiva com a mesma amplitude com que se esperava, pelo menos desde Platão, que a razão assumiria dentro do projeto da Paideia grega.

Essa remissão à Antiguidade filosófica, aliás, transparece no prefácio de Chaui, que caracteriza a obra em mãos como “um livro socrático”: “Benito Maeso escreve na primeira pessoa do singular, indicando que não se furta ao percurso do conhecimento e que o partilha conosco, fazendo perguntas a si próprio e a nós, levando-nos a descobrir que não sabíamos exatamente o que é o fake” (CHAUI, prefácio, 2024, p.9). A Internet desponta como a nova ágora, calcada numa sofística tecnologicamente redesenhada.

Uma inversão das duas noções-chave que fundamentam o princípio de verdade fixado pela tradição filosófica: o fake propicia, por mais paradoxal que seja, a subversão da adaequatio aristotélica, em que o “verdadeiro” se fundamenta na inadequação ou inconveniência entre o que se pensa e a realidade que se mostra (quer dizer: se penso que as vacinas contêm um chip chinês de controle de mentes ou uma toxina que dissemina outras doenças, e mesmo que estatísticas, documentos, relatos e fórmulas neguem tal constatação com provas e argumentos consistentes, o fato de minha opinião e impressões recusarem cada uma das evidências só pode ser prova cabal de que a ciência está errada), e, de outro lado, a inversão do cogito ergo sum cartesiano, a saber, a perda de autonomia do pensamento e a criminalização da dúvida (afinal, como se pode confiar na própria intuição se quem afirma que há uma conspiração comunista operando através de camarilhas ocultas é uma autoridade perseguida e calada por essas mesmas forças? E quem duvida disso, mesmo com base na observação da realidade, só pode ser um cúmplice ou vítima de lavagem cerebral por parte desses mesmos conspiradores…).

Esse é, como reafirma Marilena Chaui no prefácio, um tratado filosófico formulado como um “manual de instruções”, contendo a súmula do assunto abordado, seu modo de operação e, por fim, um conjunto de diretrizes para se lidar com ele. Um ponto decisivo, no entanto, norteia todo o trabalho e lhe confere um peso filosófico: ele orbita na consideração de que o fake não deve ser observado como uma negação da verdade, tal qual a falsidade lógica, mas antes como, no exemplo evocado de Aristóteles, uma distorção ou “edição” (termo que hoje tem grande peso semiótico e instrumental) da verdade, seja pelo lado da jactância ou da ironia.

O título reforça esse papel prático: o que é isso? E por que vivemos nele? A “verdade – ou contar a verdade – também depende de QUEM conta, de QUANDO conta, de COMO se conta e DO QUE é contado. A perspectiva é, ao final, um elemento que compõe a nossa noção do que é a verdade” (p.13, grifos do autor). Esse material, segundo Maeso, fornecerá estofo e matéria-prima para que a produção passiva de fake news, e aponta para mudanças significativas não só na maneira como consumimos a informação, mas também como a ela reagimos e como a replicamos em nossos círculos sociais e virtuais.

O sumário se organiza como uma caixa de ferramentas ou um algoritmo de reconhecimento, coleta, classificação e análise. O primeiro capítulo explicita muita da ambiguidade de mensagens que vemos, por exemplo, nos grandes murais de thumbnails com os quais nos deparamos ao acessar plataformas de vídeos, em que toda a catadupa de informações, fragmentadas e sintéticas, mas com linguagem contundente, defende que o fake não é nem verdade, nem mentira, muito pelo contrário: o discurso lacunar, conceito de Chaui, aplica-se à técnica comunicacional dos clickbaits, ou, numa tradução literal, as iscas lançadas para se coletarem cliques apelam para nossas emoções, suspeitas, crenças e sentimentos de injustiça e indignação, mais pelo jogo da ambiguidade da mensagem do que pelo seu conteúdo manifesto. O capítulo 2 perguntará quem é esse fake, o agente/paciente desse mecanismo de mentira, e a surpresa apresentada por Maeso é de que somos nós: o fluxo de mensagens falsas e reais entrelaçadas despertam um autoritarismo latente, um ressentimento social e um medo desumano em todos os que recebem a mensagem. O capítulo 3 desenvolve exatamente a tese de que o fake não é uma consequência da comunicação de massa; não é equívoco, nem neurose, nem um evento casual, mas sim um modo de vida, uma maneira de ver, intervir e habitar o mundo, tanto no terreno do privado quanto no do coletivo, em que a indistinção entre real e falso é intencional. O capítulo 4 elenca notícias em que o uso das fake news acarretou episódios de violência real. Sob o título O poder do fake, mostra como as notícias falsas se distinguem, em sofisticação e potência, aos antigos boatos, reportagens forjadas, dossiês e demais artifícios fraudulentos, em sua maioria utilizados pela imprensa sensacionalista, para provocar comoção e manipular a opinião pública.

Resta-nos a pergunta, homônima ao capítulo final: É possível encontrar uma saída? A resposta do autor, no entanto, é inesperada, e mostra que, por um lado, há uma fatalidade em cada mudança desencadeada por cada avanço tecnológico, e os hábitos vitais que adquirimos em concomitância a essa vaga de progresso não retroagem. Mas há, no retorno à práxis em sentido lato, um chamado para a conscientização e ação no mundo real e concreto, a partir de atos pontuais e efetivos, como o desenvolvimento técnico da identificação de informações falsas e o trabalho de comunicação comunitária (ainda que em grupos inicialmente pequenos), eficiente a longo prazo, mas que frente à agilidade do desenvolvimento das redes (e, no contexto atual, da anulação de qualquer tipo de checagem ou controle de conteúdo, política adotada ampla e livremente em redes como o X e o Facebook) é ainda a atitude possível e viável.

Destaque-se a linguagem empregada por Maeso, ágil, sintética, clara, prudentemente utilizando gírias, jargão popular e neologismos tanto do mundo pop quanto da Internet, e o esforço para que a obra não afaste leitores com a pompa e a tecnicidade do meio acadêmico-científico, com o objetivo de nos interpelar e dizer: isto é também um estudo acadêmico, isto é também um livro para um grande público interessado nos assuntos do momento, isto é também para nos levar a reflexões e insights pessoais, mas também é para trazer à tona novas perspectivas científicas sobre a informação e, em última instância, as turbulências políticas da década corrente e também dos próximos anos.

Como falamos longamente sobre a linguagem, suas implicações lógicas, ideológicas e políticas, e os avisos enunciados por Paulo Vieira Neto no posfácio o reforçam, os signos já se organizam na capa do volume publicado pela Platô Editorial: um marionete ou estafermo articulado de madeira, cujas formas evocam intencionalmente o clássico Pinóquio de Collodi, mas dominado por cordéis e enquadrado na tela de um celular, que lhe serve de palco, rodeado ao fundo por estampas dos vários emojis empregados na comunicação rápida de memes e mensagens instantaneamente disparadas. Mais que um estafermo, como o caracterizamos anteriormente, este é também um crash dummy, o boneco humanoide de testes empregado em acidentes controlados; todos nós, enquanto consumidores, produtores e replicadores de conteúdo.

Advertência para uma época de inflação de informações, carência de conhecimento, precarização de reflexão e exaustão da práxis, o que torna ainda urgente (e necessária, e irremediável, fatalmente inescapável) a luta política. Tempos em que “por comodismo, paranoia ou interesse pessoal, [as pessoas] acabam por se recusar a ouvir ou aceitar qualquer informação ou modo de ver o mundo que seja diferente de sua convicção pessoal inicial” (p.120), mas que por isso mesmo reclamam, poderíamos até dizer (não sem um certo temor) uma dialética da “busca por uma vida prática, ou de práxis, onde pensamento, ação e intersubjetividade andem próximas” (p.123).

 

***** ATENÇÃO, REPASSEM ATÉ CHEGAR NO MAIOR NÚMERO DE PESSOAS, FAÇA SUA PARTE ATÉ CHEGAR NAS AUTORIDADES, VAMOS PARAR O BRASIL*******